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Aspiração e expectativa
Texto de Charlotte Joko Beck,
extraído do livro"Sempre Zen"

A aspiração é um elemento básico de nossa prática. Podemos dizer que a prática do zen decorre inteiramente de nossa aspiração. Sem ela, nada pode acontecer. Ao mesmo tempo, ouvimos que devemos praticar sem qualquer expectativa. Parece contraditório, porque costumamos confundir aspiração e expectativa.

No contexto da prática, a aspiração é apenas nossa verdadeira natureza, buscando realizar-se e expressar-se. Somos de modo intrínseco Budas, mas nossa natureza Buda está encoberta. A aspiração é a chave para a prática, porque, sem ela, nossa natureza Buda é como um lindo carro: até que alguém entre, sente-se no banco do motorista e dê a partida, é uma coisa inútil. Quando começamos a praticar, nossa aspiração pode ser muito pequena, mas, se mantivermos nosso propósito, ela crescerá. Depois de seis meses de prática, a aspiração da pessoa será muito diferente do que era no início e, depois de dez anos, será diferente do que era aos seis meses. Está sempre mudando sua forma externa sem, no entanto, alterar sua essência. Enquanto vivermos, ela continuará aumentando.

Uma pista segura para distinguirmos se estamos sendo motivados pela aspiração ou pela expectativa é que a aspiração sempre é satisfatória; pode não ser agradável, mas é sempre satisfatória. Por outro lado, a expectativa é sempre insatisfatória, porque vem de nossas pequenas mentes, de nosso ego. Desde o início na infância, procuramos satisfação em nossa vida, buscando coisas externas a nós. Procuramos uma maneira de ocultar o medo básico de que algo esteja faltando em nossa vida. Vamos de uma coisa em outra tentando preencher a lacuna que pensamos existir.

Existem muitas maneiras pelas quais tentamos esconder nossa insatisfação. Uma delas, por exemplo, é lutando para alcançar algo. Em si, alcançar coisas é natural. E importante que aprendamos a conduzir bem nossas vidas. Porém, enquanto procurarmos recompensas no futuro fora de nós, estamos fadados ao desapontamento em nossas expectativas. A vida toma conta disso muito bem; ela tem formas de nos decepcionar de maneira eficiente e regular.

Em geral olhamos para a vida em termos de duas questões: "Será que vou lucrar alguma coisa?" ou "Isso irá me magoar?". Podemos dar a impressão de serenidade, contudo, sob a superfície, essas duas dúvidas fervilham. Chegamos numa prática como a do zen tentando encontrar a paz e a satisfação que até então se esquivaram de nós, e o que fazemos? Adotamos os mesmos hábitos com que vivemos a vida toda e encaixamos a prática dentro desse molde. Instituímos uma meta depois da outra, mantendo o hábito vitalício de correr atrás de alguma coisa:

"Fico pensando em quantos koans conseguirei passar com este sesshin"; "Já estou praticando há mais tempo que aquele ali, mas parece que ele está progredindo mais depressa"; "Meu zazen foi tão fantástico ontem! Quisera poder repeti-lo". De um jeito ou de outro, nossa forma de abordar a prática está fundamentada nos mesmos tipos de esforço, de que despendemos para alcançar algo: obter o reconhecimento dos colegas, ser importante dentro dos círculos zen, encontrar um buraco seguro onde se esconder. Estamos fazendo de novo a mesma coisa que sempre fizemos: estamos na expectativa de que alguma coisa (neste caso, a prática zen) nos dê satisfação e segurança.

Dógen Zenji dizia: "Procurar o dharma Buda fora de sua própria pessoa é como colocar um demônio em cima de você". Mestre Rinzai dizia: "Não coloque cabeça alguma acima da sua". Em outras palavras, é inútil procurar fora de nós pela verdadeira paz e satisfação.

É importante examinarmo-nos continuamente para ver para onde estamos direcionando nossa busca e o que é que estamos buscando. O que você está procurando fora de si? O que você acredita que resolverá a questão? Posição? Relacionamentos? Ultrapassar os koans? Repetidas vezes, os mestres zen dizem-nos para não colocar cabeça alguma acima da nossa, para não acrescentarmos extras à nossa vida.

Cada momento, tal como é, é completo e pleno em si. Quando enxergamos isso, independente do que ocorrer a cada instante, deixamos que aconteça. Neste exato momento, qual é seu momento? Felicidade? Ansiedade? Prazer? Desânimo? Temos altos e baixos, todavia cada momento é exatamente o que cada momento é. Nossa prática, nossa aspiração, é ser esse momento e devemos, deixá-lo ser o que é. Se você tem medo, seja só esse medo e, então, você o perde.

Existe a história de três pessoas que estão contemplando um monge que está parado no alto de uma colina. Depois de observarem-no por um certo tempo, uma disse: "Ele deve ser um pastor procurando uma ovelha perdida". A segunda falou: "Não, ele não está olhando para os lados. Acho que ele deve estar esperando um amigo". E a terceira comentou: "E provável que ele seja só um monge. Creio que está meditando". Começam a discutir sobre o que o monge estaria fazendo e, enfim, para finalizar, sobem até o topo da colina e aproximam-se dele. "Está procurando uma ovelha?" "Não, não tenho ovelhas que procurar." "Então, deve estar esperando por algum amigo?" "Não, não estou esperando pessoa alguma." "Bem, então deve estar meditando." "Não, estou aqui apenas, em pé. Não estou fazendo absolutamente nada."

É muito difícil concebermos que alguém esteja apenas em pé, sem fazer nada, porque estamos sempre tentando de modo frenético chegar em algum lugar para fazer alguma coisa. E impossível sairmos desse momento; não obstante, costumamos tentar o tempo todo. Levamos essa mesma atitude à nossa prática zen: "Sei que a natureza Buda deve estar lá fora, em algum lugar. Se eu procurar bastante e praticar bastante o sentar acabarei encontrando-a!". Porém, para vermos a natureza Buda, é preciso antes esvaziar por completo tudo isso, para sermos inteiramente cada momento, de modo que qualquer que seja a atividade em que estejamos envolvidos a procura de uma ovelha perdida, a espera por um amigo, a meditação — seja apenas o ficar ali em pé, naquele exato momento, sem fazer absolutamente nada.

Se tentarmos ficar calmos, sábios e maravilhosamente iluminados com a prática zen, não atingiremos o entendimento. Cada instante, sendo o que é, é a manifestação repentina da verdade absoluta. Se praticarmos tendo a aspiração de sermos apenas o momento presente, nossas vidas irão de forma gradual transformar-se e crescer de uma maneira maravilhosa. Em vários momentos teremos insights repentinos, mas o mais importante é praticar a cada momento, com um a profunda aspiração.

Quando estivermos dispostos a estar aqui, exatamente como somos, a vida ficará sempre bem; então sentir-se bem será bom, sentir-se mal será bom; se as coisas estiverem indo bem se estiverem indo mal ótimo. Os reveses emocionais que experimentamos são problemas, porque não queremos que as coisas sejam como são. Todos temos expectativas, mas, conforme a prática se desenvolve, elas aos poucos se esfarelam e, como uma folha fenecida, apenas serão desfeitas. Cada vez mais ficaremos com o que existe exatamente aqui e agora. Pode parecer assustador, porque nossas mentes, repletas de expectativas, querem que a vida aconteça de uma certa forma: queremos nos sentir bem, não ficar confusos, não ficar aborrecidos; cada um tem sua própria lista.

Contudo, quando estamos cansados depois do trabalho, esse é o Buda cansado. Quando as pernas doem durante zazen, esse é o Buda dolorido; quando você está decepcionado com algum aspecto de si mesmo, esse é o Buda de decepcionado. E isso!

Ao termos aspiração, olhamos para as coisas de um modo completamente diferente do que quando temos expectativas. Temos a coragem de nos sentar atravessando um momento depois do outro, pois, na realidade, cada um deles é só o que existe. Se a mente divaga em expectativas, ter aspiração significa retomar com suavidade o caminho de volta para o momento presente. A mente divagará o tempo todo, e, quando isso acontece, basta retornar ao momento sem se preocupar ou sem ficar alterado. Samadhi, a centração, a totalidade irão desenvolver-se de modo natural e inevitável, a partir dessa espécie de prática, e a própria aspiração também ficará mais profunda e clara.