Marcelo Ribeiro de Britto

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marcelobritto Entrevista com o Dr. Marcelo Ribeiro de Britto do Museu Nacional/UFRJ.

SAMBIO: O que é o MNRJ?

Marcelo: Museu Nacional, vinculado a Universidade Federal do Rio de Janeiro. O acrônimo se refere a várias coleções zoológicas de seu acervo, entre estas, temos a Coleção Ictiológica..

SAMBIO: Qual seu nome, formação acadêmica e função no MNRJ?

Marcelo: Marcelo Ribeiro de Britto
Formação acadêmica: Bacharel em Ciências Biológicas, modalidade Zoologia, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Mestre em Zoologia pelo Programa de Pós-graduação em Ciências Biológicas (Zoologia) do Museu Nacional/UFRJ; Doutor em Zoologia pelo Programa de Pós-graduação em Zoologia da Universidade de São Paulo.
Função: Professor.

SAMBIO: Quais as Coleções Biológicas existentes no MNRJ?

Marcelo: O Museu Nacional abriga grandes coleções de todos os principais grupos de animais e plantas, tanto recentes quanto fósseis. Estas coleções encontram-se organizadas nos departamentos de Entomologia, Invertebrados, Vertebrados, Botânica e Geologia e Paleontologia.

SAMBIO: Qual a importância destas Coleções para os Programas de Pós Graduação?

Marcelo: Tratam-se da base principal das inúmeras dissertações e teses em Zoologia e Botânica dos programas de pós-graduação da UFRJ. Também são utilizadas por alunos de programas de pós-graduação de outras instituições tanto do Brasil quanto do exterior.

Marcelo: Qual a importância destas Coleções para o restante da comunidade acadêmica e científica?

Marcelo: A documentação da biodiversidade só é possível através da manutenção de coleções científicas permanentes que abriguem uma representação significativa da fauna e da flora. Além de fornecer a base necessária para trabalhos de Sistemática e Taxonomia, as coleções do Museu Nacional são depositários de material testemunho de pesquisas e teses nos mais variados campos das Ciências Biológicas. Destacando-se as áreas de Botânica, Zoologia, Paleontologia, Ecologia, Biologia Pesqueira, Oceanografia Biológica, Citogenética, Bioquímica, Piscicultura, etc. A relevância de uma coleção científica bem estudada se faz sentir até mesmo fora de seu campo direto de interesse. Uma coleção ictiológica, por exemplo, é consultada com frequência por arqueólogos interessados em identificar material de sambaquis, sociólogos interessados em estudos de comunidades de pescadores, e até mesmo por médicos envolvidos no estudo de lesões causadas por peixes peçonhentos. Entretanto, este recurso só tem valor para a comunidade científica na medida em que for adequadamente estudado.

SAMBIO: Qual a importância destas Coleções para a sociedade?

Marcelo: Constituem-se no acervo que abriga o testemunho da diversidade de organismos no tempo e espaço. Isto cria um vínculo direto com a Sociedade que vive num espaço do qual depende. Assim, alterações no espaço com vistas a mudanças futuras necessitam de conhecimento prévio que permitam um grau de previsibilidade. Relacionar a informação disponível em coleções com outras fontes cria uma ferramenta poderosa. Grandes empreendimentos humanos em setores como geração de energia, expansão urbana, evolução de patógenos, etc. deveriam recorrer a coleções biológicas para o entendimento de mudanças ambientais (investigação do espaço) ao longo de gerações (tempo). Como exemplos, uma coleção bem representativa permite inferir a dinâmica de populações de organismos antes e depois da instalação de um empreendimento hidrelétrico (perda de espécies, favorecimento de uma espécie em detrimento de outras, etc.); em termos de saúde pública, é possível investigar a área de ocorrência de determinados vetores ao longo da história através do seu registro em coleções e correlacionar a iniciativas que levaram ao seu declínio (política de combate a vetores), etc. Além disso, há o aspecto educacional, uma vez que as coleções estão normalmente vinculadas a museus, que adotam necessariamente práticas de exposição pública de seus acervos, e instituições de ensino.

SAMBIO: Qual o papel e significado de um Curador de uma Coleção Biológica?

Marcelo: O curador é quem estabelece o desenvolvimento de uma coleção dentro da proposta institucional na qual a mesma está inserida, sendo responsável por sua administração e manutenção. Para tanto, suas ações estão relacionadas à execução e estímulo de linhas de pesquisa ligadas ao acervo.

SAMBIO: Um único Curador atende a todos os grupos biológicos ou é conveniente um Curador para cada grupo? Por quê?

Marcelo: Dada as diferentes demandas dos vários grandes grupos taxonômicos e as responsabilidades da função de curadoria, obviamente um único curador não atende diversos acervos. Tal situação não permite que todos os grupos recebam igual investimento de tempo e recursos, o que compromete o estabelecimento de políticas de desenvolvimento de cada acervo, bem como de estímulos e execução de linhas de pesquisa sobre os mesmos.
Um curador especializado para um determinado grupo taxonômico permite a percepção mais acurada das lacunas de conhecimento sobre o grupo e de sua representatividade num determinado acervo, o que leva ao estabelecimento e implantação das linhas de pesquisa e desenvolvimento de uma coleção.

SAMBIO: Quais as demais funções necessárias em uma Coleção Biológica? Que níveis de formação são recomendáveis para cada função?

Marcelo: Curadores geralmente são professores e atuam em nível de pós-graduação. Minimamente os curadores devem possuir doutorado, porém é desejável possui larga experiência, incluído atuação pós-doutoral em outras instituições e experiência em pesquisa que o habilite a liderar os projetos de pesquisa necessários para manter a coleção “viva”.

SAMBIO: Quais são hoje as principais dificuldades que as Coleções Biológicas brasileiras atravessam hoje em dia?

Marcelo: Justamente a falta de pessoal habilitado em seu quadro permanente. Uma vez que grande parte das coleções biológicas brasileiras está vinculada a instituições públicas, falta a percepção dos governos em assumir a responsabilidade sobre as mesmas. Esta falta de percepção se reflete nas dificuldades de infraestrutura e aquisição de insumos básicos para coleção, por exemplo.

SAMBIO: Quais as formas de superar estas dificuldades?

Marcelo: Percepção dos governos da responsabilidade sobre os acervos e consequentemente disponibilizar orçamente adequado para as coleções. De maneira contraditória, o governo exige a disponibilização de dados de coleções biológicas com vistas a sua aplicação nas mais variadas demandas. Todavia, não prevê qualquer orçamento direto aos acervos que não seja através de editais de concorrência.

SAMBIO: Você conhece as Coleções Biológicas do Museu de Biologia Mello Leitão? Qual a importância destas coleções no cenário nacional?

Marcelo: Sim. Além da importância inerente a um acervo que inclui material coletado desde a primeira metade do século XX de regiões hoje completamente alteradas e irreconhecíveis, as coleções do Museu de Biologia Mello Leitão são de grande relevância no conhecimento da fauna do Estado do Espírito Santo e arredores.

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