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Seçao Literatura
"No meu tempo de menino tínhamos pena dos pobres. Eles cabiam naquele lugarzinho menor, carentes de tudo, mas sem perder humanidade. Os meus filhos, hoje, têm medo dos pobres. A pobreza converteu-se num lugar monstruoso. Queremos que os pobres fiquem longe, fronteirados no seu território."
Leia o conto de Mia
Couto
O
assalto Mia Couto
Uns desses dias fui assaltado. Foi num virar de esquina,
num desses becos onde o escuro se aferrolha com chave preta. Nem decifrei o
vulto: só vi, em rebrilho fugaz, a arma em sua mão. Já eu pensava fora do
pensamento: eis-me! A pistola foi-me justaposta no peito, a mostrar-me que a
morte é um cão que obedece antes mesmo de se lhe ter assobiado.
Tudo se
embrulhava em apuros e eu fazia contas à vida. O medo é uma faca que corta com o
cabo e não com a lâmina. A gente empunha a faca e, quanto maior a força de
pulso, mais nos cortamos.
— Para trás! Obedeci à ordem,
tropeçando até me estancar de encontro à parede. O gelo endovenoso, o coração em
cristal: eu estava na ante-câmara, à espera de um simples estalido. Cumpria os
mandamentos do assaltante, tudo mecanicamente. E mais parvalhado que o cuco do
relógio. O que fazer? Contra-atacar? Arriscar tudo e, assim sem mais nem nada,
atirar a vida para trás das costas? — Diga qualquer coisa. — Qualquer
coisa? — Me conte quem é. Você quem é? Medi as palavras. Quanto mais
falasse e menos dissesse melhor seria. O maltrapilho estava ali para tirar os
nabos e a púcara. Melhor receita seria o cauteloso silêncio. Temos medo do que
não entendemos. Isso todos sabemos. Mas, no caso, o meu medo era pior: eu temia
por entender. O serviço do terror é esse — tornar irracional aquilo que não
podemos subjugar. — Vá falando. — Falando? — Sim, conte lá coisas.
Depois, sou eu. A seguir é a minha vez.
Depois era a vez dele? Mas
para fazer o quê? Certamente, para me executar a sangue esfriado, pistolando-me
à queima-roupa. Naquele momento, vindo de não sei onde, circulou por ali um
furtivo raio de luz, coisa pouca, mais para antever que para ver. O fulano
baixou o rosto, e voltou a pistola em ameaça.
— Você brinca e eu
… Não concluiu ameça. Uma tosse de gruta lhe tomou a voz. Baixou, numa
fracção, a arma enquanto se desenvencilhava do catarro. Por momento, ele
surgiu-me indefeso, tão frágil que seria deselegância minha me aproveitar do
momento. Notei que tirava um lenço e se compunha, quase ignorando minha
presença.
— Vá, vamos mais para lá.
Eu recuei mais uns
passos. O medo dera lugar à inquietação. Quem seria aquele meliante? Um desses
que se tornam ladrões por motivo de fraqueza maior? Ou um que a vida empurrara
para os descaminhos? Diga-se de passagem que, no momento, pouco me importavam as
possíveis bondades do criminoso. Afinal, é do podre que a terra se alimenta. E
em crise existencial, até o lobisomem duvida: será que existe o cão fora da
meia-noite?
Fomos andando
para os arredores de uma iluminação. Foi quando me apercebi que era um velho. Um
mestiço, até sem má aparência. Mas era um da quarta idade, cabelo todo branco.
Não parecia um pobre. Ou se fosse era desses pobres já fora de moda, desses de
quando o mundo tinha a nossa idade. No meu tempo de menino tínhamos pena dos
pobres. Eles cabiam naquele lugarzinho menor, carentes de tudo, mas sem perder
humanidade. Os meus filhos, hoje, têm medo dos pobres. A pobreza converteu-se
num lugar monstruoso. Queremos que os pobres fiquem longe, fronteirados no seu
território. Mas este não era um miserável emergido desses infernos. Foi quando,
cansado, perguntei:
— O que quer de mim? — Eu quero
conversar. — Conversar? — Sim, apenas isso, conversar. É
que, agora, com esta minha idade, já ninguém me conversa.
Então,
isso? Simplesmente, um palavreado? Sim, era só esse o móbil do crime. O homem
recorria ao assalto de arma de fogo para roubar instantes, uma frestinha de
atenção. Se ninguém lhe dava a cortesia de um reparo ele obteria esse direito
nem que fosse a tiro de pistola. Não podia era perder sua última humanidade — o
direito de encontrar os outros, olhos em olhos, alma revelando-se em outro
rosto.
E me sentei, sem hora nem gasto. Ali no beco escuro lhe contei
vida, em cores e mentiras. No fim, já quase ele adormecera em minhas histórias
eu me despedi em requerimento: que, em próximo encontro, se dispensaria a
pistola. De bom agrado, nos sentaríamos ambos num bom banco de jardim. Ao que o
velho, pronto, ripostou:
— Não faça isso. Me deixe assaltar o senhor.
Assim, me dá mais gosto.
E se converteu, assim: desde então, sou vítima
de assalto, já sem sombra de medo. É assalto sem sobressalto. Me conformei, e é
como quem leva a passear o cão que já faleceu. Afinal, no crime como no amor: a
gente só sabe que encontra a pessoa certa depois de encontrarmos as que são
certas para outros.
Mia Couto - Escritor
moçambicano
Do livro Ficções 3 -
Editora 7 letras
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