UMA NOVA E MODERNA JUSTIÇA
Luiz Flávio Gomes
Senhor Ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos:
contribua intensamente para seu biógrafo bem como para os historiadores:
trabalhe, lute, radicalize quando necessário, sem perder sua clássica ternura,
coloque o “dedo na ferida” quando for preciso, ainda que desagrade alguns
privilegiados, enfrente as elites improdutivas e parasitárias e abomine o
corporativismo de todas as instituições.
Sendo legítimo representante da tradição humanista do
Iluminismo, tal como Beccaria, faça valer a liberdade individual frente ao
autoritarismo do Estado leviatã assim como o respeito incondicional à
Constituição; concretize as profundas reformas penitenciárias propugnadas por
Bentham e em nenhum momento deixe de lutar pelos “substitutivos penais” de Ferri
(mais importância tem a família, a escola, a educação e o trabalho que mil
reformas penais).
Implante com determinação uma política preventiva do delito, recusando o protagonismo da provecta mentalidade repressiva. Mantenha sob rigoroso controle a propagação da violência nos meios de comunicação.
Combata sem trégua a corrupção na polícia, no Judiciário
e nos órgãos públicos em geral, assim como a impunidade. Seja duro contra o
crime organizado mas nunca abandone as garantias do devido processo legal. Use
todo serviço de inteligência do Estado, porém, sem destruir a intimidade e a
privacidade de inocentes. Nunca o transforme em instrumento do Governo.
Unifique operacionalmente a polícia, modifique
radicalmente sua mentalidade “reativa” para “pró-ativa”, institucionalizando sem
demora a polícia comunitária, e proporcione condições de trabalho para valorizar
o policial (melhores salários, auxílio moradia
etc.).
Exija concursos públicos sérios e insuspeitos assim como
boa qualidade no ensino jurídico ministrado no país. Depois do ingresso,
incentive a formação técnico-profissional dos juízes, policiais, promotores,
defensores públicos etc., em escolas apropriadas. Determine a realização
permanente de cursos de aperfeiçoamento a todos os policiais e indique-os para
as demais carreiras jurídicas.
Encoraje o (bom) uso de todas as modernas tecnologias: é
chegada a hora de os órgãos da Justiça descobrirem o poder comunicacional e
informacional da televisão e da internet. Retire-os da banda dos excluídos. O
e-mail, por exemplo, pode e deve substituir dezenas de milhões de ofícios,
cartas precatórias e rogatórias.
Apoie firmemente a incansável luta da Defensoria pública
brasileira. Conceda-lhe a sonhada carta de alforria, porque jamais teremos uma
Justiça séria e eficiente sem a presença de defensores públicos em todas as
comarcas do país. Seja radical na criação de um amplo programa de
descriminalização. O caos normativo do país tem que acabar. Conduza todas as
reformas penais necessárias, não se esquecendo do binômio eficiência e garantia.
Promova a radical reforma que o Poder Judiciário
necessita: democratize o acesso à Justiça, melhore suas condições operacionais,
sobretudo da primeira instância, aprofunde as raízes da mediação e da
conciliação, supere a retrógrada resistência de São Paulo frente aos juizados
criminais e refute todas as propostas autoritárias, tal como a da súmula
vinculante, que extermina a liberdade investigativa e científica do juiz
(transformando-o num carimbador).
Democratize o processo de escolha dos Ministros do
Supremo Tribunal Federal, ouvindo todas as pertinentes entidades. Revitalize a
Corte Suprema. Adote a lista tríplice para a escolha do Procurador Geral da
República. Custe o que custar, mas implante o tão esperado controle externo no
Judiciário e no Ministério Público, exija transparência absoluta em todos os
seus atos, especialmente os de investigação dos seus membros, e aniquile o nepotismo.
Toda revolução também é feita com idéias simples. Vincule
o início da carreira dos juízes e promotores aos juizados especiais. O problema
não é a idade deles, sim, a falta de amadurecimento e de experiência para o
exercício de tarefas jurisdicionais mais complexas.
Lute incansavelmente pelo cumprimento de todos os
Tratados e Convenções que o Brasil subscreveu, principalmente os que cuidam
dos Direitos humanos.
Quem o conhece sabe bem que não irá tentar inventar a
roda. Por isso, seja objetivo e direto no que pretende fazer. Com democracia e
participação tomam-se decisões. Mas depois use toda a firmeza do cargo para
fazê-las efetivas. Dê o mais profundo significado à frase que o Presidente Lula
lhe endereçou: “faça o seu gol” (e entre para a
História).
Aliás, poucas vezes na nossa história republicana
criou-se uma sólida expectativa, sem exageros ou utopias, em torno de uma nova e
moderna Justiça. A presença de Márcio Thomaz Bastos no Ministério respectivo
constitui segura garantia para isso. José Carlos Dias e Miguel Reale
Júnior, embora talhados para o
cargo, viram seus sonhos rapidamente destroçados. Mas a conjuntura era outra.
1. Luiz Flávio Gomes Doutor em Direito penal pela Universidade Complutense de Madri, Mestre em Direito penal pela USP, Co-fundador e ex-presidente do IBCCRIM e Coordenador-Geral dos Cursos PRIMA-IELF (cursos ao vivo e via satélite por tv digital para todo país ) e colaborador especial do site CONEXÃO JURÍDICA.