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ARTE NA CIDADE DOS VERDES - CATAGUASES

Através de Oscar Niemeyer, a quem havia encomendado o projeto de sua residência em 1940 e do Colégio (1945), Francisco Inácio Peixoto traz a Cataguases Cândido Portinari, pintor modernista, já na ocasião de grande importância, tendo obras no Museu de Arte Moderna de Nova York (1938) e sendo autor de três painéis para o Pavilhão brasileiro da Feira Mundial (1939). A 11 de Dezembro de 1949 é inaugurado o mural "Tiradentes" .

Nele verifica-se o pós-cubismo desenvolvido pelo artista à época. O tema, por seu caráter narrativo-histórico, acaba por anunciar uma necessidade ilustrativa, onde se revelam alegorias à liberdade como correntes partidas, membros expostos, figuras em lamentação, além, é claro, do fundo esquematizado das referenciais montanhas de Minas Gerais.

Se por um lado, a partir da construção do Colégio de Cataguases e de outros edifícios públicos sugere-se o convívio cotidiano com a modernidade, por outro a população de maior poder aquisitivo se interessa pela aquisição de acervos modernos propiciando o surgimento de coleções como a da Sra. Josélia Pacheco e da artista plástica Nanzita Gomes.

Ao longo dos anos 50, aparece uma série de painéis e esculturas, que irão compor o ambiente modernista da cidade.

Em Novembro de 1950 hospeda-se em Cataguases o artista tcheco Jan Zack, tendo sido incumbido da execução do monumento à memória do professor Antônio Amaro, obra concluída em 1927 que hoje se encontra no Colégio de Cataguases. Além dessa, outras obras de Jan Zack enriquecem o patrimônio artístico de Cataguases como as duas representações de "Mulher" (uma no jardim de entrada da residência de Francisco Ignácio Peixoto -1950) e outra no jardim do Hotel Cataguases -1951).

Em todas as três obras vê-se a preocupação com o tratamento dos volumes, em formas esquematizadas, as mulheres apresentam linhas arredondadas, volumetria compacta e arcaizante sem detalhamento. Nos anos subseqüentes, incrementa-se a encomenda de painéis decorativos e monumentos na cidade.

De 1956 temos o painel "Criação do Mundo" de Emeric Marcier no Educandário Dom Silvério. Ainda no Educandário vê-se, do lado exterior, o mural de azulejos de Anísio de Medeiros, composto por diagonais formadas por pássaros em desenhos simétricos.

A representação de fundo em azul com grandes espaços livres em branco dá à composição o interessante efeito de positivo/negativo, à maneira alegre e poética da fase de papéis recortados de Matisse. Os dois artistas viriam a concretizar mais um projeto similar (pintura interna de Marcier e painel de azulejos de Anísio Medeiros) na residência da pintora Nanzita Gomes, sendo o primeiro uma cena do Rapto de Helena de Tróia e o segundo uma composição figurativa de uma "Feira Nordestina" (1958).

No ano de 1956, Cândido Portinari e Bruno Giorgi são contratados para realizarem um painel e uma escultura, que comporiam parte do projeto arquitetônico de Francisco Bolonha erguido em homenagem a José Inácio Peixoto sob a encomenda dos empregados da Cia Industrial Cataguases.

A escultura de Bruno Giorgi, chamada "A Família", destaca-se como um grupo escultórico de volumetria recortada em formas estilizadas tendendo à abstração, que viria a caracterizar a sua fase posterior. Já o painel de azulejos vitrificados, Portinari contou com a execução de Américo Braga a partir de um projeto cujo estudo original se encontra na residência da Sra. Josélia Pacheco. Nesse painel, Portinari, a partir de uma organização espacial clássica, elabora figuras geometrizadas ainda decorrentes da influência cubista, mostrando o trabalho das mulheres fiandeiras. A temática de fundo social exalta a participação feminina no trabalho de fiação e tecelagem.

Nos anos 60 Cataguases recebe a obra de Djanira num painel de azulejos para a Igreja de Santa Rita. A cena composta sem a preocupação perspectiva clássica, destaca-se pelos planos sobrepostos ao modo dos ícones pré-rafaelistas. O "Composité" formado pela variação da padronagem dos azulejos e o "degradé" em tons de azul evocam a religiosidade popular e a tradição colonial portuguesa.

A onda da pintura mural e dos painéis se espalha por Cataguases nas residências particulares e prédios públicos distinguindo-se entre esses a pintura mural abstrata (1960) de Domenico Lazzarini situada à Av. Astolfo Dutra 444, onde se verifica a tendência compositiva gráfica, com linhas horizontais e verticais que se cruzam informalmente compondo pequenos espaços coloridos.

Das coleções particulares reunidas ao longo do tempo destaca-se a de Francisco Inácio Peixoto, onde existem obras de artistas brasileiros como Santa Rosa(pássaro), Portinari(D.Amélia) e (Inácio Peixoto), Milton da Costa(Composição), Iberê Camargo (Casario); os estrangeiros Luçart (tapecaria/animal), Utrillo (Mulheres), Picasso (s/título - litogravura), entre outros.

Na coleção de Josélia Pacheco encontram-se obras de Bruno Giorgi (esculturas - homem, mulher deitada), Di Cavalcanti (figura feminina), Guignard (paisagem , parque municipal e Cristo), Emeric Marcier (casario), e entre as obras de Portinari a conhecida "Ceia", obra de grande monumentalidade, onde a técnica pictórica de Portinari ganha conotação de virtuosismo clássico.

Além de colecionadora importante, com obras de Marcier, Bruno Giorgi e Tenreiro, a pintora Nanzita é hoje uma das expressões femininas da arte produzida em Cataguases com trabalhos destacáveis no panorama da pintura mineira, como "Natureza Morta", datada de 1946, que demonstra o interesse pela organização espacial, solucionada pelo predomínio dos volumes equilibrados. As obras modernas que surpreendem o visitante desavisado, por sua presença cotidiana correm o risco de passarem despercebidas pela própria população local, tornando-se lugar comum. Mas a insinuação dessa modernidade visual não deixa de reverter-se hoje na importância mais que artística, histórica e patrimonial. Constitui-se em referência daquela inquietude própria ao "espírito moderno" que contagia os artistas e a intelectualidade brasileira dos anos 20.