Budismo, Ciência e Tecnologia

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O Novo VEÍCULO DE SABEDORIA

 

  Todos os fenômenos dos mundos externo e interno, com exceção do espaço natural e da vacuidade, existem na impermanência. Das maiores cadeias de montanhas, estrelas e galáxias à corrente interna de energia de vida dos seres humanos com suas emoções e pensamentos sempre em mutação, tudo está continuamente se desintegrando momento a momento e se transformando em outra manifestação de vida e de energia elemental.

A dança cósmica da criação, transformação e destruição, nos níveis grosseiro, sutil e muito sutil, segue o ritmo cósmico fundamental e a melodia do carma, da vacuidade e do surgimento interdependente dos fenômenos.

Em minha opinião, os yogues tântricos antigos e modernos, os mahasidhas, mestres, filósofos tibetanos (gueshes) e outros Seres Sagrados que pesquisam o mundo interior e os físicos do século XX, que investigam o mundo externo, independentemente uns dos outros, descobriram a verdade da vacuidade e da interdependência dos fenômenos. É claro, que da perspectiva budista, tudo isso é criado pela mente. Acreditamos que a investigação científica interna da mente sutil e da energia, realizada por muitas gerações de yogues, santos e grandes meditadores, é muito mais profunda e poderosa que a investigação científica do nível grosseiro, realizada por nossa geração atual. Entretanto, ambos parecem estar tocando a mesma realidade a partir de ângulos diferentes e em diferentes níveis, Os cientistas estão tocando a vacuidade e o surgimento interdependente dos fenômenos do ponto de vista objetivo, no nível grosseiro, baseados nos objetos manifestos e no que pode ser registrado pelas máquinas e conceitualmente formulado pela matemática. Os mahasiddhas e grandes meditadores tocam a vacuidade diretamente, subjetivamente e sem conceitos, nos níveis sutil e muito sutil, baseados em sua experiência pessoal da dissolução de seus elementos, ventos e consciência, resultado de terem aprendido a cuidar de seus canais, ventos e gotas. Ambos estão tocando a vacuidade e o surgimento interdependente dos fenômenos utilizando as estruturas de suas próprias metodologias científicas.

Os mestres budistas afirmam o seguinte:

 •       Os fenômenos físicos e mentais são vazios de existência em si mesmos, pois todos os fenômenos são projeções de nossa mente nos níveis grosseiro, sutil e muito sutil, e o criador supremo do universo fenomênico é nossa mente muito sutil de clara luz.

 •       Todos os fenômenos se manifestam interdependentemente e funcionam devido ao camma (a lei de causa e efeito). Podemos examinar níveis diferentes de surgimento interdependente dos fenômenos, desde o mais grosseiro (as coisas dependem de suas partes, causas e condições) até a interdependência no nível muito sutil, quando percebemos que nosso “rotular” mental dos fenômenos é o verdadeiro ato de criação que os traz à realidade.

•       O macrocosmo é um reflexo do microcosmo e vice-versa.

Conforme posso entender, as idéias defendidas pelos cientistas são as seguintes:

 •       Nenhum fenômeno do mundo material existe de forma concreta substancial ou independente como normalmente aparentam. Verificando o interior dos átomos, não encontramos nada além de espaço e energia em movimento.

 •  Todos os fenômenos materiais estão se desintegrando e se transformando momento a momento, no nível sutil, de acordo com uma precisa lei de conservação da energia, segundo a qual, a energia nunca pode ser perdida no universo e, assim, se transforma continuamente em novas formas.

 •       Todos os fenômenos do macrocosmo e do microcosmo são uma grande rede interdependente, O macrocosmo reflete-se no microcosmo tal como os campos eletromagnéticos de nossos corpos.

 •       Alguns pesquisadores da física quântica afirmam que o universo material não pode ser entendido sem uma referência à consciência humana e que, de alguma forma, a mente está ajudando a criar os fenômenos materiais.

Em minha opinião, a visão dos mestres budistas está muito próxima da visão dos físicos de hoje. Talvez suas explicações sejam exatamente as mesmas, ou talvez, muito pouco diferentes. Mesmo não podendo ter certeza sobre isso, não há como negar que os físicos de hoje podem virtualmente concordar com a visão budista da realidade. Por isso, muitos cientistas estão começando a se interessar por aspectos específicos do budismo tibetano, e também por outras tradições espirituais antigas, como o hinduísmo e o taoísmo.

Os cientistas estão iniciando um diálogo com os mestres budistas porque o budismo pesquisou por completo a relação mente-matéria, os níveis sutil e muito sutil de consciência e os cinco elementos. Se os cientistas tivessem acesso a esse nível sutil subjetivo e objetivo da realidade, não precisariam comunicar-se com os Lamas. Isso não significa que os cientistas precisam tornar-se budistas. Os Lamas modernos como eu desejam apenas oferecer a essência da prática e da filosofia Prajnaparamita, Pramana, Abhidharmakosha, do Tantra e outros métodos aos cientistas, para que eles os utilizem como lhes parecer mais adequado.

Sua Santidade o Dalai Lama está pedindo à geração atual de Lamas que mostrem a qualidade da investigação budista ao mundo. Hoje em dia, quase tudo já foi examinado e pesquisado. As únicas coisas interessantes que ainda não foram pesquisadas por completo são as mensagens das antigas culturas de sabedoria, como o budismo tibetano. Precisamos fazer uma ponte entre a maravilhosa pesquisa dos cientistas modernos e a maravilhosa investigação dos lamas, mestres e mahasidhas. Eu gostaria de organizar uma série de conferências sobre isso e publicar os resultados para poder apresentar com clareza as boas novas dos cientistas e mestres ao mundo.

Não é necessário que os cientistas entendam tudo sobre o budismo ou que os budistas entendam tudo sobre a ciência. Precisamos apenas explorar conjuntamente as áreas de interesse comum e fazer uma ponte, iniciar o diálogo e a comunicação. Essa troca é muito importante pois, no próximo século, todos nós estaremos ligados à ciência ou à tecnologia, mas ainda estaremos procurando respostas profundas para o “sentido da vida e da realidade”.

Se você está interessado em pesquisar o solo comum entre o budismo e a ciência, por favor, considere as seguintes citações de uma seleção dos mais influentes cientistas do mundo interno e externo dos últimos dois mil e quinhentos anos como ponto de partida para sua reflexão. Por favor, não se sinta desencorajado ou impaciente ao ler suas palavras. É natural que os cientistas, em seu trabalho de investigação da realidade, usem seus termos científicos próprios para explicar suas descobertas. Mesmo não conhecendo o significado de algumas destas palavras, é possível ter algum sentimento sobre as verdades que eles estão tentando revelar.

Precisamos sentir e entender que essas duas correntes de visão e resultados experimentais possuem ambas a capacidade de desvelar algo da natureza fundamental do universo. Embora os cientistas do mundo interno e externo se expressem de formas diferentes, sinto que existe certamente uma relação entre suas visões de mundo e, se fosse possível sintetizá-las, isso seria de grande benefício para a sociedade, tanto em termos do desenvolvimento da ciência e da tecnologia, quanto para o desenvolvimento da paz interior e da paz no mundo.

 A VACUIDADE

 O bodisatva Avalokitesvara disse no Sutra da Essência da Perfeição da Sabedoria, há dois mil e quinhentos anos:

 “Forma é Vacuidade, Vacuidade é Forma

Vacuidade não é outra coisa senão forma. Forma também não é outra coisa senão vacuidade”.

“Assim, os sentimentos, a discriminação e os fatores composicionais são vazios. Portanto… na vacuidade não há corpo existente por si mesmo, sentimento existente por si mesmo, consciência existente por si mesma. Não há forma existente por si mesma, som existente por si mesmo, cheiro existente por si mesmo, gosto existente por si mesmo, objetos táteis existentes por si mesmos, fenômenos mentais existentes por si mesmos”.

 Tchandrakirti, um famoso mahasidha indiano do século IV, filósofo e cientista interno, disse em seu comentário das quatrocentas estrofes de Aryadeva:

 “Que as coisas existam por si mesmas significa que as coisas não são dependentes de outros fatores para sua existência. Mas porque as coisas realmente dependem de outros fatores, não pode haver existência por si mesma”.

 Robert Oppenheimer, o físico que desenvolveu a bomba de hidrogênio para os americanos durante a Segunda Guerra Mundial, afirmou:

“Se perguntarmos, por exemplo, se a posição do elétron permanece a mesma, de vemos responder que não; se perguntarmos se a posição do elétron muda com o tempo, devemos responder que não; se perguntarmos se ele está em movimento, devemos responder que não”.

Buda deu as mesmas respostas quando interrogado sobre as condições do ‘eu’ do homem após a morte. Mas essas não são respostas familiares à tradição científica do século XVII ou XVIII”.

 Thomas Stapp disse em seu relatório para a comissão de energia atômica dos Estados Unidos:

 “Com certeza não existe um mundo físico substancial”

 Heisenberg comentou a descoberta da mecânica quântica com as seguintes palavras:

 Foi como se nos tirassem o chão. Não havia mais nenhuma fundação firme sobre a qual se pudesse construir algo”.

 Niels Bohr, o pai da mecânica quântica ganhador do Prêmio Nobel, afirmou:

 “A mecânica quântica impõe a necessidade de uma renúncia definitiva às idéias clássicas de causalidade, assim como uma revisão radical de nossa atitude em relação ao problema da realidade física”.

 A INTERDEPENDÊNCIA

 Na ciência interna budista, temos a imagem de uma rede feita de jóias cobrindo o telhado do palácio de Indra, na qual cada jóia reflete a rede e o palácio inteiros. Lama Tsong Khapa, um famoso budista tibetano, cientista interno e filósofo do século XIV, fundador da escola Guelupa, afirmou:

 “A Rainha das Razões, a Interdependência dos Fenômenos, mostra que “todas as coisas carecem de existência por si mesmas, pois são fenômenos dependentemente relacionados”.

 E em seu texto Os Três Principais Aspectos do Caminho, ele diz:

 “Quem enxergar a relação causa-efeito completamente não ilusória de todos os fenômenos do samsara e do Nirvana e destruir todas as percepções dualistas enganosas entrará no caminho que satisfaz os conquistadores”.

Pantchen Tchoekyi Gyaltsen, um famoso budista tibetano do século XVI, cientista interno e detentor da linhagem de Lama Tsong Khapa, afirmou em seu texto Lama Tchoepa:

 “Não há contradição, mas sim harmonia, entre a ausência de um único átomo existente por si mesmo no samsara e no Nirvana e a relação dependente não ilusória entre causa e efeito”.

 Niels Bohr, o físico dinamarquês do século XIX ganhador do Prêmio Nobel, afirmou:

 “As partículas materiais isoladas são abstrações, sendo suas propriedades definíveis e observáveis apenas por meio da interação com outros sistemas”.

 Thomas Stapp, um famoso físico americano do século XX, afirmou em um relatório patrocinado pela Comissão Norte-­Americana de Energia Atômica:

 “O mundo físico não é uma estrutura construída a partir de entidades não analisáveis existentes independentes umas das outras, mas sim uma rede ele relações entre elementos cujos significados surgem totalmente a partir de suas relações com o todo”.

e

“Uma partícula elementar não é uma entidade não-analisável que existe independente de outras, mas sim um conjunto de relações que se estendem a outras coisas”.

 

 A RELAÇÃO ENTRE O MACROCOSMO E O MICROCOSMO

 O Tantra de Kalachakra:

 “Assim como é no mundo externo, também é no mundo interno”.

 Segundo Bohm, um famoso físico do século XX:

 “As partes são vistas como estando em conexão imediata, na qual suas relações dinâmicas dependem irredutivelmente do estado do sistema como um todo e do todo do universo. Somos, portanto, levados à nova noção de uma totalidade sem quebras, que nega a ideia clássica da possibilidade de se analisar o mundo em partes separadas e existentes independentemente umas das outras”.

 A MENTE ESTÁ CRIANDO A REALIDADE MATERIAL

 Uma das conclusões da física quântica é a de que os fenômenos são trazidos à existência pelo nosso ato mental que os rotula ou os nomeia, por exemplo, “gato vivo ou gato morto”. Segundo essa teoria, talvez os fenômenos não existam senão como qualificações mentais. Isso é o mesmo que os sábios budistas vêm dizendo há séculos. Estas são as palavras de Saraha, um mahasiddha indiano do século X:

 “Apenas a mente é a semente de todas as realidades, de onde se originamso samsara e o Nirvana”.

 Segundo James Jeans, um grande físico americano do século XX:

 “O curso do conhecimento está se movendo em direção a uma realidade não mecânica. O universo começa a se parecer mais como um grande pensamento do que com uma grande máquina”.

 Fritzof Capra, um físico americano do século XX, afirmou:

 “A abordagem ‘bootstrap’ abre a possibilidade inédita de sermos forçados a incluir explicitamente o estudo da consciência humana nas futuras teorias da matéria”.

 E Evan Walker, um físico americano do século XX, disse:

“A consciência pode ser associada a todos os processos da mecânica quântica”.

 Wolfgang Pauli, um físico ganhador do Prêmio Nobel:

 “A partir de um centro interno, a psique parece mover-se para fora no sentido de uma extroversão para o mundo físico”.

 Eugene Wigner, um físico americano do século XX:

 “Não foi possível formular as leis da mecânica quântica de uma forma completamente consistente sem referir-se à consciência”.

 NGELSO – AUTOCURA III – T.Y.S. LamaGangchen Tulku Rimpoche

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