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De costas para a sociedade
Dora Kramer*
Se ainda restassem
dúvidas a respeito do distanciamento entre a Justiça e a sociedade, a
prova cabal teria sido apresentada agora, na forma da reação do Poder Judiciário
ao relatório-base da reforma da Previdência.
Discute-se a possibilidade de limitar salários e aposentadorias de
magistrados, e, na versão dos guardiões da legalidade, o país está à beira de
''uma séria crise institucional'', prestes a promover o ''desmonte total do
Estado'' cuja soberania corre o risco de irremediável ''fragilização''.
Uma
reação absolutamente desproporcional que revela, senão uma disposição dolosa à
geração de uma crise de fato, pelo menos a pretensão de que o país e todas as
suas forças representativas curvem-se às vontades dos semideuses do
Judiciário, investidos da prerrogativa da intocabilidade.
Entidades de magistrados consideram a idéia de correção de antigas
distorções ''simplista e irresponsável'', pois acham que ela embute o princípio
da tábula rasa salarial entre todos os servidores públicos.
Pois
digamos que simplista seja a tradução que fazem do conceito que norteia a
intenção de se introduzir critérios mais justos para efeito do funcionamento do
sistema previdenciário, e irresponsável seja a forma que adotam para levar a
termo um processo de negociação.
O
Judiciário sabe bem o poder que detém sobre todas as instâncias públicas ou
privadas do país. Há receio de enfrentá-lo porque, em última análise, trata-se
de um Poder com o qual mais dia menos dia qualquer cidadão pode se defrontar.
Não
são todas as pessoas que necessariamente ficarão frente a frente com o Executivo
ou com o Legislativo alguma vez em suas vidas. Mas os que nunca dependerão de
uma decisão da Justiça representam exceção.
Donde
o Poder Judiciário chegou onde chegou em matéria de hermetismo e prepotência: a
força do medo alimentado pela necessidade presumida.
Pergunte-se a qualquer governador de Estado que tenha exercido a função
antes dos impedimentos criados pela lei de Responsabilidade Fiscal, a respeito
dos repasses de verbas para os tribunais locais, e o que se ouvirá serão relatos
a respeito de exigências descabidas e total indiferença a limitações
orçamentárias.
Poucos
tiveram coragem de falar do assunto em público, pois preferiam atender aos
pedidos de suplementações de recursos do que correr o risco de ter derrotadas ou
proteladas ações de seu interesse na Justiça.
E qual
a relação que esse tipo de situação tem com a questão em debate? Toda do mundo.
Porque
a conduta do Poder Judiciário no episódio presente traduz a presunção e a
agressividade típicas dos que se sabem na posse da palavra final.
A
tentativa de transformar um debate preliminar sobre questões funcionais da
magistratura em crise de Estado revela intento de coação.
É
bastante provável que sejam justas algumas das reivindicações apresentadas. Mas
é injusta e ilegítima a forma escolhida para defendê-las. Magistrados falam em
greve, sem noção de que integram um Poder da República, assim como o presidente,
os ministros, deputados e senadores.
Podem
essas autoridades por acaso sequer aventar a hipótese de fazer uma greve?
Evidente que não, e, na certa, o Judiciário seria o primeiro a manifestar essa
opinião.
Pode,
quem não preserva a própria instituição, permitindo que nela ocorram deformações
tais como o pagamento de salários astronômicos a desembargadores em Estados
pobres, dar-se ao direito de usar a soberania nacional como instrumento de
reivindicação salarial?
Deve
um Poder, que amanhã ou depois poderá ver-se diante da contingência de julgar
contestações à reforma a ser votada pelo Congresso, mostrar-se à sociedade em
estado de total desequilíbrio?
A
Justiça, aqui, renega o símbolo da balança - a representação do equilíbrio - e
mostra-se cega não no sentido da imparcialidade, mas na expressão da privação de
limites para a obtenção de seus intentos.
Se o
Judiciário acredita que seu adversário nessa guerra seja o Poder Executivo,
engana-se, pois a nação, que de Justiça tanto necessita, esta sim, é tratada
pelos juízes como inimiga. E as recíprocas, como se sabe, na maioria das vezes
costumam ser verdadeiras.
* Dora Kramer - jornalista e cientista política. |