A militância

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A militância ambiental de um cientista brasileiro

Por Alyne Gonçalves (*)

Em 2015, comemorou-se 100 anos do nascimento do naturalista capixaba Augusto Ruschi (1915-1986), internacionalmente conhecido por suas pesquisas sobre orquídeas e beija-flores. O que é pouco conhecido – inclusive pelos próprios capixabas – é que esse cientista viajou por todo o Espírito Santo e por boa parte do Brasil explorando e mapeando aspectos importantes da flora e da fauna de cada região. Ao longo de 50 anos de pesquisas científicas, tendo as florestas e os rios como laboratórios privilegiados, desenvolveu uma produção documental não só acadêmica, preocupada com a sistemática e classificação de novas plantas e hábitos animais, mas dedicou-se vivamente à atividade política – no sentido lato da palavra –, fosse denunciando o processo de destruição dos recursos naturais na mídia ou junto às autoridades competentes, fosse desenvolvendo projetos pedagógicos para envolver a sociedade no tema, ou fundando e participando de associações civis voltadas à proteção da natureza.

Um dos resultados de sua, digamos, militância nessa área – talvez o mais significativo deles – foi a criação de refúgios naturais para a conservação de determinadas áreas com características singulares, visando à pesquisa e salvaguarda de seu patrimônio genético para as gerações futuras. Na década de 1940, trabalhou junto ao Governo do Estado para a criação das Reservas Biológicas do Rio Itaúnas, do Córrego do Veado, de Nova Lombardia (hoje, Reserva Biológica Augusto Ruschi), e do Parque do Caparaó.

O alcance político das pesquisas científicas de Augusto Ruschi esteve ancorado no prestígio acadêmico e respaldo social construídos junto às elites político-intelectuais dos maiores centros urbanos do Brasil. Refiro-me aqui às cidades do Rio de Janeiro e São Paulo que, desde a década de 1920, abrigaram os centros de pesquisa que discutiram a proteção à natureza, em consonância com um projeto de construção da identidade nacional.

Os pesquisadores do Museu Nacional do Rio de Janeiro (MNRJ), em especial, atuaram diretamente no processo de institucionalização da proteção aos recursos naturais brasileiros, como a criação do Código Florestal e do Código de Caça e Pesca, ambos de 1934. Nomes como Álvaro José de Sampaio, Frederico Carlos Hoehne, Cândido Firmino de Mello Leitão, entre outros, reverberaram o debate internacional relativo ao conservacionismo, reflorestamento, parques nacionais e reservas biológicas no cenário brasileiro, prescrevendo educação, ciência e intervenção estatal para a proteção do elemento definidor de nossa cultura – o exuberante patrimônio ambiental nacional.
Augusto Ruschi foi formado por esta geração de cientistas. Autodidata, exímio coletor de espécimes botânicas e animais, conquistou a admiração e a amizade de Cândido Firmino de Mello Leitão, importante zoólogo do Museu Nacional, que o indicou, aos 22 anos de idade, para ingressar naquela instituição, onde foi influenciado pelos conceitos e bandeiras daquela geração.

Ao fundar, em 1949, o Museu de Biologia Prof. Mello Leitão, em Santa Teresa, sua cidade natal e, no mesmo processo, o Boletim do Museu de Biologia Mello Leitão, criou os canais de difusão do debate conservacionista no cenário capixaba, viabilizando assim a produção de um conhecimento científico da fauna e flora capixabas, praticamente inexistente até aquele momento. Já nos idos de 1960, conquistou popularidade internacional através de publicações de grande alcance midiático, como National Geographic (1963) e Reader´s Digest (1965), o qual se traduziu, por exemplo, em um maior aporte financeiro para suas pesquisas e para o Museu de Biologia Mello Leitão, fosse através de doações monetárias de empresas, a exemplo da Companhia Siderúrgica Belgo Mineira e de particulares, do Brasil e do exterior, ou por meio da contratação de seus serviços para instalação de viveiros para beija-flores.

Nos anos 1950 e 1960, o discurso conservacionista ganhou mais força no Brasil, sendo conceitualmente articulado e veiculado pela Fundação Brasileira de Conservação da Natureza (FBCN), especialmente a partir de 1966, quando a entidade começou a editar seu boletim. Entre seus objetivos principais estava a criação de parques e reservas florestais, a cooperação entre governos e organizações nacionais, estrangeiras e internacionais, estudos e pesquisas sobre conservação da natureza e de seus recursos e difusão dos conhecimentos conservacionistas.

Nos anos de 1970, encontramos um Ruschi mais incisivo em seu discurso de proteção à natureza, proporcional aos riscos ambientais decorrentes da lógica do desenvolvimento adotada pelos governos capixabas com os chamados Grandes Projetos Industriais. Desde o final dos anos 1960 Ruschi já denunciava algumas das maiores empresas do país – a saber, a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) e a Aracruz Celulose – pelas pressões políticas e econômicas para a aquisição e exploração de áreas naturais capixabas destinadas a reservas biológicas. Em 1977 travou uma disputa política, jurídica e midiática contra o Governo do Estado do Espírito Santo pela posse da Estação Biológica de Santa Lúcia (EBSL) – refúgio ecológico de 279 hectares localizado no município de Santa Teresa, o qual abrigaria, segundo o cientista, mais de 600 mil orquídeas, 20 mil árvores e cerca de 320 espécies de animais. Naquele ano, o Governo Élcio Álvares decidiu incorporá-la ao recém criado Instituto Estadual de Florestas (IEF) e admitir o trabalho da empresa Planitec na exploração do palmito. Ruschi sairia vitorioso da referida disputa, graças à extraordinária habilidade de conquistar apoios e simpatias para sua causa, tanto na comunidade científica, quanto na sociedade civil nacional e internacional.

Toda essa movimentação rendeu frutos importantes para o esforço de conservação da Mata Atlântica brasileira – a começar pela visibilidade conferida aos temas relativos ao meio ambiente –, bem como o reconhecimento social de ter seu rosto estampado na cédula de 500 cruzados novos no final dos anos 80 e de ter sido agraciado com o título de Patrono da Ecologia do Brasil, concedido pela Câmara Federal em 1994.

Pela projeção conquistada na imprensa brasileira para o estudo e conservação da Mata Atlântica, pelas importantes redes de influência social e política que foi capaz de mobilizar para a criação e proteção de reservas florestais, pela criação e consolidação dos primeiros canais institucionais para as pesquisas biológicas – o Museu Mello Leitão e seu boletim –, pode-se concluir que uma abordagem mais ampliada da história política e ambiental do Espírito Santo e do Brasil passa, sem dúvida, pela vida e obra de Augusto Ruschi.


(*) Alyne dos Santos Gonçalves Possui graduação em História pela Universidade Federal do Espírito Santo(2003), especialização em Filosofia Social e Política: Cultura e Sociedade pela Universidade Federal do Espírito Santo(2005), mestrado em História pela Universidade Federal do Espírito Santo(2008), ensino-fundamental-primeiro-grau pela Escola de 1º Grau José Maria Ferreira(1988), ensino-fundamental-primeiro-grau pela Escola de 1º e 2º Graus Joaquim Quitiba(1991), ensino-fundamental-primeiro-grau pela Escola de 1º e 2º Graus Maria Ortiz(1993) e ensino-médio-segundo-grau pelo Centro Educacional Brasileiro(1996). Atualmente é Revisor de periódico da Sinais (UFES). Atuando principalmente nos seguintes temas: Conservacionismo, Proteção à Natureza, Representações Sociais, Espírito Santo, Augusto Ruschi.