Artigo de Sérgio Barbosa
Coordenador de projetos para homens
Centro de Educação para a Saúde (CES)
O
Centro de Educação para a Saúde (CES) é uma organização da sociedade civil
(OSC) sem fins lucrativos que desenvolve ações educativas e preventivas
para a saúde na região do ABCD paulista com a população de baixa renda,
por meio de três programas básicos: mulheres, homens e jovens.
A epidemia de aids
ganhou proporções maiores e está atingindo camadas sociais de baixa renda,
jovens, mulheres e homens. Sabemos que o número de mulheres infectadas
aumenta, pois continuam a ter muita dificuldade de negociar o uso do
preservativo com o seu parceiro sexual. A trajetória da epidemia ganhou
reforço no estereótipo de que homens convivem com a sua masculinidade
baseada na virilidade e número de mulheres conquistadas. Porém, as
relações sexuais não são as únicas vias da trajetória da
epidemia.
Um outro caminho é o
uso das drogas injetáveis. O combate às drogas e as campanhas de prevenção
não foram suficientes para reduzir o seu consumo e nem propor mudanças de
comportamento. A sistematização de ações para a redução de danos está
indicando um trabalho com o usuário para que ele não compartilhe agulhas e
seringas e que se aproxime dos serviços para as trocas de
seringas.
Dados da Secretaria de
Segurança Pública do Estado de São Paulo apontam que 51% da população
confinada está detida em cadeias públicas e que apenas 49% cumprem suas
penas em presídios. Em conseqüência, temos principalmente:
• maior número de
rebeliões provocadas pela superlotação;
• desrespeito aos
Direitos Humanos;
• maior risco de
infecção pelo HIV e outras DST, devido à inexistência de programas
preventivos.
Em Santo André,
desenvolvemos atividades nos dois estabelecimentos para detenção: Unidade
Prisional–07, conhecido por Cadeião, com uma população estimada em 820
detentos; e a 4.ª Delegacia Policial, com 320 detentos e capacidade
limitada para 120. Na cidade de Mauá, estão detidos 280 homens. Na Cidade
de Ribeirão Pires, são 290 homens confinados. Na cidade de Diadema, 262.
Cerca de 90% dos detentos recebem visitas íntimas de suas companheiras
e/ou namoradas. Todas as cadeias públicas dessas cidades apresentam
superlotação, falta de assistência médica adequada, morosidade no
julgamento, o que permite que muitos homens cumpram um terço da pena mesmo
antes de serem julgados.
O perfil da população
confinada encontra-se na faixa etária entre 18-25 anos de idade. Na sua
maioria, procedentes de núcleos habitacionais com pelo menos um filho,
estão tendo pela primeira vez acesso a informações e conhecimentos sobre
prevenção, como também a formas de resgate da sua identidade, discutindo
temas que são gerados pela aids.
Trabalhando com a
população masculina confinada em cadeias públicas, não poderíamos deixar
de sentir o reflexo e as conseqüências da epidemia fora e dentro do
sistema penal. A virilidade aparece como marca de várias masculinidades, e
elas são exercidas sempre com uma onipotência acima dos homens normais.
A Unidade Prisional–07
foi inaugurada em 1995, com capacidade para 525 vagas, como cadeia-modelo
controlada por computador e todo o sistema de vigilância realizado através
de câmaras internas. Este modelo veio com a intenção de substituir as
antigas e velhas Delegacias Policiais. Desde 1995, estamos desenvolvendo
atividades educativas e preventivas com a população masculina confinada em
Santo André. Por solicitação da Pastoral Carcerária, fomos convidados a
desenvolver tais atividades com o objetivo de reduzir os riscos de
infecção pelo HIV e de outras DST naquela população.
Nossos objetivos com
este projeto são:
• Facilitar a
aquisição de conhecimentos preventivos referentes à aids e outras DST na
população-alvo.
• Capacitar lideranças
religiosas da Pastoral Carcerária para a continuidade do
projeto.
Porém, nosso projeto
se desdobrou e outras questões começaram a surgir, como exclusão/inclusão
social, cidadania, direitos reprodutivos e sexuais, direitos humanos,
paternidade e sexualidade. Com essa experiência adquirida, começamos a
executar outras oficinas que oferecessem espaço de discussão sobre o que é
ser homem, refletindo sobre o comportamento masculino. Iniciamos o
trabalho com base nas atividades já desenvolvidas pelo CES, a partir de
oficinas de prevenção com homens que transam com mulheres (cartilha de
Wilza Villela e Sérgio Barbosa – “Homens que Fazem Sexo com Mulheres”,
NEPAIDS/USP).
A partir do interesse
das lideranças da Pastoral Carcerária de Santo André, dois grupos de Mauá
e Ribeirão Pires também solicitaram ao CES uma multiplicação das oficinas
nas Delegacias Policiais de suas cidades. Essas equipes foram capacitadas
em 1999, e desde então desenvolvem atividades em DST/aids. Seus resultados
foram significantes para o CES e para a Pastoral Carcerária. Para o CES,
foi o reconhecimento de uma ONG que procura incentivar e descentralizar
suas ações; e para a Pastoral Carcerária, ligada à Igreja Católica, foi o
rompimento de certos tabus e limites impostos por condições morais. Tem
sido um aprendizado contínuo e fértil para o CES e para a Pastoral
Carcerária do ABCD paulista.
Outro resultado
significante foi que, em 2000, o Centro de Referência e Tratamento em Aids
de Diadema (CRT), conhecendo a experiência do CES, solicitou uma
supervisão na implantação de um projeto de prevenção na Cadeia Pública
desta cidade.
O número de homens
detidos que recebem a cota de preservativos vem aumentando, bem como o
número daqueles que solicitam o teste anti-HIV. O número de mulheres
grávidas continua alto, característica da população de baixa renda; porém,
o número de homens que engravidam mulheres após a detenção começa a
diminuir, pois eles estão compreendendo a importância de “diminuir mais
uma dor de cabeça”.
As oficinas são
realizadas nas celas, reunindo um grupo de 20 detentos. Permitem conhecer
e se aproximar das demandas da população-alvo e interagir com mais
eficiência. Com o interesse e a participação da Pastoral Carcerária nas
oficinas, as lideranças religiosas solicitaram uma capacitação para a sua
equipe com o objetivo de também desenvolver oficinas e refletir com a
população-alvo sobre temas relacionados à saúde, direitos reprodutivos,
família, violência e sexualidade. “Vejam só, eu que entrava aqui só para
rezar o terço, hoje distribuo camisinha e dou conselho para esses jovens”
(Dona Geralda).
A Pastoral Carcerária
tem tido um importante papel no projeto, pois multiplica as informações
sobre prevenção e também contribui para que a própria Igreja local avalie
sua postura sobre aids e sexualidade.
Para contatar o
Centro:
Centro de Educação para Saúde (CES)
Rua Santo André, 674
– Vila Assunção – Santo André – SP
Fone/Fax: (11) 4990.8029 - CEP:
090020-230 - e-mail:
cedus@ig.com.br