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Críticas da escola


Educação

" A educação é uma coisa admirável. Mas é sempre bom lembrar, de tempos em tempos, que nada daquilo que realmente vale a pena saber pode ser ensinado". Oscar Wilde

Ouvi ontem de um teórico norte-americano (e nem sei o nome dele!), numa entrevista do programa Roda Viva (TVE), que no mundo globalizado a educação perdeu o seu sentido. Que neste contexto macro-econômico a educação não é prioridade. Segundo esse autor, é importante se preocupar em assegurar a abertura da economia mundial e reverter gradativamente os índices de desemprego. Portanto, o que o mundo pede hoje dos povos e dos governos, é que se esforcem para preparar mão-de-obra qualificada. Ouvi ainda, nitidamente, o autor dizendo que ninguém se preocupa hoje em ser culto, educado, com boa formação em ciência e tecnologia e em humanidades. Sei que ele quis dizer que conhecimento não é para o povo e não garante realização e satisfação pessoal a ninguém, mas que poder consumir é mais importante que saber. Isto é explícito mas é uma meia verdade! Haja visto a produção pseudo-artística em cinema, música e televisão norte-americana. Os Estados Unidos da América abastecem com 70% a programação mundial de TV. São 70% besteirol mesmo! Cultura para as massas! É isso que o povo consome e quer consumir. Com esse raciocínio recheado de tabelas, índices e percentis, este importante teórico norte-americano vai disseminando por aí um pensamento que não é só dele, mas com um tom seguro e veemente de quem faz ciência, de quem fabrica a realidade. A contragosto ouvi que é natural que os governos devam desinvestir em educação, para poder conter a inflação, gerar investimentos e garantir a inserção no mercado global.

Acredito, com meu corpo e com minha mente que, no Brasil mesmo, existem pensadores e teóricos mais lúcidos, e que eles estão, em grande parte, trabalhando na Educação. São pesquisadores, filósofos, cientistas, artistas, enfim – professores.

São os educadores de hoje que estão na berlinda dos tempos, resgatando e promovendo valores que humanizem, ao menos um pouco, o que não tem volta: - a corrida da globalização. Ainda resta salvaguardar, de um lado, um campo epistemológico, e de outro, a qualidade dos processos coletivos de produção da cultura, dos valores, da beleza. É preciso restabelecer a saúde dos idiomas. A humanidade como um todo precisa se responsabilizar por acudir urgentemente este empobrecimento global da subjetividade, onde se prefere ler Batman & Robin, em detrimento do que vem do saber popular e dos grandes nomes da literatura, da música, da pintura, etc.

Resgatar uma humanidade que pensa, que sente, que cria, é tarefa de todos, mas nesse processo, o condutor especial e privilegiado é o professor. O agenciador dos focos coletivos de enunciação – principalmente quando rejeita o papel de formador de homogeneidade. O professor é o fio condutor na rede dos processos de formação do saber e da cultura. É também e principalmente ali, no contexto acadêmico, na escola, que se constrói na ação com outros. É ali que a criança se exercita, adolescendo, e forma-se adulto, e quem ajuda muito nessa transformação-construção é a figura do professor.

Mas não cabendo mais ao professor o papel de detentor-retransmissor de um conhecimento pronto e acabado, o que se espera hoje daquele que conduz o aluno na busca de conhecer-se e de conhecer o universo?

Sigamos o insight ( ou, a grande idéia ) de Oscar Wilde... não precisamos sofregar culpas históricas e acumuladas, o desejo de corrigir totalmente o rumo das coisas... uma história complexa se desenrola até hoje! Um só professor não move um oceano de eventos e fatores! Mas, cada um, na lida cotidiana com a educação, com as equipes, com os alunos e com toda a comunidade acadêmica, agencia pontos de partida e viabiliza o percurso, enriquecendo todo o processo. Movemo-nos nas micro-políticas. Plantamos a dúvida nalguns, deixamos outros encontrarem certezas, outros tantos se des-cobrirem através dos próprios erros... Acompanhamos atentamente o surgimento de brotos de conhecimento e de sabedoria na alma dos nossos alunos. Eu sei que ocorre assim, pois carrego comigo até hoje, claramente sonoras ainda, palavras que ouvi dos meus mestres e que falam comigo, mostrando, instruindo, asseverando, alertando-me, instigando a dúvida, amparando minhas descobertas mais importantes.

Especialmente no dia dos professores, saem das sombras da mente essas lembranças, que trazem a voz viva daqueles que falam em nós até hoje – através do que somos, e dos sonhos que plantaram...

Eduardo Guerra França

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Professor : Objeto para Museu

Jean Piaget chama a atenção para o fato de não surgirem, de tempos em tempos (até mesmo, anualmente, como no caso dos ganhadores do Prêmio Nobel), grandes pedagogos ou, pelo menos, resultados originais de pesquisas científicas que influenciaram o processo educativo , ao contrário do que ocorre, por exemplo, em medicina. Que descoberta psicológica, biológica, sociológica, nos últimos cinquenta anos, determinou mudanças no processo escolar?! Salvo o uso esporádico de material sugerido pela tecnologia educacional, nenhuma modernização ocorreu, no último século, no sistema escolar! Assinala, também , que os indivíduos que mais influenciarm em educação, em geral, não foram educadores : Comênio (teólogo e filósofo), Rousseau (sequer cuidou dos próprios filhos), Froebel (químico e filósofo), Dewey (filósofo), Montessori, Decroly e Claparède (médicos), o que indica o caráter "reprodutivo" (rotina) da formação magisterial. Um dos educadores mais citados (Pestalozzi) jamais criou métodos e processos novos: foi apenas o introdutor da ardósia (lousa) na atividade escolar!

Os professores são, geralmente, conservadores e conformistas, a serviço dos valores sócio-culturais mais retrógados. Em geral, os professores sequer se atualizam em suas especialidades (conteúdo), e repetem, décadas seguidas, as baboseiras que decoraram no início de sua atividade docente. Não há exemplo de professores renovadores, mesmo porque sua atividade é estrita e minuciosamente vigiada pelos regulamentos, currículos, programas, livros didáticos, etc. Não ocorrem invenções e descobertas dentro do sistema escolar, apesar de um dos objetivos da universidade ser a pesquisa (os laboratórios, onde os professores pesquisam, não fazem parte, propriamente, do acervo pedagógico). O professor típico é um artesão que se repete, indefinidamente, na rotina secular (recitação de lições ou explicações no quadro-negro). Quando o professor tenta inovações, sobre ele cai o peso da censura dos participantes da máquina escolar.

Como se vê, não há, por trás da atividade docente, um corpo de conhecimentos científicos, como ocorre, por exemplo, em medicina e em engenharia. O professor repete, na atividade profissional, o modelo arcaico (verbalização), apesar de sua evidente ineficácia histórica; as escolas não são locais de atividade (motora, verbal e intelectual), mas pequenos e sufocantes auditórios compartimentalizados, onde "oradores" fanhosos recitam, aos brados, textos decorados – tudo muito semelhante ao que ocorria antes da descoberta da escrita e da imprensa. Enquanto recitam, platéias cativas de alunos apáticos enervam-se, aguardando o sinal que suspende a verborragia magisterial. De fato, o professor é um robô que segue, estritamente, currículos, programas, métodos, instruções, regimentos escolares, tec. Determinados pelo "monstrengo burocrático"(administração) que o domestica definitivamente. O professor não decide sequer se um aluno deve ou não permanecer na sala em que dá aula : a ultima palavra é a do diretor.

Não há exemplo de professor (assoberbado de aulas) que cuide de sua contínua formação, como fazem quase todos os profissionais: o professor, em geral, não estuda! É, talvez, o profissional menos informado da pesquisa científica e das invenções tecnológicas, inclusive alienado (sobrecarga de aulas) dos eventos sócio-culturais e políticos. Por outro lado, se for dócil e conformado, ruminante omisso, nada se exigirá dele. Não se faz, por exemplo, o controle do rendimento da ação docente, conquanto o professor não viole as normas administrativas. Não se avalia jamais sua competência profissional: o magistério é uma massa homogênea, em que demonstração de competência é uma agressão à uniformidade da mediocridade anônima. É o reino do igualitarismo, em que se desestimula a excelência! Desapareceram os "grandes educadores", a quem o imperador dava medalhas, da mesma forma como já não existem colégios renomados.

Em síntese, o profissional do magistério é um fóssil de um animal que se extinguiu sem gerar substitutivo evolutivo! Enquanto algumas profissões mudam e outras extinguem-se, nascendo milhares de outras especialidades, o magistério atravessa incólume o processo civilizatório, sem tomar conhecimento das invenções tecnológicas e descobertas científicas.

É impressionante a falta de sensibilidade do magistério para os resultados negativos de sua atividade. Em educação, baixo rendimento, evasão, reprovação, perda do conhecimento, demonstração pública do fracasso nos exames.... nada disso abala o sistema escolar ou põe em dúvida a reputação profissional do magistério! Não se sabe, pois, por onde começar a reforma do sistema, já que o magistério não toma consciência do seu próprio fracasso! Pelo contrário, vangloria-se do massacre das reprovações que ocorrem no sistema escolar, por ele mesmo provocadas. É preciso que a classe do magistério admita, honesta e humildemente, que seu modelo de atividade profissional tornou-se obsoleto perante os recursos técnicos e científicos!

Lauro de Oliveira Lima

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Impunidade do magistério e dos administradores escolares

Já disse, em outra obra, que o professor é "um profissional acima de qualquer suspeita": Jamais se põe em dúvida a competência e integridade dos mestres, dos diretores de escolas, dos supervisores, etc., apesar de o sistema escolar ser um campo propício à manifestação de tendências patológicas. O magistério está repleto de narcisistas e de indivíduos imaturos, para não dizer cheios de raiva, capazes de agredir, até fisicamente, as crianças. É espantoso o número de agressões sofridas pelas crianças por parte de pais e mestres, como se pode constatar nos levantamentos feitos em muitos países civilizados.

(...)

O poder de dar notas (aprovar e reprovar) é um instrumento de alta agressividade, na medida em que os pais vivem ansiosos para que os filhos obtenham certificados e diplomas. É a subida no "pau de sebo" da escolaridade, visando obter certificados empregos: médico, engenheiro, etc.

O professor não toma conhecimento dos efeitos destrutivos das reprovações, sobretudo porque a execução da sentença é reservada à família. A criança levianamente reprovada pode ser considerada oligofrênica, sem nenhuma comprovação irrefutável. Por vezes, a lentidão do desenvolvimento mental totalmente normal é interpretada como excepcionalidade, mesmo porque os especialistas desta área precisam de clientes para justificar sua função. A repetição da série ou de ciclo deslocando a criança da sua faixa etária e dos companheiros de jogos, é uma tragédia pessoal que leva muitas crianças ao suicídio ou simplesmente a odiar o sistema escolar.

(...)

A escola não tem um mecanismo de absorção dos reprovados, deixando-os numa espécie de limbo escolar, como as garrafas de coca-cola retiradas da linha de produção por apresentarem defeitos.

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A hibernação do tritão ou a falta de conteúdo

...-recentes documentos encontrados sobre a vida escolar de Einstein revelam sua irremovível ojeriza pela "disciplina escolar" e a "burocracia das aulas de conteúdo": memorização verbal e exercitação sensório-motora.

Formatura é o dia em que a escola declara, através de um diploma, que o aprendiz decorou tudo o que lhe foi ensinado. "Tudo" é apenas um eufemism, pois a maioria dos diplomados, como se vê pelas notas (avaliação do rendimento), não chega a decorar metade do que lhe foi ensinado, fato que não o priva do diploma (sem que alguém pense em chamá-lo de "meio-engenheiro"ou "50% engenheiro").

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Lauro de Oliveira Lima

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