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Não esticar nem afrouxar por demais a corda
Texto de Pema Chödrön
Para Despertar a Bondade Amorosa
Publicação resumida do livro " Wisdom of No Escape"
Traduzido por Tenzin Namdrol


10. "Não esticar nem afrouxar por demais a corda"

O tema de hoje é como encontrar equilíbrio na vida, já que ouvimos os ensinamentos, praticamos e ainda não sabemos o que será o Caminho do Meio.

O meu caminho do meio e o seu caminho do meio não são os mesmos caminhos do meio. Por exemplo, sou ao mesmo tempo retraída e descontraída. O que seria uma prática rigorosa para certas pessoas não é para mim porque pratico com suavidade. Assim, a prática rigorosa me convém e me ajuda a encontrar o caminho do meio, enquanto que uma prática suave não me permite identificar os meus pontos de desequilíbrio. Para os praticantes que tendem para o excesso de rigor e precisão, a prática deverá ser imbuída de suavidade e tranqüilidade. Somos todos diferentes, nossos caminhos do meio são diferentes e cada um precisa, por si mesmo, determinar seu ponto de equilíbrio e o que fazer para "não esticar nem afrouxar por demais a corda". Em um poema no livro "Primeiro Pensamento, Melhor Pensamento" Trungpa Rinpoche diz: "O budismo não pretende estabelecer o que é falso ou verdadeiro, apenas incita cada um a partir na própria busca." Não esticar nem afrouxar por demais a corda é uma proposta pessoal para aprendermos a encontrar o ponto de equilíbrio: relaxar quando constatamos que estamos tensos; buscar requinte e elegância quando observamos muita informalidade.

É comum tomarmos posições extremas, e menos comum encontrarmos o caminho do meio. Por exemplo, começamos um retiro pensando: "Farei as práticas com perfeição", e nos sentamos com as costas retas, andamos e respiramos corretamente, mantermos o silêncio e em geral respeitamos a rotina. Temos um objetivo e fazemos um grande esforço. Em dado momento, porém, ocorre-nos: "O que é que eu que vim fazer aqui?" e então passamos para o outro extremo: "Não quero mais saber disto." O lado cômico, bonito e divertido da prática é a constatação de que nem um extremo nem o outro são contraditórios mas que, em dado momento agimos como um sargento em parada e noutro somos como purê de batata... No fundo, acometidos por uma curiosidade lúdica observamos que os sentimentos são meros informes, dados de que necessitamos na busca do equilíbrio.

Podemos estar meditando, e de repente ver-nos como um tirano inclemente e pensar: "Ridículo," lembramo-nos então das instruções que recebemos sobre a leveza e suavidade da prática e percebendo o lado cômico do rigor procuramos a suavidade. Ou examinando distraidamente as unhas, coçando as orelhas, mexendo os dedos dos pés e imaginamos Lan, Chico ou Ziraldo fazendo a nossa caricatura... surge a idéia: "Que tal se caprichasse agora?" Poder levar em conta o aspecto cômico é muito mais eficaz do que impor rigidez.

Trungpa Rinpoche, em um dos primeiros seminários, nos transmitiu ensinamentos preciosos e brilhantes. Tínhamos recebido instruções sobre a prática de shamatha (concentração), mas os que receberam então — as nove formas distintas de repousar a mente — introduziam lógica e muita clareza nos procedimentos. Trata-se de encontrar o ponto de equilíbrio pessoal, nem demasiado tenso nem demasiado frouxo.

Não considere os pontos na sua linearidade ainda que o último possa ter a qualidade de fruição mais elevada que os demais. Não são passos a seguir, apenas diferentes sugestões, nove dicas sobre como repousar a mente no seu estado natural — como impedir que a mente oscile de um extremo ao outro. Pode-se dizer que são instruções sobre a melhor forma de identificar o estado natural. O que é equilíbrio? O que é sentido de equanimidade? Queremos saber. A dica principal é saber o que seja manter a corda tensa ou frouxa para cada um e identificar este ponto. Não fique no meio, explore a corda, quando ela está tensa ou frouxa e então encontrará o seu próprio caminho do meio.

Estas nove dicas têm nomes similares e divertidos. A primeira chama-se "repouso", a segunda "continuação do repouso", a terceira "repouso ingênuo",ao quarta "repouso total", e assim por diante.

A primeira dica chama-se "repouso da mente". Já fomos instruídos de nos unirmos à respiração tornando-nos apenas um. Apesar das cores e sons e de outras pessoas, apesar de nossas orelhas, nariz, boca e sentidos tácteis, a verdade é que quando nos sentamos para meditar, de alguma forma a consciência se limita à expiração. Limitar pode não ser a palavra certa, mas colocamos a maior parte da atenção na expiração. Tendemos a simplificar colocando quase toda a concentração apenas na respiração. A instrução não é "apaga todo o resto", porque ainda mantemos 25% de consciência disponíveis. É importante, no começo de todas as sessões, recordar o que estamos fazendo: reduzindo e simplificando para, várias vezes durante a sessão, manter-nos bem enfocados, colocando a maior parte da atenção na respiração. Podemos até nos atrapalhar e então paramos, repousamos e começamos outra vez. Comece sempre com a noção de que a tônica se mantém na respiração.

Na segunda dica, "continuação do repouso", entregamo-nos por completo à respiração. Pode parecer algo que se faz de uma vez por todas para que tudo se torne mais suave. Acontece, também, espontaneamente e, então, prolongamos a sensação de sentir plenamente o movimento da expiração. Permanecendo em repouso treinamos em não nos distrair seguidamente e permanecer enfocados no movimento da respiração. Assim, a recomendação é fazer o que se pode e, a seguir, surge uma atitude ou uma vivência e não nos deixamos atrair pelos pequenos sons nem por oscilações da mente. Prolongamos a sensação de estarmos sentados meditando, plenamente atentos e apenas respirando.

A terceira é "repousar com ingenuidade", também chamada, "literalmente em repouso". No tocante à prática, a atitude é de total ingenuidade e simplicidade. Trata-se de não conceitualizar ou intelectualizar as instruções de shamatha/vipassana. Quando a mente vaga, sem julgamento, volte para a respiração. Não costumamos voltar com naturalidade, ou nem nos damos conta de que estamos pensando e voltamos à respiração, ou somos muito marciais e críticos. Nesta dica, "repousar com ingenuidade", a sugestão é simplesmente voltar para a respiração. Trungpa Rinpoche diz que é como dar de comer a um bebê que se distrai no momento em que vamos dar a papinha, sua atenção se volta para qualquer outro ponto que não seja a colher. Então dizemos: "olha o passarinho!" Ele então presta atenção à colher e come. O bebê não diz, "bebê é mau, está pensando..." pensa apenas "papinha" e volta a prestar atenção na colher.

A quarta dica é "repouso total", acalmar-nos, apaziguando a mente. Constatando a ausência do "filminho", observamos o mais diminuto lampejo de pensamento, como uma pulga pousando no nosso nariz ou mesmo, mais irritante, como um elefante sentando no nosso colo. Praticando, saberemos quando o nosso estado mental permite esta prática ou mesmo quando acontece espontaneamente.

A quinta dica é chamada, "domar a mente" e tem a ver com amabilidade e simpatia. Quando os lampejos de pensamentos são como pulgas que nos saltam ao nariz, observamos que também podem ser como ondas que nos libertam. Quando acontece pela primeira vez pensamos: "maravilha! Tanto espaço sempre esteve disponível, mas só agora me dou conta". Ou é o elefante que vem sentar ao nosso colo: um enredo pornográfico ou uma guerra íntima em colorido, três dimensões e som estéreo. A meditação não escolhe a pulga ou o elefante, mas nos permite observar o que é, aceitar e continuar. Quanto à técnica é apenas voltar à simplicidade do instante, à simplicidade da expiração. Quer vocês estejam mobilizados com pensamentos discursivos durante toda a sessão ou diante de um espaço infinito, observem um ou outro com suavidade, conscientes de estarem despertos, vivos e atentos à pessoa que são, já que, de uma forma ou de outra é o que precisamos respeitar. Assim, "domar a mente" ensina que meditar é não agredir o que quer que se passe em nossa cabeça. "Domar a mente" ensina que não podemos nos considerar um obstáculo à nossa meditação porque, na verdade, é bem o contrário.

A dica número seis é, "pacificação", como lidar com a negatividade. Domando a mente, constatamos que a meditação é o cultivo da não agressão e de uma relação excelente com nós mesmos. A "pacificação" reconhece que, quando verdadeiramente nos dedicamos à prática por inteiro e num empenho apaixonado, acontece o inesperado: ficamos fartos, desanimados e pensamos, "vou deixar isto de lado, pegar minha mochila e sair por aí, ou embarcar num veleiro para um lugar qualquer". É o momento de passar a fazer pausas freqüentes com uma alimentação variada. Estas dicas continuam atuais para muitos praticantes há mais de 2000 anos. Elas nos informam: reparem como o desânimo sempre vem depois de uma boa prática e que acontece aos que são muito dedicados afetando os que já começaram a jornada, portanto, não se preocupem. Quando acontece, divirtam-se pensando: "pronto, olha ele aí outra vez!" É o momento de relembrar como a vida humana é preciosa e a sua duração incerta, de nos conscientizarmos da preciosa oportunidade que temos de travar uma profunda amizade com nós mesmos. Você também pode sentar em silêncio e simplesmente considerar quem você é e de uma forma muito suave e precisa, permanecer ao seu lado, aprendendo como aceitar plenamente como você está, renunciando à tendência de se fixar em qualquer coisa ou idéia ou permanecer enraizado numa só posição. Pacificar quer dizer ser sensível à condição humana e apreciar a raridade e a preciosidade de poder praticar travando amizade com nós mesmos e que, em momentos de caos, de crises e de sofrimento como agora vemos por todas as partes do mundo, somos muito solicitados. Os que se dispõem a acordar travando amizade com eles mesmos são um precioso patrimônio da humanidade, dada a sua facilidade de aceitação e grande capacidade de escuta. Esta forma de se motivar é chamada "pacificar".

A dica número sete, "total pacificação", trata de como lidar com os obstáculos e antídotos. Trata de paixão, agressão e ignorância, considerados obstáculos para a prática. Por exemplo, se, durante a prática, sentimos que somos o foco de nossa própria agressão, desenvolvemos o sentido de recomeço para depois observar a qualidade suave de brisa refrescante que é a nossa respiração. Com a técnica da meditação, a postura, a rotulagem e as demais ferramentas, se nos sentirmos nas garras da agressão e não vencermos os ressentimentos, a amargura e a ira será preciso enfocar a qualidade suave de brisa refrescante da expiração que nos transporta para os grandes espaços ventilados da mente.

Se os sentimentos de paixão ou luxúria se apoderaram de nós — tornando impossível parar de pensar em determinado objeto ou pessoa — voltamos a atenção para o corpo, enfatizando a postura. A postura adequada é o antídoto para quem se sente completamente enredado na dor da luxúria ou da paixão. Instale-se bem no seu próprio corpo, concentre-se nele colocando a atenção nas mãos sobre as coxas e nas nádegas sobre a almofada. Pode-se mesmo fazer uma "varredura" do corpo colocando a atenção progressivamente da cabeça aos pés. Entre e assuma o seu corpo completamente para lhe dar terra.

O antídoto para a ignorância ou o torpor é conectar-se com a vastidão do espaço, o oposto do antídoto para a paixão, o que nos conecta às sensações do corpo. Se a ignorância e o torpor são um problema, sentimos a expiração dissolver-se no espaço; sentimos o corpo meditando nesta sala e o espaço que o rodeia e ainda o espaço exterior da rua, da cidade, do estado, muito, muito espaço! Conectamo-nos com a vastidão do espaço para despertar, vivificamos tudo à nossa volta. Abrimos os olhos sem focar no que o rodeia.

A dica número oito, "enfoque num ponto só" tem dois elementos, o primeiro, enfatiza a noção de recomeço. Se a mente está enredada em emoções e pensamentos que nos levam à loucura, fazemos uma pausa e interrompemos a meditação. Não nos debatemos e suspendemos por um tempo a prática, mas mantemos a postura para não relaxar demais, repousamos a mente, pensando em qualquer coisa ou olhando para fora. Relaxamos, e depois começamos outra vez. O segundo é a realização de que não somos vítimas nem pacientes a serem curados por um médico. Somos caras legais, lúcidos e saudáveis, capazes de encontrar o nosso ponto individual de equilíbrio. Esta sensação de recomeço aplica-se não só à meditação sentada, mas a tudo o que empreendemos. A dica sobre o "enfoque num ponto só", nos leva a estar plenamente presentes. Ao sentir torpor, voltamos para a respiração, despertamos e começamos outra vez. Há muitas maneiras de fazer o que pretendemos e de chegar a ser quem queremos ser. Não sejamos vítimas de nossa própria mente.

A última das nove dicas chama-se "repousar por igual", mas também "absorção". Contudo, Rinpoche esclarece que não é o tipo de absorção que apaga tudo. "Repousar por igual" enfatiza o aspecto fundamental da meditação que é o de travar perfeita amizade consigo mesmo, aberta e sinceramente. Há um versículo que acompanha esta dica e que diz: "como o cisne vaga no lago espelhado e o abutre procura a carniça no capim, deixe a sua mente repousar no seu estado natural...".