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O relacionamento não é um com o outro
Texto de Charlotte Joko Beck,
extraído do livro"Sempre Zen"

Sentamo-nos em sesshin para sabermos quem somos. Temos mente e corpo, todavia esses elementos não explicam a vida que somos. O personagem de Shakespeare, Polônio, de Hamlet, disse: "Sê fiel a teu verdadeiro ser e segue-o, como a noite ao dia. Assim, não poderás ser falso a homem algum". Queremos conhecer nosso eu verdadeiro. Talvez tenhamos uma imagem de algo chamado "o eu verdadeiro", como se fosse uma entidade propriamente dita, flutuando por aí. Estamos em sesshin para descobrir, para ser nosso eu verdadeiro. Mas, o que afinal é?

Se tivessem de definir "eu verdadeiro", o que diriam? Vamos pensar por um instante. O que estou sugerindo? Algo do tipo "funcionamento do homem e da mulher em que não existe uma motivação centrada em si própria". Não é difícil ver que essa pessoa não seria humana do jeito que entendemos que alguém é humano. De um ponto de vista diferente, ela seria completamente humana, mas não do modo como costumamos pensar a nosso respeito e dos outros. Essa pessoa seria, de fato, ninguém em absoluto.

Ao labutarmos pela vida e percebermos os defeitos de nossas relações com esta ou aquela pessoa, com nosso trabalho ou outra atividade em particular, um de nossos maiores equívocos é a idéia de "estar relacionado com essa pessoa ou situação". Por exemplo, vamos supor que sou casada. O modo comum de pensar em casamento é: "Estou casada com ele". Porém, enquanto disser "com ele", existirão nós dois e, no verdadeiro eu, não pode haver dois. O verdadeiro eu desconhece separações. Pode parecer que eu esteja casada com ele, mas o verdadeiro eu — vamos chamá-lo de o infinito potencial de energia — desconhece separações. O verdadeiro eu configura-se em vários padrões de forma, contudo, essencialmente, permanece um eu só, um potencial só de energia. Quando digo que estou casada com você, ou que tenho um jipe Toyota, ou que tenho quatro filhos, na forma cotidiana de me expressar é assim mesmo. No entanto, precisamos enxergar que na verdade isso não é bem assim. Na verdade, não estou casada com alguém ou com alguma coisa: eu sou aquela pessoa ou aquela coisa. O verdadeiro eu desconhece separações.

Vocês podem dizer que isso é muito bonitinho, mas em termos práticos, o que fazemos a respeito dos difíceis problemas que ocorrem em nossa vida? Todos sabem que o trabalho pode apresentar desafios imensos, assim como filhos, pais, outras relações quaisquer. Imaginemos que estou casada com alguém muito difícil. Suponhamos que os filhos desse casamento estejam sofrendo. Muitas vezes falei que, quando estamos sofrendo, devemos nos tornar esse sofrimento. Essa é a verdadeira maneira de crescermos. Contudo será que isso se aplica a uma situação, quando ela fica tão difícil que todos os que nela estão envolvidos estão perdendo feio? O que fazer? Há inúmeras variações quanto aos problemas de relacionamento. Imaginemos que tenho um parceiro que está profundamente empenhado numa certa área de pesquisas e o único lugar em que seus estudos podem prosseguir é na África, por três ou quatro anos. Porém meu trabalho me obriga a permanecer aqui. E então? O que faço? Ou posso ter pais idosos que precisam de minha assistência e minhas obrigações profissionais, minhas responsabilidades me forçam a ir para outro lugar; o que faço? É de problemas desse tipo que a vida é feita. Nem todos os problemas são tão difíceis quanto esses, todavia, até os menos exigentes podem nos pôr contra a parede.

Em qualquer situação, nossa devoção não deve dirigir-se à outra pessoa em si, mas ao verdadeiro eu. Claro que a outra pessoa encarna o verdadeiro eu, só que há uma distinção. Se estamos num grupo, nossa relação não é com o grupo, é com o verdadeiro eu do grupo. Com essa expressão eu verdadeiro", não estou fazendo menção a algum tipo de fantasma que fica voando pelos cantos. O eu verdadeiro é absolutamente nada e, no entanto, é a única coisa que deve dominar nossa vida. É o único Mestre. Ao fazermos zazen, ou ao sentarmo-nos em sesshin, temos o propósito de entendê-lo melhor. Se não o entendermos, então ficaremos eternamente confusos com os problemas e não saberemos como agir. A única coisa a que devemos servir não é um professor, nem um centro, nem o emprego, nem o companheiro, nem o filho, mas, sim, nosso verdadeiro eu. Então, como é que saberemos fazer isso? Não é fácil e custa tempo e perseverança para aprender.

A prática torna óbvio que, quase em toda nossa vida, não temos muito interesse por nosso verdadeiro eu; estamos, porém, interessados em nosso pequeno eu: interessa-nos o que desejamos, o que pensamos, o que esperamos, o que nos faz sentir bem, o que nos assegura a saúde ou o bem-estar. É nesse sentido que direcionamos nossa energia. Uma prática inteligente vai aos poucos iluminando esse fato. Não é nem bom e nem mau que sejamos assim; é apenas o que é. Quando alcançamos uma iluminação parcial de nossas atividades habitualmente centradas em torno de nós mesmos, tomamos consciência da dor e da agonia que ela produz e, às vezes, conseguimos nos desviar dela. Pode até ser que tenhamos uma pálida noção de uma outra modalidade de ser: o verdadeiro eu.

Em termos de uma situação concreta, qual é o caminho para se servir ao verdadeiro eu? O caminho pode parecer muito áspero, trabalhoso e, às vezes, será o oposto disso. Não existem receitas. Talvez eu desista de meu serviço em Nova York e fique em casa para cuidar de meus pais. Quem sabe, não faça nada disso. Ninguém, a não ser meu eu verdadeiro, pode me dizer o que fazer. Se nossa prática estiver madura a ponto de não mais nos enganarmos tanto, é porque estaremos em contato com nossas experiências autênticas — então cada vez mais saberemos qual é a ação compassiva a ser tomada. Quando formos ninguém, o não-eu, (e isso jamais seremos completamente) a ação correta torna-se óbvia.

Todas as relações podem ensinar-nos alguma coisa e, algumas delas, infelizmente, precisam chegar a um fim. Podem existir momentos em que a melhor maneira de servir ao verdadeiro eu consista em ir em frente. Ninguém pode me dizer o que é melhor; ninguém sabe, exceto meu verdadeiro eu. Não importa o que minha mãe diz a esse respeito ou o que minha tia fala; em certo sentido, não importa nem o que eu digo. Como disse certo professor:

"Sua vida não lhe diz respeito". Mas nossa prática é, sem sombra de dúvida, assunto nosso. Ela serve para aprender o que significa servir aquilo que não podemos ver, tocar, saborear ou cheirar. Em essência, o verdadeiro eu é uma não-coisa e, no entanto, é nosso Mestre. Ao mencionar que é uma não-coisa, não quero dizer nada, no sentido habitual. O Mestre não é uma coisa; porém é a única coisa. Quando somos casados, não somos casados um com o outro, mas com o verdadeiro eu. Quando lecionamos para crianças, não as estamos ensinando; estamos expressando o verdadeiro eu de um modo apropriado à classe.

Bem, tudo isso pode parecer remoto e idealista. Todavia, a cada cinco minutos temos uma oportunidade de trabalhar com isso. Por exemplo: a interação com alguém que nos irrita; o encontro que azeda quando achamos que ele tinha de fazer "outra coisa"; a irritação que sinto quando milha filha fala que vai telefonar e não o faz. O que é o verdadeiro eu em todos esses mínimos incidentes? Normalmente, não podemos vê-lo; só podemos ver como o perdemos de vista. Podemos ter consciência da irritabilidade, do aborrecimento, da impaciência. E esses sentimentos nós podemos rotular. Com paciência podemos fazer isso, podemos experimentar a tensão gerada pelos pensamentos. Em outras palavras, podemos experimentar aquilo que colocamos entre nós mesmos e nosso verdadeiro eu. Quando uma prática assim cuidadosa assume a prioridade de nossa vida,

servimos ao Mestre e, dessa forma, cresce nosso conhecimento do que deve ser feito.

Existe um único Mestre. O Mestre não sou eu, nem mais ninguém, nem Sabba fulano, Guru sicrano, pessoa alguma pode ser Mestre. Qualquer Centro não é nada mais que uma ferramenta para o Mestre. Casamentos, relacionamentos variados, são apenas isso. Contudo, para percebermos esse fato, temos de iluminar nossa atividade não uma, mas dez mil vezes. Temos de colocar uma lanterna incidindo sobre nossos pensamentos indelicados referentes a pessoas e situações. Devemos tomar consciência de como nos sentimos, do que desejamos, do que esperamos, do quão terrível achamos alguém, ou nós próprios — a nuvem em cima de tudo. Somos como uma pequena lula que produz uma inundação de tinta atrás de si para que nossos equívocos não possam ser detectados. Desse modo logo que acordamos de manhã começamos a esguichar a tinta. Qual é nossa tinta? Nossas preocupações com nós mesmos, que ensombrecem a água à nossa volta. Quando nossa vida gira exclusivamente em torno de nós mesmos, criamos confusão. Podemos até insistir que não gostamos de contos de fadas horríveis, mas o fato é que gostamos. Alguma coisa 1 dentro de nós fica fascinada com nosso drama, e se apega a ele, confundindo-nos.

A verdadeira prática nos conduz cada vez mais até aquele espaço simples e isento de drama, no qual as coisas são apenas o que são, no qual elas apenas acontecem. Esse acontecer não pode vir de uma dimensão em que o eixo seja a próprio umbigo. Estar no sesshin aumenta muito nossa possibilidade de passar mais tempo de vida nesse espaço simples. Mas é preciso que tenhamos paciência, persistência e postura. Manter a equanimidade e sentar. O verdadeiro eu é absolutamente nada. É a ausência de qualquer outra coisa. A ausência do quê?