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FREENET - A rede livre


Entrevista com Ian Clarke

Guru da Freenet fala do sistema que está transformando o internauta num ser independente
Ian Clarke

Surge nos bastidores da internet um movimento que vai mudar completamente a rede como a conhecemos hoje. O internauta se transformará em produtor e consumidor de informações, livre do controle centralizado dos servidores e, além de tudo, em completo anonimato. A filosofia deste novo movimento supõe o software livre, ou seja, programa de código aberto, hoje centro de um debate internacional, inclusive nos tribunais, em torno do direito autoral e de seu futuro desenho. O nome do movimento: freenet, ou rede livre. Seu líder mais conhecido: o jovem irlandês Ian Clarke, 23 anos, recém-formado em Ciência da Computação e Inteligência Artificial pela Universidade de Edimburgo, na Escócia. Morando em Londres, consultor da empresa britânica Logica UK, viajou à Califórnia - para onde pensa até em se mudar - a convite da Intel, fabricante de processadores, para expor suas idéias no Intel Developer Forum, que começou terça-feira e termina hoje. Clarke fundou o projeto Freenet , concretizado no software de mesmo nome - um sistema para transmissão de informação sem risco de censura de qualquer parte. Clarke explica: "O programa permite total anonimato ao usuário. É também impossível identificar onde um arquivo foi guardado - ele estará em diferentes locais, tornando virtualmente impossível sua remoção do sistema." Parece bom? Pois acredite, é uma maravilha. Segundo Clarke, a revolução da rede livre já começou. E as batalhas são travadas dentro do disco rígido de seu computador, conectado a outra máquina de alguém tão independente como você. É a liberdade total de expressão - só possível, para Clarke, se o usuário puder se manter anônimo e evitar represálias. "Não se é livre mais ou menos . É preciso ser radical em questões de liberdade."

- Como surgiu a Freenet?

- Surgiu da vontade de construir um sistema completamente descentralizado que funcionasse. Nós humanos insistimos em construir sistemas centralizados - se uma das peças é retirada, ele simplesmente pára de funcionar. Na freenet não adianta tirar os nós da rede: ela se reconectará automaticamente. A natureza vem fazendo isso há milhões de anos, com sucesso. A internet original era algo parecido, mas a freenet leva isso adiante - é mais interessante e funciona melhor. A segunda motivação é mais filosófica. Estamos vivendo uma época complicada em questões de censura, como nos exemplos do Carnivore [programa do FBI para monitorar e-mails] e assemelhados. É importante criar a ferramenta para publicar e distribuir informação, com anonimato e segurança.

- O que é Freenet? Como usuário comum posso participar?

- A Freenet é uma plataforma. Você pode pensar nela como mais uma forma para interagir na internet, aliando anonimato e liberdade de expressão. Por ser open source, a Freenet terá várias interfaces, dependendo do que os programadores inventarem. Hoje em dia a interface que funciona melhor é um prompt - não é bonito nem amigável, mas é eficiente para usar a rede. Para transferir conteúdo da Freenet é preciso rodar um ponto da Freenet. Com ele instalado, o usuário já estará pronto para enviar e receber conteúdo. Todos os dados são criptografados, e por isso é impossível identificar uma parte isolada da informação e apagá-la, por exemplo. Ela se confunde com outros dados codificados: transações bancárias ou e-mails criptografados. Um censor do FBI, por exemplo, não conseguirá identificar e separar dentro de todo o conteúdo criptografado uma poesia de uma receita de bomba.

- É possível criar estrutura para compra e venda de arquivos, como MP3?

- Possível, é. O problema é que o dono do produto não teria controle sobre sua mercadoria. O primeiro que a adquirisse pagaria, mas depois poderia recolocar o arquivo para download em outro lugar, de graça. Basicamente a Freenet pode servir para qualquer coisa que não dependa de identificação.

- E quanto ao copyright? Com a explosão do Napster, o assunto está em pauta.

- Na verdade, o Napster ajuda a indústria da música. Desde o surgimento do programa, as gravadoras têm faturado como nunca com a venda de CDs. Ele é a melhor forma de propaganda que a indústria poderia imaginar. O problema começa quando você pode carregar o MP3 por aí. As gravadoras estão revoltadas e assustadas por isso. Mas não deixa de ser engraçado ver a Sony, dona de gravadoras, vender uma linha de walkman para tocar MP3. É um tiro no próprio pé. O copyright está ficando cada vez mais difícil de se manter. E hoje não se sabe se ele está servindo a seu propósito. O mercado é composto de quatro ou cinco grandes gravadoras, e elas ficam com a maior parte do dinheiro - que deveria ir para os verdadeiros produtores, os artistas.

Como ficará o direito autoral?

- Estamos vivendo um momento de transição quanto à forma como as pessoas vêem a propriedade intelectual. Mas uma coisa é verdade:iniciativas como a do Napster forçam a indústria a se adaptar.

- O que pode ser feito para impedir que a Freenet se torne um grande depósito de pornografia e arquivos piratas?

- A Freenet vai ser um reflexo da humanidade. A internet como um todo já funciona assim, e isso será radical na Freenet, onde você pode se manter anônimo e não precisa se preocupar com censura. O interesse de todos estará presente na Freenet, e não acho interessante impedir ou cercear o uso de uma ferramenta porque há o risco de ela ser usada para atividades escusas. Se fosse assim, a web deixaria de existir.

- É possível prever os próximos anos da Freenet?

- Isso é impossível. Já ficou provado que previsões na internet são arriscadas, e com a Freenet ainda mais. Pessoas do mundo inteiro já estão usando a Freenet. Uma vez, estava dando uma entrevista para uma radio dos EUA e um cara da Arábia Saudita ligou dizendo que muitas pessoas já estavam usando o programa por lá. O que eu quero é mudar a forma com que as pessoas lidam com a informação na internet.

Entrevista publicada no Jornal do Brasil em 24 de agosto de 2000.

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Uma internet democrática

rede livre

As informações agrupadas na tela denunciam toda a atividade do seu micro quando conectado - seus endereços na rede, provedor, sites visitados. Esses dados estão disponíveis para qualquer um: hacker, cracker, administrador de rede, policial, advogado; e podem ser usados contra você.

Tal fiscalização se evidenciou no caso Napster, quando uma empresa de consultoria capturou o IP (internet protocol, endereço de um computador conectado à rede) de 300 mil usuários que haviam trocado músicas em formato MP3 da banda de rock Metallica. Através do IP, os internautas puderam ser encontrados e ameaçados de processo e possível prisão. Para quem acredita que a web é um meio democrático, onde o cidadão permanece anônimo se assim o desejar, é para pensar duas vezes.

Na prática, a nova proposta para a comunicação na internet efetiva o conceito de rede: computadores interligados, sem servidores centrais ou mediações - completamente diferente do que experimentamos hoje. A designação usada é "revolução peer-to-peer", e refere-se à forma de conexão: ponto-a-ponto, diretamente do seu computador pessoal a outro, e outro, e outro, multiplicando os caminhos possíveis para o trânsito da informação. No modelo atual, a maior parte do conteúdo da internet está localizada em grandes servidores, centralizada, sujeita a controles governamental e corporativo, à identificação não-autorizada e à censura do usuário. Algumas nações (China, países árabes) filtram o conteúdo residente nesses servidores, restringindo assim o que pode ou não ser acessado pelos usuários locais.

Não se deve imaginar porém que essas iniciativas sejam "partidárias", ou ligadas a alguma forma de "organização subversiva". Ações espontâneas, em separado, é que estão configurando o movimento e a nova forma de usar a internet.

Veja alguns exemplos:

O surgimento de um formato avançado para arquivos de som - o MP3 - criou a demanda de ferramentas para facilitar a troca rápida de arquivos, despertando a ira da indústria.

A ideologia do open-source software, software de código aberto, cujo exemplo máximo é o Gnu-Linux.

O advento dos processadores alternativos (AMD, Crusoe), que com os novos sistemas operacionais - Linux, BeOS - oferecem alternativas reais à relação monogâmica do seu PC com a ditadura wintel (Windows e Intel)

A redescoberta da arquitetura "peer-to-peer", ponto-a-ponto, ou simplesmente p2p. Computadores pessoais conectados entre si, trocando bytes em forma de arquivos, sem necessidade de servidores - na verdade, cada PC passa a ser um servidor em potencial. É a subversão da rede. E contraria definições até de fontes creditadas, como a CNET: "Uma rede do tipo p2p funciona somente em pequenos grupos de trabalho, com no máximo umas dezenas de computadores." Gnutella e assemelhados estão aí para provar o contrário.

Com uma proposta simples, Shawn Fanning criou o Napster em 1998. Ele queria unir o bate-papo do IRC a um mecanismo de busca que encontrasse e transferisse arquivos MP3 direto do micro dos usuários. Não precisou de muito tempo - o assunto Napster passou para a primeira página dos jornais, devido ao sucesso do formato MP3 e à briga comprada pelo "Golias" RIAA, a associação da indústria fonográfica. Fanning e seu programa são, na verdade, a porção mais conhecida de uma série de iniciativas na direção da retomada da internet como meio para a comunicação livre. Veja ao lado: alguns programas priorizam o anonimato, outros a conexão p2p, e os demais tentam amenizar a polêmica oferecendo a opção de cobrança na troca de arquivos. (M. N.)

Artigo publicada no Jornal do Brasil em 24 de agosto de 2000.

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