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A busca
Texto de Charlotte Joko Beck,
extraído do livro"Sempre Zen"

Todos os momentos de nossa vida são relacionamentos. Não existe coisa alguma que não seja relacionamento. Neste momento, meu relacionamento é com o tapete, com a sala, com meu próprio corpo, com o som de minha voz. Não existe nada, exceto eu estar em relação, a cada segundo. Conforme vamos praticando, o que cresce em nossa vida é: em primeiro lugar, não existe coisa alguma além de estar em relação com aquilo que está acontecendo num dado momento; em segundo, nosso compromisso cada vez maior com essa relação. Bem, isso parece muito simples: o que interfere? O que impede nosso compromisso com um relacionamento humano específico, com o estudar, o trabalhar, o divertir-se? O que existe que bloqueia os relacionamentos?

Uma vez que nem sempre entendemos o que significa estar numa relação com o momento presente, buscamos. Quando atendo telefonemas no Centro pergunto: "Bem, o que você tem em mente?". Pode ser que respondam: "Sou uma pessoa que está buscando". Querem dizer que estão buscando uma vida espiritual. As pessoas novas no Centro me falam: "Estou aqui porque estou buscando". Enquanto orientação inicial para a prática, está muito bem que seja assim: iremos em busca de algo, se sentirmos que falta alguma coisa importante para nossa vida. Em termos tradicionais, estamos em busca de Deus; em termos modernos, diríamos que estamos procurando "meu verdadeiro ser", "minha verdadeira vida", qualquer coisa dessas. Se queremos uma vida saudável, clareza, paz, precisamos entender a que se refere esse buscar.

O que buscamos? Dependendo de nossa vida particular, de nossa história passada e de nosso condicionamento, as buscas que empreendemos na vida serão diferentes umas das outras, mas, no fundo, estaremos todos buscando uma vida ideal. Podemos defini-la como o parceiro ideal, o trabalho ideal, o lugar ideal para viver. Mesmo que os ideais dos outros nos pareçam muito estranhos, as pessoas estão certas do que pensam que têm de encontrar. E estão buscando isso.

Numa prática como a nossa, nossa tendência é a busca do que se chama estado "iluminado". É uma forma sutil de buscar. Mas é preciso saber onde procurar. Se você olhar para o céu de San Diego à noite na esperança de ver o Cruzeiro do Sul, jamais o encontrará. Você precisará ir até a Austrália e lá o verá. Precisamos saber o que significa olhar, procurar. Precisamos transformar nossas idéias a respeito desta busca, e a prática é uma espécie de transformação. A iluminação não é algo que possamos buscar, mas pensamos que devemos ir em busca de alguma coisa. Então, estamos fazendo o quê?

Embora eu esteja no centro de minha vida, estar nesse centro não me interessa. Parece que falta alguma coisa em aí, por isso me interesso em buscar a parte faltante. Distancio-me do centro, como os aros de uma roda. Primeiro numa direção, depois em outra. Tento isto, rejeito aqui-

o. Isto parece favorável; aquilo, não. Estou buscando, buscando, buscando. Talvez esteja em busca do parceiro ideal: "Bem, ele tem determinadas qualidades, mas, sem dúvida, em outras não corresponde". Dependendo do quanto estivermos inquietos, buscamos, buscamos e buscamos.

Pode ser que sintamos nunca estarmos no trabalho certo. Por isso, buscamos e mudamos. Ou melhoramos o emprego que temos ou então pensamos: "Não vou comentar com ninguém, mas não fico aqui muito tempo mais, não!". Em certo sentido, é assim mesmo. Não estou dizendo que se deva permanecer no mesmo serviço para sempre. Não é a ação impaciente que é inválida, porém, o fato de pensarmos que a busca em si é válida.

Se deixarmos de procurar, de buscar, o que nos resta? Resta-nos aquilo que estava no centro da situação, desde o início. Por trás da busca há inquietação, há sofrimento. Há agitação. No minuto em que nos dermos conta disso, enxergaremos que o "x" da questão não é a busca mas, sim, o sofrimento e a agitação que a motivam. Esse é o momento mágico — aquele em que percebemos que buscar fora de nós não é a solução. Primeiro, essa constatação nos vem de muito longe, atinge-nos de leve. Com o tempo vai ficando mais nítida, na medida em que continuamos sofrendo. Vejam, qualquer coisa que busquemos nos desapontará, porque não existem seres perfeitos, empregos perfeitos, lugares perfeitos para se viver. Assim, a busca cessa exatamente naquele determinado lugar que se chama... decepção. Bom lugar esse.

Se tivermos um pouco de cérebro que seja, por fim enxergaremos que "já fiz isso antes". Percebemos então que não se trata de buscar o problema, pois ele está propriamente onde estamos olhando. Desta maneira voltamo-nos com cada vez mais freqüência para o desapontamento, que está sempre no centro. Porém, o que está por trás de toda essa busca é o quê? Medo. Agitação. Sofrimento. Sentir-se infeliz. Estamos com uma dor e usamos a busca para aliviá-la. Começamos a ver que a dor surge porque estamos nos beliscando. Apenas saber disso é um alívio, dá até paz. A própria paz que estamos buscando com tanto ardor está em reconhecer esse simples fato: somos nós que estamos nos beliscando, e ninguém mais.

Daí em diante, a busca começa a ser inteiramente abandonada e, em vez dela, passamos a notar que a prática não é uma busca. A prática é estar com o que motiva a busca, que é a agitação, o sofrimento. Essa é a transformação.

Isso nunca acontece de uma vez por todas. Nosso impulso para ir atrás das coisas é tão poderoso que nos engole. Seja lá o que eu disser, depois que todos sairmos daqui, em cinco minutos no máximo, estaremos todos procurando alguma coisa que nos salve. Como diz o voto: "Os desejos são inextinguíveis". No entanto, vocês não extinguem os desejos com a busca, e, sim, vivenciando aquilo que está por trás deles.

É assim que precisamos começar a entender a necessidade de uma prática. A prática não é algo que fazemos Domo aulas de natação, por exemplo. As pessoas me dizem:

‘Neste semestre não tenho tempo para minha prática, Joko, estou muito ocupado. Quando eu tiver mais tempo, voltarei a praticar". Isso demonstra que não há entendimento do que seja a prática. A prática é estar muito ocupado, acossado; vivencie justamente essa situação.

Existem, então, duas perguntas: a primeira diz respeito a entender de fato a necessidade da prática. Com isso não estou me referindo apenas a sentar zazen. Será que entendo a necessidade de minha vida, como um todo, ser prática? A segunda questão é: será que eu sei o que é a prática? Realmente sei? Conheço pessoas que há vinte anos fazem o que chamam de prática. Teria sido melhor que tivessem ficado praticando suas tacadas de golfe.

Portanto, neste preciso momento, cada um de nós pode olhar para a própria vida. O que buscamos? Se começar-mos a enxergar através dessa busca, conseguiremos perceber para onde devemos olhar? Veremos o que nos é possível fazer? A disponibilidade para a prática surgirá da convicção de que não existe mais nada a ser feito. Essa decisão pode levar vinte e cinco anos para ser tomada. Então existem duas questões: entendo a necessidade da prática? Sei o que é a prática?

ALUNO: Penso que prática seja estar aberto, a todo momento, a todo input sensorial que vem até mim e também a meus pensamentos.

JOKO: Em nível experimental é verdade, embora seja preciso um pouco mais de esclarecimentos. No entanto, em termos de como praticamos, é isso mesmo.

ALUNO: Eu penso que a prática é estar consciente do sofrimento e da agitação que existem dentro de nós, trabalhando com eles em nossos relacionamentos.

JOKO: O que significa "trabalhando com eles"?

ALUNO: Por exemplo, quando estamos de fato com raiva: ser a raiva, vivenciá-la fisicamente, ver os pensamentos que ela origina.

JOKO: Sim, embora às vezes as pessoas me falem que estão fazendo isso, quando é evidente que não estão.

ALUNO: É porque não estamos realmente lá e não nos deixamos sentir e vivenciar de verdade aquele sofrimento em particular, naquele momento específico.

JOKO: Concordo, supondo que agora você está apresentando um workshop introdutório. Se você mencionasse essas duas coisas, as pessoas olhariam para você e diriam: "Hã? Mas do que você está falando?". Ou então: "Bem, estou sendo minha raiva e nada acontece". Não é tão fácil compreender as palavras.

ALUNO: Prática é aprender a estar totalmente com o momento, com aquilo que chamamos "agora". É aprender a ser, a estar, aqui e agora.

JOKO: O problema é que a maioria interpreta "momento", segundo um modo agradável. Parece uma coisa fantástica "aprender a estar com o momento". Porém, se alguém me disser: "O que você falou em sua palestra estava simplesmente horrível, Joko", não quero ficar naquele momento. Ninguém quer experimentar a humilhação.

ALUNO: Parece que, se realmente sou minha raiva, poderia ficar muito zangado e, nessa experiência direta, acabar matando alguém.

JOKO: Não. Se a pessoa vivencia de verdade sua raiva, não faz isso. Se acreditamos em nossos pensamentos irados, poderemos talvez magoar alguém. Mas a experiência pura não tem componente verbal, e, portanto, não há nada a fazer. A raiva pura é muito silenciosa. E com ela você não machucará ninguém.

A prática não significa que, no meio de uma briga com outra pessoa, a gente pára e diz: "Vou vivenciar essa situação". Quanto mais madura nossa prática, mais naturalmente podemos fazer isso, quando a raiva aumenta. Mas as pessoas, quando ficam com raiva, agem de maneira compulsiva, movidas por seus pensamentos e, por isso, muitas vezes precisam voltar mais tarde à própria experiência e ficar consternadas porque não tiveram habilidade suficiente para fazer isso no momento em que se sentiram ameaçadas.

ALUNO: A prática tem algo que ver com atenção. Quando volto inteiramente minha atenção para alguma coisa, digamos uma situação com meu filho, acontece algo dinâmico, mas não originário de minha personalidade ou de boas idéias.

JOKO: Sim, é verdade, mas é porque não existem dualisrnos. Numa experiência completa não existe o eu tendo uma certa experiência, é só a experiência. É quando não há separação, então há poder e também o conhecimento do que fazer. Como você mencionou, acontece algo dinâmico. Porém não é tão freqüente vivenciarmos realmente alguma coisa. Todos conhecemos o palavrório, só que, raras vezes, damos a volta e o evitamos, porque é doloroso.

ALUNO: Parte de minha busca neste momento implica a disponibilidade para permanecer em situações incômodas ou com sensações e sentimentos desagradáveis em meu interior, num esforço de ter mais familiaridade com os pontos cegos que obscurecem o momento.

JOKO: Está certo, desde que isso não seja apenas mais uma idéia.

ALUNO: Geralmente é!

JOKO: Sim, com a maioria acontece isso mesmo, em geral. Depois de algum tempo pode ser que falemos pelos cotovelos, e essa é a razão pela qual os alunos supostamente avançados são sempre os difíceis. Eles pensam que sabem, mas não sabem. Estão só falando.

ALUNO: As palavras que me ocorrem com respeito à prática são "vulnerabilidade" e "viver com". É aquele esforço de funcionar sem a atuação dos mecanismos de autoproteção, ou, pelo menos, estar ciente deles.

JOKO: Correto. Contudo, para a maior parte das pessoas, a autoproteção é automática. É de onde procede a raiva. Qual seria uma outra forma de falar a respeito de vulnerabilidade?

ALUNO: Você não ter fechado a porta para seus sentimentos e suas sensações.

JOKO: Vulnerabilidade significa que não fecho a porta mesmo que eu esteja sendo machucada. A razão pela qual quero deixar a porta aberta é que, se eu sentir dor, posso sair. A questão toda está em que posso sentir dor, mas não vou desistir apenas por esse motivo. Costumo reparar que, quando as pessoas se levantam da mesa, no pátio, elas não empurram a cadeira de volta para o lugar. Não estão comprometidas com ela. Sentem mais ou menos que "essa cadeira não é importante. Preciso ir para o zendo e ouvir coisas sobre a verdade". Porém, a verdade é a cadeira. É onde estamos neste preciso momento. Quando deixamos a porta aberta, ela é aquela parte em nós que não quer estar em relação com coisa alguma, por isso corremos pela porta aberta. Estamos em busca da verdade, em vez de sermos a agitação e o sofrimento da posição que ocupamos a cada momento.