Budismos claro e simples

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Do livro “Budismo Claro e Simples” de Steve Hagen

 Introdução

 À medida que o milênio chegou a seu termo, a maioria de nós perdeu a fé nas versões do mundo que apareciam nos livros de história de antigamente. Com o desenvolvimento da ciência, muitos de nós passamos a ver o universo como um domínio, inconcebivelmente estranho, vasto, complexo, impessoal, multidimensional e talvez sem sentido, da mente e da matéria.

Podemos nos sentir forçados a lidar com essa perda da fé tomando um de dois extremos infelizes. Ou ficamos cegos aos nossos apuros e tentamos fugir por meio das drogas, do álcool, de nossa carreira ou de quaisquer dos inúmeros sistemas de crença, ou encaramos a perspectiva assustadora de que somos criaturas inteligentes que habitam um mundo sem sentido.

Muitos de nós agimos como se pudéssemos achar satisfação no simples fato de ter bastante dinheiro, segurança, respeito, amor, fé, educação, poder, paz, conhecimento… Ter alguma coisa.

Porém, há outros dentre nós que não se deixam levar por isso. Eles sentem que a segurança real é impossível de alcançar. Pois sabem que, mesmo que pudéssemos acumular tudo o que desejamos isso seria inevitavelmente tomado pela morte. Nossa mortalidade assoma à nossa frente, tão terrível quanto certa. Parecemos totalmente perplexos. Como podemos ter paz nessas circunstâncias?

Não só nos sentimos aprisionados pela nossa ignorância, mas parecemos condenados a continuar assim. Como disse Yang Chu, o filósofo chinês do século IV A.C.: “Passamos pelo mundo numa trilha estreita, preocupados com coisas insignificantes que vemos e ouvimos, remoendo nossos preconceitos, passando pelas alegrias da vida sem sequer saber que perdemos algo. Nunca por um momento provamos do vinho estonteante da liberdade. Estamos verdadeiramente presos, como se estivéssemos no fundo de um calabouço, atados a cadeias”.

Qual é o problema humano básico que nenhum remédio aparente pode curar? Qual é o objetivo da nossa existência? Como podemos compreendê-la como um todo? E, no entanto, não seria o conhecimento do Todo — o conhecimento que não é relativo, nem dependente de condições mutáveis — precisamente o que seria necessário para nos libertar das dúvidas e dilemas que nos causam tanta dor e angústia?

Ansiamos por estar livres de nossa confusão e descontentamento, por não ter de viver nossa vida acorrentados impotentemente à incerteza e ao medo. No entanto, não percebemos com freqüência que é precisamente nosso estado mental de confusão que nos ata.

Há um modo de ir além dessa ignorância, pessimismo e confusão, e ter a experiência da Realidade como um Todo — em vez de compreendê-la. Essa experiência não está baseada em nenhuma concepção nem crença; é a própria percepção diretaÉ ver antes que os sinais apareçam, as idéias surjam, antes que se caia no pensamento.

Isso é chamado iluminação. Não é mais nem menos do que ver as coisas como são, em vez de como nós queremos ou achamos que sejam.

Essa libertação da mente — essa consciência direta da Realidade como um Todo — é totalmente acessível a qualquer um que queira prestar atenção à sua experiência real.

Vinte e cinco séculos atrás, na Índia, um homem chamado Gautama passou por essa libertação. Ele dedicou o resto de sua vida a ensinar aos outros como conseguir a mesma liberdade da mente. Depois que ele despertou da ignorância nefasta que o impedia de saber o que de faro estava acontecendo, ele se tornou conhecido como o Buda — ou “aquele que despertou”.

 Quando o Buda foi solicitado a sintetizar sua doutrina numa única palavra, ele disse “consciência”. Este é um livro sobre consciência. Não a consciência de algo em particular, mas a consciência em si — estar desperto, alerta, em contato com o que de fato está acontecendo. E sobre examinar e explorar as questões mais básicas da vida. É sobre contar com a experiência imediata deste momento presente. Não é sobre crença, doutrina, fórmulas nem tradição. É sobre a liberdade da mente.

O Buda aprendeu a ver diretamente na natureza da experiência. Como resultado de sua doutrina e de sua vida, uma nova religião veio à luz e se difundiu pelo mundo. Com isso, como todas as religiões, o Budismo acumulou (e gerou) uma variedade de crenças, rituais, cerimônias e práticas. Como difundiu-se de um país a outro, adquiriu uma ampla variedade de aspectos culturais: roupas especiais e chapéus, estátuas, incenso, gongos, sinos, apito — até formas arquitetônicas peculiares, ícones e símbolos. Este livro deixa para trás tudo isso.

Rituais, cerimônias, orações e apetrechos especiais são inevitáveis, mas eles não expressam — não podem expressar — o cerne do que o Buda ensinou. Na realidade, muito freqüentemente essas coisas atrapalham. Elas escondem a sabedoria simples das palavras do Buda e nos distraem dela.

Esse é um problema principal, e não só para os que cresceram no Ocidente. Não é fácil saber onde o Budismo termina e a cultura asiática começa, nem distinguir as doutrinas originais e autênticas do Buda do que foi acrescentado depois por pessoas com menos perspicácia. Como resultado, muitos americanos e europeus acreditam genuinamente que o Budismo é sobre adorar o Buda, ou se curvar e usar mantos, ou trabalhar em si mesmo num transe, ou mesmo encontrar respostas para enigmas difíceis, ou encarnações passadas e futuras.

O Budismo não é sobre essas crenças e práticas. As observações e verdades do Buda são claras, práticas e eminentemente concretas. Elas lidam exclusivamente com o aqui agora, não com teoria, especulação, nem crença em algum tempo ou lugar distante. Porque essas doutrinas permanecem focalizadas neste momento — assim como você está lendo isto — elas permanecem pertinentes e de profundo valor a toda cultura e pessoa que as investiga seriamente. E a essas verdades e observações organizadas e originais que este livro retorna.

Este livro é dividido em três partes. Na Parte Um, nos concentraremos nas doutrinas principais do Buda, que ele chamou as quatro verdades da existência. Na Parte Dois, nos concentraremos mais detalhadamente na quarta dessas verdades. Aqui o Buda mostra um caminho — um modo prático e efetivo devido — pelo qual podemos entender o mundo e lidar com ele. E, na Parte Três, nos deteremos ainda mais para enfatizar os primeiros dois aspectos desse caminho. Estes incluem as doutrinas da sabedoria do Buda, as que lidam com a intenção e a consciência humanas.

Para pessoas que estudam o Budismo pela primeira vez, Budismo Claro e Simples oferece uma visão clara e direta da sabedoria e a orientação de um mestre iluminado que viveu há cerca de 2.500 anos, mas cujas doutrinas permanecem tão vitais e penetrantes hoje quanto no passado. Para as pessoas já familiarizadas com o Budismo, inclusive para os praticantes de longa data — este livro fornece um panorama há muito esperado dos elementos essenciais do Budismo, e a liberdade dos grilhões e dos aspectos culturais que se acumularam por mais de 25 séculos. Para toda pessoa com vontade de sondar a natureza da existência, ele é um chamado para o despertar.

 A Jornada no Agora

 O homem conhecido por nós como Buda viveu no norte da Índia (atual Nepal) no século VI a.C. Originariamente chamado de Gautama, ele foi o único filho de um rei abastado que governou um país pequeno. Quando menino e adolescente, Gautama teve uma existência cheia de mimos e protegida no palácio do pai. Este assegurou-se de que Gautama recebesse o melhor de tudo: as melhores roupas, a melhor educação e bastantes servos para fazer suas vontades.

Na realidade, a vida de Gautama era tão protegida que ele nada sabia sobre doença, morte nem sofrimento humano, até o dia em que, quando jovem adulto, ouviu falar da morte de um servo. Pela primeira vez, de repente, ele deparou com a realidade de que a vida humana inevitavelmente traz a doença, a velhice e a morte. Ele viu-se incapaz de negar ou pôr de lado esse conhecimento recém-descoberto, que logo começou a perturbá-lo cada vez mais. Qual era o valor da vida humana, ele perguntava a si mesmo, se era tão passageira, incerta e cheia de sofrimentos.

A pergunta o assombrou até que ele já não pôde desfrutar dos prazeres passageiros de sua vida de luxo. Ele decidiu deixar a casa da sua família e renunciar à chance de se tornar rei, pois ele passara a ver o poder e a riqueza como um verniz que encobria uma vida que tinha a tristeza e a perda em seus fundamentos. Escolheu em vez disso dedicar o seu tempo e energia a descobrir um modo de se desembaraçar do desespero universal que parecia formar a própria base da existência humana.

Durante seis anos ele vagou pelo vale do Rio Ganges, enquanto aprendia os vários sistemas e práticas dos grandes mestres religiosos de sua época. Embora fosse um discípulo aplicado que depressa dominava tudo o que lhe era ensinado, nada descobriu nessas doutrinas e práticas que o satisfizesse, nada que dissipasse a profunda tristeza que lhe enchia o coração e a mente. Assim, deixou os mestres e seguiu seu próprio caminho.

E então, enquanto estava sentado sob uma árvore, Gautama conheceu a iluminação. Por fim, ele compreendeu inteiramente o problema humano, sua origem, suas ramificações e sua solução.

Dali em diante, ele passou a ser conhecido como o Buda, que quer dizer “o desperto” (Bodhi). Durante os 45 anos seguintes, ele ensinou o caminho da iluminação para homens e mulheres, nobres e camponeses, instruídos e analfabetos, os homens bons e os ignóbeis, sem fazer a menor distinção entre eles. Sua doutrina da libertação do sofrimento humano e do desespero é universal, e até hoje permanece acessível a qualquer um que a examine, entenda e a ponha à prova.

Certo dia, logo depois da iluminação do Buda, um homem o viu caminhando na sua direção. O homem não ouvira falar do Buda, mas pôde ver que havia algo diferente na pessoa que estava se aproximando, de modo que ele se viu tentado a perguntar: “O senhor é um deus?”

O Buda respondeu: “Não”.
“Um mágico, então? Um feiticeiro? Um bruxo?” “Não”.
“Algum tipo de ser celestial? Um anjo, talvez?” Novamente o Buda disse: “Não”.
“Bem, o que o senhor é então?”
O Buda respondeu: “Estou desperto”.

 O Buda nunca se considerou diferente de um ser humano, mas sómente alguém completamente desperto. Ele nunca reivindicou para si o status de um deus, nem de ser inspirado por Deus, nem de ter acesso a nenhum poder oculto ou sobrenatural. Ele atribuía sua compreensão e entendimento somente ao empenho e à capacidade humana.

Chamamos Gautama “o Buda”, mas muitos outros budas, muitos outros seres humanos despertos, existem e existiram. E todo Buda — passado, presente e futuro — é um ser humano, não um deus.

Buda não é alguém a quem você reza, ou de quem tenta conseguir algo. Tampouco um Buda é alguém a quem você se curva. Um Buda simplesmente é uma pessoa que está acordada — nada mais nada menos.

O Budismo não é um sistema de crença. Não versa sobre aceitar certas doutrinas nem acreditar num conjunto de reivindicações ou princípios. Na realidade, é exatamente o oposto. Ele versa sobre examinar clara e cuidadosamente o mundo, sobre testar todas as coisas e cada idéia. O Budismo é sobre ver,  conhecer em vez de acreditar ou esperar ou querer. Também é sobre não ter medo de examinar qualquer coisa e todas as coisas, incluindo as nossas próprias atividades.

Seja como for, precisamos examinar a própria doutrina do Buda. Este convidava as pessoas, em todas as ocasiões, a testá-lo. “Não acredite em mim porque você me vê como o seu mestre”, ele disse. “Não acredite em mim porque os outros acreditam. E não acredite em nada pelo fato de ter lido num livro. Não deposite sua fé em relatos, na tradição, em boatos, nem na autoridade de líderes religiosos ou de textos. Não confie na simples lógica, nem na inferência, nem nas aparências, nem na especulação.”

O Buda enfatizou repetidamente a impossibilidade de algum dia chegar à Verdade seguindo a sua opinião ou a dos outros. Esse caminho só conduzirá a uma opinião, sua ou de outra pessoa.

O Buda encorajava as pessoas a saber por si mesmas que certas coisas são nocivas e erradas. E quando vocês fizerem isso, então desistirão delas. E quando souberem por si mesmas que certas coisas são saudáveis e boas, então as aceitarão e seguirão.

A mensagem é sempre examinar e ver por si mesmo. Quando você vir por si mesmo o que é verdadeiro — e esse é realmente o único modo pelo qual você pode conhecer genuinamente qualquer coisa — quando isso acontecer, aceite-o. Até ai, apenas deixe de lado o julgamento e a crítica.

O ponto central do Budismo é apenas ver. Isso é tudo.

Não podemos abordar o Budismo, nem começar qualquer real investigação sobre a Verdade, com alguma suposição ou crença de qualquer tipo. Devemos estar dispostos a ver as coisas como são, em lugar de vê-las como esperamos e queremos que elas sejam.

Portanto, o Budismo autêntico começa com o fato. Começa com a percepção — com a experiência direta.

O Budismo verdadeiro realmente não é um “ismo”. É um processo, uma consciência, uma abertura, um espírito de investigação — não um sistema de crença, nem mesmo (como normalmente o entendemos) uma religião. É mais exato chamá-lo de a “doutrina dos despertos, ou o budadharma. Como a ênfase deste livro está na doutrina dos despertos e não em nenhuma apresentação sectária, daqui em diante usarei comumente o termo budadharma em lugar de Budismo”.

 A doutrina do Buda não leva muito a sério o que é escrito. Os escritos budistas (inclusive este livro) podem ser comparados a uma balsa. Uma balsa é uma coisa muito útil para transportá-lo sobre a água, de uma margem a outra; mas, uma vez que você tenha chegado à outra margem, você já não precisa da balsa. Realmente, se você quiser continuar sua viagem além da margem, você deve deixar para trás a balsa.

Nosso problema é que tendemos a nos apaixonar pela balsa. Em pouco tempo, pensamos: “Essa foi uma balsa muito boa, serviu-me bem. Quero conservá-la em meu poder e levá-la comigo para continuar a minha viagem”. Mas se conservarmos em nosso poder as doutrinas budistas — ou quaisquer doutrinas — no final das contas elas se tornarão um obstáculo. As doutrinas budistas e os escritos podem ajudá-lo, mas você não achará a Verdade neles, como se a Verdade de alguma maneira estivesse nas palavras do Buda. Nenhuma palavra — do Buda, minha ou de alguém mais — pode ver por você. Você deve fazer isso por si mesmo, como o Buda fez enquanto estava sentado debaixo de uma árvore há centenas de gerações.

As palavras do Buda também podem ser comparadas a um dedo que aponta para a lua Seus ensinamentos podem indicar a Verdade, mas eles não podem ser a Verdade. Budas — pessoas que estão despertas — só podem apontar o caminho.

Não podemos apreender a Verdade com palavras. Só a podemos ver, ter a experiência dela, por nós mesmos.

Se você apontar a Lua para um gato, ele provavelmente não olhará para o céu; ele cheirará o seu dedo. De modo semelhante, é fácil para nós ficarmos fascinados por uma doutrina particular, ou um mestre, por um livro, por um sistema, por uma cultura, ou por um ritual. Mas o budadharma — a doutrina dos despertos — nos leva a nos concentrar não no dedo que aponta, mas na experiência da própria Verdade.

O Budismo às vezes é chamado de religião não-histórica. Em outras palavras, ele não conta uma história da criação, nem especula sobre se estamos indo em direção a um céu ou a uma vida após a morte de nenhum tipo. Realmente, o budadharma não fala de origens nem de fins. Trata-se, sobretudo de uma religião do meio; na realidade, é sempre chamada de caminho do meio.

O budadharma o levaria a começar com o que é dado na sua experiência direta. Não lhe pedirá que aceite uma crença, nem que tente responder por alguma coisa presumida ou imaginada. O budadharma não lhe pede que aceite explicações particulares de como as coisas são. A Verdade não precisa de nenhuma explicação. Só precisa ser vista.

O Buda disse que a condição humana é como a de uma pessoa ferida com uma flecha. A situação é dolorosa e urgente; mas, em vez de conseguir ajuda imediata para a nossa aflição, pedimos detalhes sobre o arco do qual a flecha foi disparada. Perguntamos quem fez a seta. Queremos saber sobre a aparência e a educação da pessoa que retesou o arco. Perguntamos por muitas coisas — inconseqüentes — enquanto negligenciamos o nosso problema mediato. Perguntamos pelas origens e pelos fins, mas deixamos esquecido o momento atual. Nós o deixamos esquecido mesmo que vivamos nele.

Devemos primeiro aprender como fazer a jornada no agora.

 A situação humana

  Imagine que você vê pessoas sentadas à mesa de um banquete suntuoso. Mesas grandes, repletas de iguarias estão espalhadas diante delas. De uma série de alimentos deliciosos e de dar água na boca, perfeitamente preparados, desprendem-se odores, e eles brilham e chiam bem diante dos olhos delas, bem ao seu alcance.

Mas as pessoas sentadas nesse banquete não estão comendo. Na realidade, os pratos estão vazios. Não se serviram sequer de uma migalha. Estiveram por muito tempo sentadas diante desse banquete. E aos poucos estão morrendo de fome. Elas estão sentindo fome, não porque não podem participar do banquete maravilhoso, nem porque comer é proibido, ou uma coisa difícil, ou mesmo prejudicial. Estão passando fome porque não compreendem que a comida é o que necessitam. Elas não reconhecem as dores agudas e insistentes no estômago, causadas pela fome. Não vêem que o que precisam fazer, tudo o que precisam fazer, é desfrutar do banquete que está bem à sua frente.

 Essa é a nossa situação humana básica. A maioria de nós sente que algo está faltando na nossa vida; mas não temos nenhuma idéia sobre qual é realmente o nosso problema, nem sobre o que deveríamos fazer quanto a ele. Podemos ver – talvez vagamente – que o alimento está à nossa frente, mas não o relacionamos à dor dentro de nós, mesmo quando essa dor se torna mais aguda e atroz.

Ansiamos por algo. Sentimos a dor e a perda. Sofremos. Tudo o que precisamos para aliviar esse descontentamento está aqui mesmo diante de nós. No entanto, nós não percebemos isso.  De acordo com o budadharma, esse triste estado de coisas, esse descontentamento profundo e contínuo, é a primeira verdade da existência. Toda a dor que causamos a nós mesmos e aos outros – o ódio, a guerra, a humilhação, a manipulação – é causada por nós mesmos. Sai do nosso próprio coração, da nossa mente, da nossa própria confusão.

Além disso, se não virmos exatamente qual é o problema, vamos perpetuá-lo. Ensinaremos aos nossos filhos a nossa confusão, e seguiremos assim, geração após geração. Fazendo a mesma coisa a nós e aos outros. Quando o Buda lançou um olhar honesto ao próprio coração e à mente, ele percebeu isso, da mesma maneira que inúmeros outros o perceberam desde então. Cada uma dessas pessoas via por si mesma que o seu sofrimento, e os meios de detê-lo, estavam dentro delas mesmas.

Isso não é dizer que deveríamos esperar estar livres de problemas, nem que, se apenas nos comportássemos corretamente, as coisas sairiam conforme a nossa vontade. A vida de nenhuma pessoa – incluindo a do Buda, foi, é, ou estará livre de dificuldades. O budadharma não promete tornar nossa vida livre de problemas. Em vez disso, ele nos incita a examinar a natureza dos nossos problemas. O que eles são e de onde eles vêm. O budadharma não é uma filosofia “de gabinete”. Nenhum castelo no ar. Trata-se de descer às coisas básicas e de agir sobre elas.

Há uma antiga história sobre um homem que foi ver o Buda porque ele, o homem, tinha ouvido falar que o Buda era um grande mestre. Como todos nós, ele tinha alguns problemas na vida, e achava que o Buda poderia ser capaz de ajuda-lo.

Ele disse ao Buda que era um fazendeiro; “Eu gosto de administrar fazendas”, ele disse, “mas às vezes não chove o bastante, e minha colheita é escassa. No ano passado, quase ficamos na miséria. E às vezes chove muito, de modo que meus rendimentos não são o que eu gostaria que fossem”.

O Buda escutou o homem pacientemente. “Sou casado, também”, disse o homem. “Ela é uma boa mulher. Eu a amo de fato. Mas às vezes ela me apoquenta muito. E às vezes me canso dela”.

O Buda ouviu serenamente.

“Tenho filhos”, disse o homem, “filhos bons também… mas às vezes eles não demonstram ter muito respeito a mim, e às vezes…” O homem prosseguiu assim, relatando todas as suas dificuldades e preocupações. Finalmente, ele se acalmou e esperou o que Buda dissesse as palavras que haveriam de ajeitar as coisas para ele.

Em vez disso, o Buda disse: “Eu não posso ajuda-lo”.

“O que quer dizer?” – perguntou o homem surpreso.

“Todos têm problemas”, disse o Buda – “Na verdade, todos temos 83 problemas, cada um de nós. Oitenta e três problemas, e não há nada que você possa fazer sobre isso. Se você trabalhar duro em um deles, talvez você possa resolve-lo, mas se fizer isso, um outro surgirá no lugar dele. Por exemplo, você num período posterior da vida perderá seus entes queridos. E você mesmo morrerá algum dia. Ora, há um problema, e não há nada que você, nem eu, nem ninguém possa fazer sobre isso”.

O homem ficou furioso. “Pensei que o senhor Fosse um grande mestre”, ele gritou. “Achei que o senhor poderia me ajudar! De que serve a sua doutrina. então?”

O Buda disse: “Bem, talvez ela o ajude com o problema de número 84”.

O problema de número 84?”, indagou o homem. “Qual é ele?”.

Disse o Buda: “Você não quer ter nenhum tipo de problema”.

Achamos que temos de lidar com os nossos problemas de modo a elimina-los, ou distorcendo e negando-lhes a realidade. Mas,  ao fazer isso. Tentamos tornar a Realidade em algo que ela não é. Tentamos rearranjar e manipular o mundo para que os cães nunca ladrem, os acidentes nunca aconteçam e as pessoas por quem zelamos nunca morram. Mesmo superficialmente, a inutilidade desses esforços deveria ser óbvia.

Enquanto eu estava trabalhando neste livro, um grande amigo meu morreu – de repente, de modo inexplicável, sem nenhum aviso. Ele estava rindo com os amigos alguns momentos antes. Ele simplesmente atravessou o gramado até os degraus da entrada da casa, sentou-se e morreu.

Rick era amável, generoso e querido por muitos. Tinha um casamento feliz e estável, e deixou uma mulher amorosa e três filhinhos. Tinha 36 anos e, tanto quanto ele e todos sabiam, tinha uma saúde excelente.

Quanto a mim, e quanto aos outros que o conheceram, sua morte foi muito triste. Muito chocante. Muito inesperada. E rápida. Senti muito a sua falta, e chorei com a sua família e com os muitos amigos que o amavam. A vida humana é assim. Não podemos esquecer isso. A erva daninha crescerá, embora a odiemos e a queiramos extirpar; as flores murcharão, embora as amemos e ansiemos para que durem.

A vida humana é caracterizada pela insatisfação. Ela está bem aqui conosco. Essa é a primeira verdade da vida humana proposta pelo budadharma. Como lidamos com essa realidade? Devemos fingir – ou esperar que o que amamos não morrerá? Os que despertaram responderão com um decisivo “não”.

O budadharma baseia-se na Realidade. Ele não é fantasia, nem pensamento voluntário, nem uma negação do que a vida humana é. Não há nenhuma tentativa de encobrir, de atenuar, de reinterpretar os fatos.

É imperativo reconhecer que nossa insatisfação se origina em nós. Ela surge da nossa própria ignorância, da nossa cegueira com relação à nossa situação de fato, do nosso desejo de que a Realidade seja algo que ela não é. Nosso anseio, nossa cobiça, nossa sede de algo que não a Realidade é o que nos deixa insatisfeitos. A segunda verdade do budadharma, pois é que essa insatisfação nasce em nós.

A terceira verdade, de que me ocuparei brevemente, nos oferece um meio de ter justamente a experiência dessa compreensão. Esta às vezes é chamada de nirvana ou iluminação. Uma descrição mais exata, contudo, poderia ser simplesmente liberdade da mente.

A quarta verdade é que podemos compreender a origem da nossa insatisfação, e podemos, assim, pôr um ponto final às suas formas mais profundas e existenciais.

Freqüentemente planejamos nossa busca espiritual – nosso corpo a corpo com problemas humanos fundamentais – a modo de uma jornada; mas o tipo de jornada em que nós embarcaremos agora não é uma jornada no sentido comum da palavra.

Em geral, pensamos numa jornada envolvendo movimento e direção, partindo para algum lugar no mundo ou ao contrário, para o íntimo, para o eu. Mas no Budismo nossa jornada não deve ir a nenhum lugar – nem para dentro nem para fora. Em vez disso, nossa jornada é para o que está próximo, para o que é imediato. Nossa jornada deve ser despertar aqui e agora, despertar para o aqui e o agora. Para estarmos totalmente vivos, devemos estar de todo presentes.

A pergunta é: como fazemos isso? Para ter a resposta para essa pergunta, você deve compreender três coisas. Em primeiro lugar, você deve verdadeiramente compreender que a vida é passageira. Em seguida, você deve entender que você já é completo, digno, íntegro. Finalmente, você deve ver que você é o seu próprio refúgio, o seu próprio santuário, a sua própria salvação.

Pegue uma flor – uma bela rosa, viva, fresca. Seu cheiro é maravilhoso. Ela revela um ritmo aprazível nas espirais de suas pétalas, uma coloração viva e ofuscante, uma superfície aveludada. Ela nos comove e encanta. O problema com a rosa é que ela morre. Suas pétalas caem; ela murcha, desbota e volta para a terra. Uma solução para esse problema é ignorar a rosa real e substituí-la por uma de plástico, que nunca morre (e nunca vive). Mas será que queremos uma rosa de plástico? Não, claro que não. Queremos a rosa real. Queremos a que morre. Nós a queremos porque ela morre, porque ela é efêmera, porque ela fenece. É justamente essa qualidade que a torna preciosa. Isso é o que queremos, o que cada um de nós é: uma coisa viva que morre.

Seu corpo e sua mente também são preciosos, porque são igualmente efêmeros. Eles estão mudando – sempre, a cada momento. De fato, você não é nada exceto a própria mudança.

Examinemos isso com atenção por um momento. É fácil perceber que você não tem o corpo que tinha quando era criança. Nem a mesma mente. Se olhar com atenção, perceberá que não tem o mesmo corpo e mente que tinha quando virou para esta página momentos atrás. Nesses poucos segundos, muitas células no seu corpo morreram e muitas outras foram criadas. Mudanças químicas incontáveis ocorreram em órgãos diferentes.

Seus pensamentos mudaram em reação às palavras nesta página e às circunstâncias ao seu redor. Milhares de sinapses no seu cérebro se desencadearam milhares de vezes. Em cada momento, você mudou.

Como a rosa, nosso corpo e nossa mente são efêmeros.

De fato, tudo na nossa experiência – nosso corpo,  nossa mente, nossos pensamentos, nossos desejos e necessidades, nossos relacionamentos são efêmeros. Mutáveis. Sujeitos à morte. Morremos a cada momento e novamente, nascemos a cada momento. O processo do nascimento e da morte prossegue indefinidamente, momento após momento, bem diante de nossos olhos. Tudo para o que olhamos, incluindo nós mesmos e cada aspecto de nossa vida, é apenas mudança.

A vitalidade consiste nesse nascimento e morte. Essa impermanência; essa constante ascensão e queda são o que torna a nossa vida vibrante, maravilhosa e cheia de ânimo. No entanto, comumente queremos impedir que as coisas mudem. Queremos preservar as coisas, apegar-nos a elas. Como veremos, esse desejo de se apegar, de algum modo parar de mudar, é a maior fonte de pesar, horror e problemas na nossa vida.

Você já está na realidade, quer a veja quer não. A realidade é o que está aqui, agora. Assim, você está aqui e agora também. Você já sabe de tudo isso, pela experiência imediata. Você não está separado da Realidade. “Ela não esta lá fora” em algum lugar, mas bem aqui.

Isso nos dá a oportunidade de despertar. Você tem essa chance de despertar bem aqui, neste momento e a cada momento. Assim, a iluminação já lhe pertence.

A maioria de nós tende a pensar – pois aprendeu assim – que é o contrário, que temos de imaginar alguma coisa. Mas não. Nós não precisamos imaginar a nossa própria experiência; ela já está aqui, em primeira mão.

Você já é um iluminado. Tudo o que você precisa fazer é parar de bloquear a si mesmo e encarar com seriedade o hábito de atentar para o que  está acontecendo. Não lhe falta nada. Você só precisa parar de se bloquear ou de interpretar a sua visão. Na sua última conversa antes de sua morte, o Buda disse: “Que cada um de vocês seja uma luz para si mesmo; que ninguém recorra a um refúgio exterior. Que todos se apeguem à Verdade. Não busquem refúgio em ninguém a seu lado”. Você é a autoridade final. Não eu. Não o Buda. Nem a Bíblia. Nem o governo. Nem o presidente. Nem mamãe nem papai, mas Você. Nenhuma comunidade de filósofos, cientistas, padres, acadêmicos, políticos, nem generais – nenhuma escola, legislatura, parlamento, nem corte – podem ser responsáveis pela sua vida, pelas suas palavras ou ações. A autoridade é sua e apenas sua. Você não pode nem se livrar dela nem escapar a ela.

É claro, você pode fingir que desiste dessa autoridade máxima, ou ignorá-la como se você não a tivesse, ou tentar dá-la a alguém mais. Mas você, na verdade, não se livrou dela. Você passou sua autoridade para alguém mais. Você preferiu negar ou ignorar essa autoridade. Você tomou a decisão de mentir para si mesmo e fingir que lhe falta essa autoridade.

Longe de ser um fardo, essa autoridade máxima é, na verdade, maravilhosa. Ela significa que você tem o poder de despertar. Você o tem agora nas suas próprias mãos. Você não tem que ir a nenhum outro lugar. Você pode despertar agora mesmo – já. Você está totalmente equipado para fazer isso agora, neste momento. Você já tem todo o poder de que vai precisar para compreender a felicidade.

Em outras palavras, você está totalmente preparado para qualquer coisa que possa acontecer. Cada um de nós tem a capacidade de ser simplesmente o que é, sem nada acrescentar ao que somos. Nada falta. Você tem apoio e é amparado, bem agora, mesmo que ainda não compreenda isso (ou não compreenda como). O banquete está à sua frente, e você encontra aí o seu alimento.

Para pôr um fim de vez à intranquilidade da mente, tudo o que você precisa fazer é ver que de fato não existe nada “lá fora” a se conseguir porque, já, neste momento, tudo está completo. Ao fazer isso, você pode despertar da confusão eterna, da angústia existencial, da pergunta não respondida sobre o sentido da vida.

Essa atividade – essa visão- é a quarta verdade do budadharma. É um meio pelo qual podemos ter a experiência da liberdade da mente.

A quarta verdade do budadharma apresenta oito aspectos, motivo pelo qual ela é chamada de caminho óctuplo.

E o que é esse caminho? Ele é, em primeiro lugar, ver o que é o nosso problema, e então resolver lidar com ele. Ao ver, você compreenderá que deve viver conscientemente, não pelo seu bem nem pelo bem de alguém mais, tampouco pelo bem de alguma meta, ou crença, ou idéia, mas pelo bem de estar compeltamente envolvido no momento. Quando você vir, você falará, agirá e conservará a sua vida de um modo consciente. A sensatez no falar, no agir e no modo de vida em geral se seguirá então naturalmente. Isso fornece os fundamentos para uma moralidade que de fato funciona.

O ensinamento moral que deriva do budadharma não é um código puritano de comportamento em que afetamos virtude, granjeamos simpatia ou prometemos ser bons para que possamos reivindicar uma recompensa em alguma data posterior. Em vez disso, a moralidade saudável ocorre completamente no momento. Ela se baseia na imediatez da Realidade, em como vivemos verdadeiramente. Nossa “recompensa” está no imediato, no aqui e agora, não numa “terra do nunca”.

O caminho óctuplo também inclui o esforço, a concentração e a meditação; mas a meditação budista não é o que muitas pessoas acham que ela seja. Não é nem um exercício de relaxamento nem um esforço com vistas a algum estado mental específico. Essa meditação é simplesmente sobre aprender a estar aqui – a estar presente em cada momento e a observar o que está se passando.

O budadharma não nos convida a chapinhar em idéias abstratas. Em vez disso, a tarefa que nos oferece é atentar para o que verdadeiramente vivemos, bem neste momento. Você não tem de olhar “para algum lugar”. Você não precisa imaginar nada. Você não tem que adquirir nada. Você não tem que fugir para o Tibet, nem para nenhum lugar. Você desperta bem aqui. De fato, você só pode despertar aqui. Assim, você não tem de levar a efeito a longa procura, a caçada frenética, a busca dolorosa. Você já está exatamente onde precisa estar. A mesa esta posta diante de você. Vejamos como podemos nos alimentar.

 

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