Ruschi e a Mata Atlântica

Um militante conservacionista, em favor da Mata Atlântica.

Alyne S. Gonçalves
Doutoranda em História

 

Nos últimos dois anos, tenho estudado a obra de Ruschi através das correspondências que trocou, durante décadas, com centenas de personalidades do mundo científico e político, nacional e internacional. Meu foco é compreender sua militância conservacionista, especialmente em favor da Mata Atlântica brasileira. Após a leitura de quase 2 mil cartas, pude concluir algumas questões que penso ser bastante esclarecedoras para a luta que estamos travando no momento:1) Ruschi tinha um amplo conhecimento sobre história da ciência, mais precisamente, sobre os caminhos percorridos no Brasil para a institucionalização da pesquisa científica. Ele sabia muito bem que a pesquisa científica nasceu no Brasil dentro das instituições museológicas, as quais não funcionavam apenas como abrigo para coleções de exemplares do passado, isto é, como vitrines expostas para o lazer e instrução do público visitante, mas, sobretudo, como centros de produção científica, voltados para a solução dos problemas que afligem a sociedade. Em dezenas de documentos, Ruschi apresenta o Museu Mello Leitão como um “instituto de pesquisas”, voltado para o desenvolvimento das ciências biológicas e para a conservação da Mata Atlântica brasileira – portanto, para o benefício da humanidade: “Este Museu é o único Instituto de Pesquisas Biológicas existente no E. E. Santo […]. Suas pesquisas se desenvolvem no campo da ciência pura e aplicada, de interesse Nacional e Internacional, sendo a região espírito-santense sua fonte perene de trabalhos […]”. (carta ao Governador do Espírito Santo, Christiano Dias Lopes Filho, de 9/6/1969).

2) Ruschi tinha uma grande ambição: projetar mundialmente o Museu Mello Leitão como um centro de pesquisas voltado para a conservação da Mata Atlântica brasileira. Como era um cientista de rara visão política e estratégica, sabia que, para alcançar a nobre ambição, precisava de pesados e permanentes recursos para a pesquisa, bem como um lugar institucional forte e consolidado dentro da esfera federal: “O MBML espera um dia ser incorporado à UFES, como parte integrante da mesma, pois não é somente o caminho normal de instituições congêneres, mas é principalmente a sua finalidade que mais condiz com essa medida; o seu crescimento e o seu funcionamento atualmente já fugiu da esfera em que um particular possa mantê-lo em ritmo de crescimento como está exigindo o intercâmbio com tantas universidades, especialmente com as universidades dos USA e da Europa” (carta ao Reitor da UFES, Dr. Alaor de Queiroz Araújo, de 28/8/1967).

Considerando a visão estratégica de Ruschi, penso que a situação que está hoje colocada no plano nacional é a seguinte: a preservação e ampliação do legado de Ruschi depende da regulamentação da Lei de 2014, a qual lhe garanta mais recursos financeiros e um importantíssimo abrigo institucional, que é o MCT&I. Me parece que seja consensual que tenha sido um grande equívoco o fato do texto da referida Lei ter suprimido, à revelia dos atores que participaram da luta pela vinculação ao MCT&I, o nome “Museu Mello Leitão”. Foi um erro conceitual e histórico! Contudo, penso que existam maneiras de corrigir este erro, de modo a preservar a identidade da instituição. Para isto, deve-se construir um regimento interno atento a esta e outras questões igualmente prioritárias. Mas, só se pode pensar nisso dentro de marcos institucionais estabelecidos e consolidados. Eis a importância fundamental de lutarmos pela regulamentação da lei de 2014.

Artigo escrito em 17 de agosto de 2016

 

Alyne dos Santos Gonçalves – Possui graduação em História pela Universidade Federal do Espírito Santo(2003), especialização em Filosofia Social e Política: Cultura e Sociedade pela Universidade Federal do Espírito Santo(2005), mestrado em História pela Universidade Federal do Espírito Santo(2008), ensino-fundamental-primeiro-grau pela Escola de 1º Grau José Maria Ferreira(1988), ensino-fundamental-primeiro-grau pela Escola de 1º e 2º Graus Joaquim Quitiba(1991), ensino-fundamental-primeiro-grau pela Escola de 1º e 2º Graus Maria Ortiz(1993) e ensino-médio-segundo-grau pelo Centro Educacional Brasileiro(1996). Atualmente é Revisor de periódico da Sinais (UFES). Atuando principalmente nos seguintes temas: Conservacionismo, Proteção à Natureza, Representações Sociais, Espírito Santo, Augusto Ruschi.