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A recompensa da prática
Texto de Charlotte Joko Beck,
extraído do livro"Sempre Zen"

Estamos sempre tentando levar nossa vida da infelicidade para a felicidade. Ou, poderíamos dizer, desejamos nos mudar de uma vida de lutas para uma de alegria. Mas essas coisas não são as mesmas: sair da infelicidade para a felicidade não é o mesmo que sair da luta para a alegria. Algumas terapias buscam levar-nos de um eu infeliz para um eu feliz. A prática zen, porém, (e, talvez, algumas outras disciplinas e terapias) pode ajudar-nos a sair do eu infeliz para o não-eu, que é a alegria.

Ter um eu significa que somos autocentrados. Ser autocentrado — e, portanto, em oposição a coisas externas — é ser ansioso e ficar preocupado consigo mesmo, é reagir de imediato com aspereza, quando o meio externo se nos opõe. Ficamos aborrecidos facilmente. Sendo autocentrados, ficamos muitas vezes confusos. É assim que a maioria das pessoas vivência a própria vida.

Embora não estejamos familiarizados com o lado oposto ao eu (não-eu), tentemos pensar que espécie de vida poderia ser a do não-eu. Não-eu não significa desaparecer do planeta ou deixar de existir. Não é nem estar autocentrado, tampouco centrado no outro; apenas, é estar centrado. A vida do não-eu não está centrada em coisa alguma em particular, mas em todas as coisas; ou seja, está desapegada e, por isso, as características de um eu não podem aparecer. Não somos ansiosos, ou preocupados, não nos irritamos com facilidade, não nos aborrecemos a todo instante, e, principalmente, nossa vida não tem o sabor característico da confusão. Por isso, ser o não-eu é alegria. Não apenas isso. O não-eu, por não se opor a nada, é benéfico a tudo.

Para a absoluta maioria, porém, a prática precisa acontecer dentro de uma estratégia organizada, numa dissolução implacável do eu. O primeiro passo que devemos dar é nos mudar da infelicidade para a felicidade. Por quê? Porque não há de modo algum meio pelo qual a pessoa infeliz — perturbada consigo ou com os outros, ou com as situações — possa ser a vida do não-eu. Assim, o primeiro estágio da prática deveria ser o nosso deslocamento da infelicidade para a felicidade, e os primeiros anos de zazen são principalmente dedicados a esse movimento. Para algumas pessoas, uma terapia inteligente pode ser proveitosa nessa etapa. Entretanto, as pessoas são muito diferentes entre si e não podemos generalizar. No entanto, não podemos (ou não devemos) tentar saltar este primeiro movimento de uma relativa infelicidade para uma relativa felicidade.

Por que digo "relativa" felicidade? Independente do quanto podemos sentir que nossa vida é "feliz", se ela estiver baseada num eu, não podemos ter uma resolução flnal. Por que não pode haver uma resolução final para uma vida que se baseia num eu? Porque tal vida está fundamentada numa premissa falsa, a de que somos um eu. Sem exceção, todos nós acreditamos nisso. Toda prática que interrompa a adaptação provisória do eu é, em última análise, insatisfatória.

Compreender a própria natureza como não-eu — um Buda — é fruto do zazen e do caminho da prática. A coisa importante (já que essa é a única realmente satisfatória) é seguir esse caminho. Enquanto nos debatemos com a questão de nossa verdadeira natureza — eu ou não-eu —a base toda de nossa vida precisa mudar. Para travar de modo adequado essa batalha, todo sentimento, todo propósito, toda orientação da vida devem ser transformados. Quais poderiam ser os passos dessa prática?

O primeiro, como já mencionei, é a saída da relativa infelicidade para a relativa felicidade. Na melhor das hipóteses, é um feito instável, que facilmente se perde. Mas devemos ter um certo nível de felicidade relativa e de estabilidade para nos envolvermos com uma prática séria. Então, podemos estar em condições de tentar o estágio seguinte: filtrar com inteligência e persistência as várias características da mente e do corpo através do zazen. Começamos a notar nossos padrões; começamos a observar nossos desejos; nossas necessidades; nossos impulsos egóicos; e começamos a perceber que esses padrões, esses desejos, esses vícios são o que chamamos de eu. Conforme nossa prática continua, começamos a entender o vazio e a impermanência desses padrões e acreditamos que podemos abandoná-los. Não precisamos tentar abandoná-los; eles apenas se dissolvem lentamente com o tempo, pois, quando a luz da conscientização incide no que quer que seja, diminui o falso e aumenta o verdadeiro; e nada incandesce mais essa luz do que um zazen inteligente, realizado todos os dias e nos sesshins. Com o desaparecimento de alguns desses padrões, o não-eu — que está sempre presente — pode começar a manifestar-se e com ele aumentam a paz e a alegria ao mesmo tempo.

Esse processo, embora fácil de ser mencionado, é às vezes assustador, desanimador, desencorajador; tudo aquilo que pensávamos era nós mesmos durante tantos anos, e está sob ataques. Podemos sentir um medo imenso, enquanto essa transição está acontecendo. Pode parecer encantadora enquanto falamos sobre ela, mas, ao pô-la em prática pode ser horrível.

No entanto, para quem tiver paciência e determinação em sua prática, a alegria aumenta; a paz aumenta; aumenta a capacidade de viver de modo benéfico e compadecido. E a vida, que talvez sofra com os caprichos das circunstâncias externas, sutilmente se altera. Essa vida que se transforma devagar não é, contudo; isenta de problemas. Eles estarão presentes. Durante um certo período nossa vida pode ficar pior do que antes, à medida que pomos a nu o que antes mantivera-se encoberto. Mas, mesmo quando isso acontece, temos uma sensação de crescente saúde interior e compreensão, uma sensação de satisfação básica.

Para manter a prática através de dificuldades graves, devemos ter paciência, persistência e coragem. Por quê? Por causa de nosso costumeiro modo de viver em busca de felicidade, esforçando-nos para satisfazer desejos, e lutando para evitar dores mentais e físicas; a prática determinada é sempre solapada. Aprendemos na boca do estômago e não só com nosso cérebro que uma vida de alegria não está na busca da felicidade e, sim, no experimentar e simplesmente ser as circunstâncias de nossa vida, tais como são; não em satisfazer desejos pessoais, mas em satisfazer as necessidades da vida; não em evitar a dor, mas em sê-la quando necessário. É tarefa grande demais? Difícil demais? Pelo contrário, é o caminho mais fácil.

Uma vez que só podemos viver nossa vida através de nossa mente e corpo, não há quem não seja um ser psicológico. Temos pensamentos, esperanças, podemos ser feridos ou ficar aborrecidos. Porém, a solução real deve vir de uma dimensão que seja radicalmente diferente da dimensão psicológica. A prática do desapego, o crescimento do não-eu, é a chave do entendimento. Por fim, compreendemos que não há caminho, não há meio, não há solução; porque, desde o começo, nossa natureza é o caminho, o meio, bem aqui e agora. Porque não há caminho, nossa prática é seguir infindavelmente esse não-caminho, sem se importar com nenhuma recompensa. Porque o não-eu é tudo, não necessita de recompensa; desde o não-início é em si mesmo a realização completa.