A sabedoria que não descrimina os corpos do Buda

Ensinamentos do Mestre Thich Nhat Hanh
Retiro de 21 dias em Plum Village
de 2 a 21 de junho, 2000

Transcrição e tradução de Tenzin Namdrol

Bom dia, querida Sangha, hoje é 4 de junho, 2000. Estamos na Aldeia de Cima cujo nome é Templo da Núvem do Dharma.

Se observarmos o nosso corpo podemos ver que as suas células funcionam como a Sangha e não somente as células mas também outras partes de nosso corpo assim como as mãos, pés, olhos, orelhas, etc. Quando observo a minha mão direita, mesmo se a chamo de “minha mão direita,” não penso nela como uma entidade isolada da minha mão esquerda. Se fosse possível separá-la no tempo e no espaço ela ainda seria parte de um só organismo. Sabemos que a minha mão direita é capaz de caligrafar mas é preciso que ela pegue um pincel e se ponha a escrever. Foi com a minha mão direita que escrevi todos os meus poemas. É com a minha mão direita que convido o sino a tocar para vocês mas a minha mão direita nunca se atém a ideia de que faz todas estas coisas. Ela não se dirige à minha mão esquerda comentando, “sabe, todos os poemas que foram ou não publicados foram escritos por mim. Você não esta com nada!” Assim, a minha mão direita nunca não tem desgostos porque ela é permeada pela sabedoria que não discrimina. A minha mão direita é livre.

Você quer pendurar um quadro na parede, a sua mão esquerda pega no prego e a direita pega o martelo e você dá uma martelada no prego, mas se não tiver jeito em vez de martelar o prego pode martelar o dedo. A dor da mão esquerda é a mesma dor da direita. Instintivamente você larga o martelo, segura o dedo doído e faz o que pode para sentir alívio e tudo isto é feito à luz da sabedoria da não discriminação. A palavra sânscrita é:

O Buda age a partir da não discriminação. Se estamos vendo a cor branca ou a cor preta não discriminamos, se temos a ver com um doutor ou com alguém que nunca foi a escola tão pouco discriminamos. Habitados pela sabedoria da não discriminação deixamos de sofrer e não causamos sofrimento aos demais. O que é a sabedoria que não discrimina? Não é um conceito nem uma ideia, é a realidade que se manifesta. Observe cada célula do seu corpo, a sua mão direita, a esquerda e verá como age a sabedoria da não discriminação. É a realidade, não é uma expectativa, nem um conceito, nem uma ideia.

Isto pode ser visto num colmeia. A abelha,, mesmo enquanto vive a sua individualidade também vive a vida da célula, do tecido, do organismo que é a colmeia. A formiga no formigueiro se comporta da mesma maneira. Podemos constatar a sabedoria que não discrimina em cada abelha, em cada formiga. Quando a abelha se afasta da colmeia para colher o açúcar, permanece ligada à colmeia como por um fio. Ela age como um organismo, como uma comunidade, como uma Sangha, não como um ser isolado e é esta a força que pode ser observada nela. Quando alguém vai ao mercado fazer compras para a Sangha, esta pessoa é a Sangha, esta se comportando como Sangha e é fortalecida pela Sangha. Quando um irmão organiza um dia de plena atenção numa outra cidade esta fortalecido pela totalidade da Sangha. Podemos observar nele a energia de toda a Sangha porque não age como um indivíduo mas como um membro solidamente plantado na comunidade. Encontramos nele a sabedoria da equanimidade, a sabedoria da não discriminação. Se acontece transmitir um excelente ensinamento ele não vai dizer: “Fui eu que dei o ensinamento! Só eu posso transmitir tão bem um ensinamento!” Isto porque este irmão esta habitado pela sabedoria da não discriminação. O ensinamento é um aporte da Sangha mas também da audiência. Se você aprecia um ensinamento de Dharma saiba que não veio do Thay, é um produto da coletividade. Olhando para o Thay você verá o Mestre dele, verá gerações de Mestres, verá o Buda e os Mestres do Buda. E se verá também, assim como a sua felicidade e o seu sofrimento, no ensinamento do Dharma. O ensinamento é a flor que desabrocha no jardim da comunicação. O sofrimento, o ensinamento e a prática transformam o sofrimento que quando é compreendido manifesta o ensinamento. Esta é a essência de um ensinamento de Dharma.

Quando você cozinha para a Sangha, vai a feira para os cozinheiros é possível que o faça com a sabedoria não discriminatória, recorrendo às mãos da Sangha em vez das suas próprias mãos, e verá a diferença porque sentirá mais energia, mais alegria e descascará os legumes no território da não discriminação. A diferença é enorme! E se sabe fazê-lo como Sangha não terá qualquer desconforto, mas muita alegria, como a abelha lá fora, longe da colméia em busca de açúcar. Ela está trabalhando para a Sangha, não sofre porque não está no território do eu. Parece difícil mas está sendo feito ao redor de nós em todos os lados. Observe, sorria, aja e a felicidade será sua imediatamente.

Você tem a oportunidade de observar os monges e monjas de Plum Village em ação, os leigos de Plum Village em ação e sabe que ninguém aqui tem vencimento, somos todos abelhas da mesma colméia e ninguém recebe nada. A nossa força não vem do salário já que ninguém recebe nada. A nossa força vem da Sangha, a motivação da Sangha porque a Sangha é o nosso refúgio. Você está levando a cabo uma nobre tarefa e o seu bem estar depende desta compreensão, desta ação, da sua prática do dia a dia.

Quando uma de nossas monjas aprende a fazer como a abelha que vai buscar mel, ciente de que está trabalhando para a Sangha, para preparando uma refeição equilibrada para a Sangha; e que desta forma a Sangha recebe bastante energia para praticar. Esta é a sua alegria, a sua felicidade.


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