A penetração na realidade

Depois da magnífica série de conferências que o Dr. Suzuki deu para a Sociedade, e em outros lugares na Inglaterra, em 1953, não poderíamos aprovar sua visita ao continente, em 1954, sem que nos fizesse outra visita. Ele poderia ficar na Inglaterra menos de uma semana, mas após sobrevoar o Atlântico durante a noite, ele veio direto para a Classe de Zen da Sociedade, em 5 de julho. Não era justo esperar por uma conferência inteira, mas ele perguntou se havia perguntas e a primeira delas foi: “Qual a melhor forma de se penetrar a Realidade?” Vários estudantes escreveram o que puderam da resposta, mas como não houve tempo para que o Sr. Suzuki fizesse uma revisão de nossas anotações de sua palestra, o que se segue deve ser tomado mais como o nosso entendimento do que como suas palavras.

Ao ser perguntado, “Qual a melhor forma de se penetrar a Realidade”, o Dr. Suzuki respondeu: “Primeiro devemos saber o que é o intelecto e quais são suas limitações. Enquanto nos limitarmos à análise intelectual, não podemos deixar de sentir uma certa inquietação mental. Pois somos tão dependentes dos sentidos e, ainda que para conhecer a Realidade tenhamos que encontrá-la através dos sentidos, estes, por eles mesmos, não nos proporcionam a Realidade. Os dados sensoriais são sintetizados pelo intelecto e o intelecto e os sentidos trabalham juntos, porém mais cedo ou mais tarde devemos desenvolver um conjunto interno de sentidos para o mundo interior. O mundo exterior não pode existir sem o outro, o mundo interior e não devem ser divididos em dois. Se forem divididos, não podemos transcender as limitações do intelecto. Tendemos a colocar ênfase demais no aspecto exterior; devemos nos concentrar mais no interior.
Agora, o intelecto funciona desta maneira. Os dados sensoriais são fornecidos pelos sentidos e o intelecto pensa, mas serão os dados fornecidos ao intelecto o que o intelecto realmente analisa como vindos do exterior? O intelecto trabalha baseado no princípio de sujeito e objeto. Os dados que vêm dos sentidos pertencem ao mundo exterior, mas em oposição a este mundo exterior o intelecto tem um mundo interior. O intelecto trabalha baseado no princípio desta dicotomia e, o interior e o exterior são tão correlacionados que, sem um o outro não pode existir. Por isso, assim que começamos a dividir a Realidade em duas, não podemos transcender as limitações do intelecto. Todo o problema surge desta bifurcação, que deve ser transcendida; não ignorada, mas transcendida.
Os dois devem se fundir um no outro enquanto perma¬necem dois. Colocamos muita ênfase no exterior; agora devemos ver o que está dentro. Mas descobrir o que te¬mos interiormente é muito difícil, porque dirigimos a nossa atenção para aquilo que chamamos de “eu”. Assim que nos voltamos para o eu, o eu divide a si próprio naquele que quer ver e naquele que é visto. Quando queremos ver o que é a realidade interior, no mesmo momento em que pensamos nela, nós a dividimos em duas e esta dualidade nunca poderá acabar enquanto tentarmos ver algo fora de nós mesmos. O intelecto fez-se prisioneiro desta dualidade, e a subjetividade pura resulta sempre nesta divisão.
A questão é: pode uma pessoa pensar sem se dividir? Do ponto de vista intelectual isto é impossível. Quando dependemos do intelecto, não podemos escapar desta divisão. Como então, podemos fazer sem o intelecto? Possuímos alguma faculdade que nos permita ver uma coisa sem dividi-la, isto é, vê-la em si mesma, através de si mesma e não a objetivando? Pode a Realidade ver a si mesma refletindo-se em si mesma? É isto que eu chamo de subjetividade pura e de transcendência do intelecto. Isto é possível por meio daquilo que é chamado de Prajna (Sabedoria), e este Prajna está na base do intelecto. O que faz possível o intelecto é o fato de que Prajna está em sua base; sem Prajna, o intelecto nunca pode trabalhar. Portanto, devemos ver o que é Prajna. Prajna é intuição, mas a intuição é entendida, geralmente, como uma forma de intelecto. A verdadeira intuição-Prajna não é só isso. Quando olho para um quadro, os sentidos percebem sem a mediação de um conceito. A percepção sem mediação é chamada de intuição. A percepção sensorial comum contém dois elementos: aquele que vê e aquele que é visto. Esta visão, da percepção sensorial, não requer nenhum agente mediador. Em seguida, o intelecto inter¬põe-se entre sujeito e objeto. Porém, a intuição-Prajna não é apenas ver uma coisa individual, mas a totalidade da Realidade concentrada naquele objeto particular. É um objeto individual, não dividido, não como um objeto particular, mas o infinito da própria Realidade presente nele. Então, quando vejo uma flor, a flor é um objeto particularizado, mas ao mesmo tempo é a própria totalidade. Portanto, quando se menciona o 1, pensamos em 1, mas 1 nunca pode ser 1 a não ser que existam 2, 3, etc. Quando dizemos “eu vejo”, naquele mesmo momento atua o infinito, mas, geralmente, o intelecto vê apenas o 1 como objeto único em vez de 1 como infinito. A flor deve ser vista como uma flor-infinito, mas também como uma flor única.
A onipresença de “Deus” consiste em ser um anjo num anjo, uma pedra numa pedra, etc. É isto que é chamado de “Tal-qual-ismo”, ver as coisas como elas são. Por isso o Ser de “Deus” é o nosso Ser e somos todos um neste Ser. E quando dizemos 1, não é como um objeto dividido, mas 1 como o infinito mesmo. Esta é a intuição-Prajna, que está na base do intelecto. Quando estamos insatisfeitos, quando nos tornamos conscientes das limitações do intelecto, isto se deve aos trabalhos internos da intuição-Prajna. O Prajna é negligenciado quando enfatizamos o intelecto. Portanto, é o Prajna quem produz a insatisfação. Conhecer esta insatisfação é nos tornarmos conscientes de nossas imperfeições. Então, quando o intelecto torna-se consciente de suas limitações, este é o exato momento em que conhecemos o que é Prajna.
O momento da consciência das limitações do intelecto é, em si mesmo, Prajna. Portanto, quando perguntamos o que é a Realidade, neste mesmo instante a Realidade já está aqui. Perceber isto é Prajna. Então, no começo de nossa busca, estamos tateando vagamente no escuro, mas quando Prajna assume o comando, sabemos o que é a Realidade, o que significa esta insatisfação e sabemos onde estamos. Esta foi a maneira pela qual o Buda atingiu a Iluminação. Quando o Buda começou a sua busca, ele dividiu a si mesmo. Havia a Realidade que ele queria ver e havia uma pessoa que queria vê-la. Mais tarde, em vez de sair, o Buda voltou-se para dentro e a Realidade estava lá… O Buda é a Realidade e a Realidade é o Buda, e a pergunta se torna a própria pessoa que a faz. A saída é a volta. Quando acontece esta identidade da pergunta e da pessoa que faz a pergunta, isto é Prajna e toda a insegurança e ansiedade acabam.
Por trás dos sentidos devemos ter algo, que é a intuição-Prajna. A intuição não se dá através dos sentidos e, no entanto, se dá através dos sentidos; isto é difícil de assimilar. Enquanto formos dotados dos sentidos, não podemos escapar ao mundo sensorial. Não podemos negá-los, porque negá-los é afirmá-los. Isto é intuição-Prajna. Para medir nossos valores, dependemos dos nossos sentidos, mas por trás dos sentidos devemos ter algo que possa julgar o valor real dos sentidos e, para encontrá-lo devemos ir através dos sentidos. A menos que todas as diferenças dos sentidos estejam sintetizadas por esta intuição-Prajna, não podemos ter uma Realidade sistematizada.
Ao ser perguntado sobre a Compaixão (Karuna, Bodhichitta) e sua relação com o amor humano, o Dr. Suzuki respondeu:
Eu entendo que os teólogos dividem o amor em dois, o Eros, pertencente ao amor humano e Ágape, pertencente ao divino. O amor humano tem um objeto, mas o amor divino é um amor sem objeto. Karuna, Bodhichitta (Compaixão) corresponde a Ágape. Quando o aspecto Prajna é enfatizado, vemos o aspecto metafísico da Realidade, o “Tal-qualismo”, as coisas como elas são. Quando não vemos as coisas como elas são, o elemento Karuna, Bodhichitta não aparece, e a permanência no Prajna é uma fraqueza humana. Quando esta fraqueza é superada, o Prajna é Karuna. Karuna sem Prajna, assim como Prajna sem Karuna é unilateral; a totalidade da Realidade é perdida; esta é a deficiência humana. Quando o Buda realizou a Iluminação, seu primeiro pensamento foi de que esta Realidade não poderia ser comunicada aos outros seres. Eu não posso, disse ele a si mesmo, comunicar minha experiência aos outros. Mas, depois disso, ele tentou comunicar sua experiência porque os outros seres também poderiam entendê-la. Por isso, a motivação de comunicar surge da própria experiência do Prajna. Todo mundo pode ter a experiência do Buda e, até onde diz respeito à Iluminação, o Buda é cada um de nós e todos somos Buda. Quando o Buda teve um pensamento de comunicação, este pensamento surgiu da própria experiência. É isto que faz dela uma experiência verdadeiramente humana, e sua motivação de comunicá-la é a própria essência de sua Iluminação. Sem este sentido de transmissão, a Iluminação do Buda não seria real. A Iluminação é o desejo de comunicar, isto é a própria compaixão. A própria motivação de transmitir, faz do Prajna, Karuna. Eles devem complementar um ao outro.
[…]

Do livro: O CAMPO DO ZEN de Daisetz Teitaro Suzuki

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