Escolha
 
logo FALE CONOSCO
shunya meditação mestres textos zen dzogchen links

O esforço para viver experiências de iluminação
Texto de Charlotte Joko Beck,
extraído do livro"Sempre Zen"

Uma de minhas citações favoritas do Shõyõ Rõku diz o seguinte: "Da árvore fenecida brota uma flor". Depois de cessadas toda necessidade e toda compreensão humanas, há a compaixão e a sabedoria. Esse é o estado de Buda. Pessoalmente, duvido que já tenha existido uma pessoa que tenha realizado por completo esse estado. Ou talvez tenham existido uns poucos na história de toda a humanidade. Entretanto, confundimos as pessoas que têm grande poder e discernimento com a realidade de um Buda inteiramente iluminado. Portanto, vejamos o que poderia ser o processo de tornar-se Buda, acompanhando-o em retrospectiva.

Para essa criatura completamente iluminada (talvez um ser hipotético), não existiriam limites. Não haveria no universo nada que ela não pudesse pronunciar sem aquele qualificativo Namu Dai Bosa, "Unido com o Grande Ser Iluminado". Você e eu não podemos dizer de verdade que isso se aplica a tudo. O máximo que podemos fazer é ampliar nossa capacidade para fazê-lo. Um Buda seria, no entanto, aquele ser capaz de dizer daquele modo, que poderia unir-se sem limites nem obstáculos a tudo que existe no universo.

Bem, antes dessa total iluminação, existe um estado de completa integração pessoal. Claro que para essa pessoa há ainda confinamentos e limitações, e, desta forma, existe algum ponto em que a integração deixa de ser plena. Apesar desse hiato, isso é o que se poderia chamar de integração mente/corpo, estado raro e maravilhoso. A maioria das pessoas encontra-se em um dos estágios que levam a esse estado, o que significa que não pode possuir integralmente nem o próprio corpo. Qualquer tensão corporal significa que não podemos possuí-lo por completo. Não diremos que somos um corpo, e, sim, que temos um corpo. Aquém deste, existe um estado em que estamos completamente desprovidos de corpo, pensando que somos apenas uma mente. Antes dele, há um outro estado em que não conseguimos ser donos de nossa mente, pois dividimos e afastamos parte dela também.

Dependendo de qual seja nosso condicionamento neste preciso momento, só podemos enxergar até ai e só podemos abarcar essa extensão de conhecimentos. O último estado que citei é tão restrito, tão limitado, que qualquer avanço além do perímetro conhecido é causa de temor. Se um elemento for introduzido cedo demais, seu efeito será devastador. Aí podemos encontrar muitos dos efeitos estranhos e perniciosos inerentes à prática. Para essa pessoa confinada, o universo parece um pinguinho de luz. Se introduzirmos uma luz tão brilhante como o sol nesse espaço, a pessoa pode enlouquecer e, às vezes, isso de fato acontece.

Participei de sesshins em que havia gritarias, berreiros, empurrões: você tem de conseguir! Você tem de morrer! As mulheres e os homens chorando a noite inteira, e, para os poucos que já conseguem suportar essa pressão, tudo corre bem. Aqueles que não estão prontos, e que são boas moças e bons rapazes, irão se concentrar e atravessar essa fase, superando todos aqueles estágios iniciais do desenvolvimento e chegando ao ponto em que, por um momento, vêem. Eles têm uma "abertura". É bom? Não necessariamente. Para os que estão prontos, essa experiência é a coisa mais maravilhosa do mundo. Sentem-na antes de a terem e estão preparados para sua vinda. Mas para quem não está preparado, pode ser prejudicial, deixando de produzir bons resultados e, aliás, causando o oposto, verdadeiros malefícios.

O mestre pode estreitar de propósito e concentrar a visão do aprendiz, instruindo-o a trabalhar num koan como MU1. Porém, a pessoa que não estiver preparada em nível emocional para essa tarefa pode, talvez, praticar de outro jeito, melhor para ela. Deve-se interferir com uma grande cautela. Uma experiência prematura de iluminação não é necessariamente boa. Ter essa vivência é perceber que somos nada (não-eu) e não há nada no universo exceto mudança. Deparamos com esse imenso poder fundamental que somos nós. Dar-se conta disto, quando o momento está pronto, é uma experiência libertadora. Entretanto, para quem não estiver preparado, é a aniquilação. E, mesmo para quem está pronto para viver esse instante, talvez seja preciso despender muitos anos praticando, com os níveis já superados de maturação, limpando-os e aperfeiçoando-os.

Alguns mestres tiveram experiências enormes com os estados avançados, mas não com os iniciais. Com certeza, eles vêem; no entanto, essa visão em si, quando não está muito bem integrada, pode criar equívocos, e não a harmonia e a paz.

Talvez acreditemos que uma experiência de iluminação seja como ganhar uma fatia de bolo de aniversário. "Formidável! Quero isso!" Contudo, houve alguém que mencionou essa experiência, comparando-a a uma jóia maravilhosa. A menos que a estrutura esteja firme o bastante para sustentá-la, tudo pode se despedaçar. Não é sensato simplesmente pegar qualquer um que se veja na rua e forçá-lo. Alguns mestres não entendem isso: trabalham de modo intuitivo e sem compreensão suficiente das diferenças entre as pessoas. Há muitos anos perguntei a uma grande pianista: "Como posso melhorar minha execução desse trecho? Estou tendo dificuldade em tocá-lo?". Ela respondeu: "Ora, é fácil. Só faça assim". Para ela, era simples e fácil, mas, para mim, não adiantou nada, a dificuldade continuava existindo.

O que estou pedindo a vocês é que sejam pacientes. Encontro pessoas que vêm praticando o sentar há muito tempo, dotadas de um certo poder e discernimento, porém bastante confusas porque sua evolução não vem sendo equilibrada. Esse equilíbrio não é fácil de pôr em prática. Quando praticamos o sentar, começamos a saber quanto somos complicados. Talvez existam em nossos eus complicados vários pequenos turbilhões que peçam a interferência de especialistas em outros campos, para ajudar-nos. O zen não toma conta de tudo. Quando o nível de intensidade da prática se eleva cedo demais, há o perigo de desequilibrar a pessoa, e precisamos ir mais devagar. Não deveríamos ver muito antes da hora.

Por que então falar sobre iluminação? Quando a pessoa está pronta, quando essa ânsia de conhecer é forte, é evidente para o mestre e para o aluno o que fazer em seguida? Precisamos trabalhar pacientemente nossas vidas, nossos desejos por sensações, segurança e poder — e ninguém aqui está livre disso, nem mesmo eu. Dessa maneira, peço-lhes que reexaminem alguns de seus pensamentos a respeito do querer conseguir a iluminação e encarem as incumbências que devem ser feitas com perseverança e inteligência. Mediante uma prática paciente, nossa vida

pode crescer de modo constante em termos de poder e também em integração, então o poder será usado para o bem de todos.

Toda vez que voltamos nossa mente para o presente, o poder se desenvolve. Toda vez que efetivamente tomamos consciência de nosso devaneio mental, o poder se desenvolve aos poucos, bem devagar. Segue-se uma genuína tranqüilização e um autêntico aclaramento da mente e do corpo. É óbvio: podemos reconhecer essas pessoas apenas olhando-as.

Durante esta vida, se praticamos bem, existe a certeza de nos adiantarmos no caminho, talvez até contando com experiências de iluminação para mostrar por onde ir. Muito bem. Mas não subestimemos o trabalho constante que temos de fazer em relação a todas as ilusões que o tempo todo interrompem nossa jornada. Consideremos a série de imagens com o boi2, por exemplo: as pessoas querem logo saltar da primeira para a última. Contudo, podemos estar na nona e escorregar de volta para a segunda. Os progressos não são sempre permanentes e sólidos. Poderíamos estar no décimo desenho há algumas horas e depois, no dia seguinte, voltamos ao segundo outra vez. Nos retiros, nossas mentes ficam claras e silenciosas, porém, basta que alguém se aproxime e nos critique!...

"Numa árvore fenecida, brota uma flor." Ou, na Bíblia: "A menos que morras, não nascerás de novo". É, claro, nossa prática é morrer devagar, passo a passo, desidentificando-nos de forma gradual de tudo o que nos estiver contendo. Se estivermos apegados a algum lugar, ainda não morremos. Por exemplo, podemos nos identificar com nossa família. Desidentificarmo-nos de nossa família não significa não amá-la. Ou desconsiderar seu marido, o namorado, a amiga, essa necessidade. Quanto mais praticamos, menor se torna essa necessidade. O amor torna-se maior e a necessidade, menor. Não podemos amar algo de que precisamos. Se necessitamos de aprovação, ainda não morremos. Se necessitamos de poder, se precisamos ter uma certa posição, se não nos for tranqüilo executar os serviços mais triviais, então não morremos. Se necessitamos ser vistos de uma determinada maneira, ainda não morremos. Se queremos as coisas ao nosso modo, não morremos. Eu não morri em nenhum desses sentidos. Simplesmente estou consciente dos meus apegos e não mais atuo a partir deles o tempo todo. Porém, ter morrido significa que esses apegos não estão mais aí. Nesse sentido, um ser realmente iluminado não é humano, e não conheço ninguém assim. Já estive na companhia de pessoas notáveis, durante muito tempo, e ainda não encontrei ninguém desse jeito. Portanto, contentemo-nos com o ponto em que estamos e com um trabalho dedicado. Para nós, sermos como somos, neste ponto do tempo, é perfeito.

À medida que nos identificamos cada vez menos com elementos externos, podemos incluir cada vez mais coisas em nossa vida. Este é o voto do bodhisattva.1Por conseguinte, na proporção em que nossa prática amadurece, podemos fazer mais, podemos incluir mais, podemos servir mais, é isso que constitui realmente a prática zen. Sentar dessa maneira é o caminho. Portanto, pratiquemos com tudo que temos. O máximo que posso ser é a pessoa que sou neste exato momento; posso vivenciar isso e trabalhar com isso. É tudo que posso fazer. O resto é sonho do ego.


Notas:

1. Mu: koan que costuma ser atribuído aos principiantes como estratégia de concentração de seu foco mental. Seu significado literal - "não", ou "nada", não capta por inteiro sua significação para a prática zen.

2. A série de figuras do boi é uma seqüência tradicional de desenhos mostrando a evolução da prática, da ilusão até a iluminação, através da imagem de um homem que domestica o touro selvagem.

3.Bodhisattva é um ser iluminado que acatando seu próprio e total estado de Buda, se dedica a auxiliar as outras pessoas a atingirem a libertação. Em seu autocontrole, sabedoria e compaixão, representa um elevado estágio do estado de Buda, mas ainda não está supremamente iluminado, um Buda totalmente perfeito.