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CLÁSSICOS DA LITERATURA

A Arte Poética de Verlaine

Paul Verlaine (1844-1896) estreou com sete poemas no primeiro número do Parnasse contemporain (1866), coleção que inaugurou o parnasianimo. No mesmo ano publicou seu primeiro livro, Poèmes saturniens, em que, apesar da acentuada influência de Baudelaire, a começar pelo título do livro, já se pressentiam alguns traços que, posteriormente desenvolvidos, iriam contribuir para a definição do simbolismo. Pois é na direção do simbolismo que se vai produzir a melhor poesia de Verlaine, como a de Fêtes galantes (1869), Romances sans paroles (1874), Sagesse (1881) e Jadis et naguère (1884).

A década 1870-80 foi de grande importância para a definição de sua poesia. Ao lado da crescente ascendência de Baudelaire, considerado mestre pela nova geração, houve o aparecimento de Rimbaud. Ainda que a glória de Rimbaud só apareça a partir de 1855, é inegável que ele teve decisiva influência na poesia de Verlaine. Foi durante o ano de prisão em Bruxelas que Verlaine conseguiu imprimir novos rumos, epirituais e estéticos à sua produção poética, procurando uma linguagem que não ficou apenas na poesia, chegando também a manifestar-se criticamente em metalinguagem, como no poema "Art poétique", escrito em 1874 e só publicado dez anos depois em Jadis et naguère, título aliás bastante sugestivo para a nova dimensão estética que seu livro iria auxiliar a construir.

Parece que a gênese da "Art poètique" foi, além da reviravolta espiritual de Verlaine, o artigo que Brémont escreveu sobre o Romances sans paroles, editado quando o poeta cumpria a sua pena em Bruxelas. O referido artigo, severo mas atencioso, intitulava-se "C’est encore la musique" ("É ainda sobre música"), frase que teria motivado o verso inicial do poema de Verlaine ("De la musique avant toute chose"), o qual se repete, ligieramente modificado, no início da penúltima estrofe ("De la musique encore et toutjours!"). Na verdade, a "Art poétique", antes da edição em livro foi publicada pela primeira vez em novembro de 1882, no Paris-moderne. Recebeu dura crítica de Charles Morice, o que valeu a resposta de Verlaine que se defendia da acusação de hermetismo e de menosprezo à rima, numa polêmica que serviu para tornar conhecido o nome do poeta, cujas Fêtes galantes haviam passado despercebidas do público, entusiasmado na época com o sucesso de um livro de François Coppée. Logo depois o poeta passa a colaborar na revista onde havia saído a crítica (La nouvelle rive gauche), tornando-se amigo de Morice e, em agradecimento talvez pela agitação agora em torno do seu nome, dedica-lhe a "Art poétique" ao publicá-la em livro dois anos depois.

Na opinião de Verlaine, num artigo de 1890, a sua Art poétique deveria ser vista apenas como uma canção . Não se sabe se o poeta estava sendo irônico, tal como o nosso Carlos Drummond de Andrade quando disse que o seu poema "No meio do caminho" era apenas uma repetição de vocábulos. Sabe-se que dentro do espírito da época, a palavra canção possuía sua conotação musical inteiramente de acordo com as tendências expressionistas que se queriam implantar. Daí porque o seu poema foi o ponto de partida da funda aventura simbolista. Superando os padrões parnasianos e desenvolvendo o legado inventivo de Rimbaud, seu texto passou imediatamente a ser estudado e assimilado por jovens poetas, repartidos nessa altura entre Verlaine e Mallarmé, mas todos dentro do pessimismo decadentista que já começava a se definir na direção do simbolismo.

(Gilberto Mendonça Teles)

 

ARTE POÉTICA

A Charles Morice

Antes de qualquer coisa, música
e, para isso, prefere o Ímpar
mais vago e mais solúvel no ar,
sem nada que pese ou que pouse.
E preciso também que não vás nunca
escolher tuas palavras em ambiguidade:
nada mais caro que a canção cinzenta
onde o Indeciso se junta ao Preciso.
São belos olhos atrás dos véus,
é o grande dia trêmulo de meio-dia,
é, através do céu morno de outono,
o azul desordenado das claras estrelas!
Porque nós ainda queremos o Matiz,
nada de Cor, nada a não ser o matiz!
Oh! O matiz único que liga
o sonho ao sonho e a flauta à trompa.
Foge para longe da Piada assassina,
do Espírito cruel e do Riso impuro
que fazem chorar os olhos do Azul
e todo esse alho de baixa cozinha!
Toma a eloquência e torce-lhe o pescoço!
Tu farás bem, já que começaste,
em tornar a rima um pouco razoável.
Se não a vigiarmos, até onde ela irá?
Oh! Quem dirá os malefícios da Rima?
Que criança surda ou que negro louco
nos forjou esta joia barata
que soa oca e falsa sob a lima?
Ainda e sempre, música!
Que teu verso seja um bom acontecimento
esparso no vento crispado da manhã
que vai florindo a hortelã e o timo...
E tudo o mais é só literatura.

(Paul Verlaine)

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