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Prisioneiros do medo
Texto de Charlotte Joko Beck,
extraído do livro"Sempre Zen"

Todos conhecem a imagem do executivo importante que trabalha até às 22 h, atendendo o telefone, comendo um sanduíche apressado entre os compromissos. Seu pobre corpo está sendo muito mal tratado. Ele acredita que seus esforços frenéticos são essenciais para uma "boa vida". Não consegue enxergar que o desejo está dominando sua vida, assim como domina as nossas também. Uma vez que somos controlados por nossos desejos, só temos uma vaga noção da verdade básica de nossa existência.

A maioria das pessoas que não conhece algum tipo de prática é bastante egoísta. Estão presas a seus desejos:

ser importante, possuir isto ou aquilo, ficar rica, ficar famosa. Claro que vale para todos nós, em variados graus. No entanto, quando praticamos, começamos a suspeitar que nossa vida não está indo bem do jeito que os comerciais de TV dizem que irá. Os comerciais sugerem que, se você quiser ter o tipo mais novo de spray para os cabelos, ou a linha de maquiagem, ou o abridor de porta de garagem, sua vida ficará fantástica. Certo? Bem, a maioria descobre que não é verdade. Ao percebermos, começamos a enxergar que o modo como estamos vivendo não está funcionando. A cobiça egoísta que domina nossas vidas não está dando certo.

Então, damos início a um segundo estágio: "Bem, se ser egoísta não está funcionando, então vou ser altruísta". A maior parte das práticas religiosas (e de algumas modalidades zen, lamento dizê-lo) trata do altruísmo. Quando enxergamos nossa mesquinharia, nossa falta de delicadeza, decidimos ir em busca de um novo desejo: sermos delicados, bons, pacientes. A culpa está emaranhada nesse desejo, como uma espécie de irmãozinho bebê; quando não correspondemos à imagem de como deveríamos ser, sentimos culpa. Ainda estamos tentando ser o que não somos. Estamos tentando imaginar uma forma de ser diferente do que somos. Quando não conseguimos dar realidade a nossos ideais, alimentamos culpa e depressão. Em nossa prática, oscilamos de um a outro desses estágios. Notamos que somos mesquinhos, cobiçadores, violentos, egoístas, ambiciosos. Então, formamos uma nova ambição: ser altruísta. "Eu não deveria estar tendo tais pensamentos. Já estou praticando o sentar há bastante tempo. Por que é que ainda sou tão mesquinho e avarento? Deveria estar melhor já." Todos estamos fazendo isso. Muitas práticas religiosas objetivam, de maneira equivocada, a produção de uma boa pessoa que não faça nem pense coisas feias. Há alguns Centros Zen que também estão nesse tipo de armadilha; ela conduz a uma espécie de arrogância e hipocrisia, porque se você é quem está fazendo certo, o que dizer a respeito de todos os outros que não conhecem a verdade e não estão fazendo a coisa certa? Já houve quem me falasse: "Nossos sesshins começam às 3 h da madrugada. A que horas começam os de vocês? As 4:15 h? Oh..." O segundo estágio, então, contém muita arrogância. A culpa também contém muita arrogância. Não estou dizendo que é ruim ser arrogante, mas é o que somos, quando não vemos.

Mesmo assim, fazemos um grande esforço para sermos bons. Já ouvi pessoas comentando: "Bem, tinha acabado de sair de um sesshin e alguém me cortou o caminho na rua, e sabe de uma coisa, fiquei com muita raiva. Que mau aluno eu sou...". Todos fazem isso. Atentem: todo querer

— principalmente o querer ser de certo jeito — está centrado no ego e no medo. "Se eu conseguir ser perfeita, se eu puder me realizar ou iluminar, conseguirei domar o medo." Vocês enxergam o desejo que está aí? Existe um enorme desejo de distanciar-se do que se é, de ir na direção de um ideal. Algumas pessoas não dão importância à iluminação, mas podem sentir que não deveriam gritar com o marido. Claro que você não deve gritar com ele, mas o esforço de ser dessa maneira, só aumenta a tensão.

Deixar de ser egoísta e ambicioso para tentar não ser desse jeito é como tirar todas as gravuras feias e sem graça do quarto e pendurar outras mais bonitas. Porém, se esse quarto for uma prisão, você terá mudado a decoração e. o aposento terá um aspecto melhor, mas a liberdade desejada ainda não estará ali e você continuará preso do mesmo jeito, no mesmo quarto. Mudar as gravuras da parede, trocando a cobiça, a raiva e a ignorância por ideais (de não sermos ambiciosos, nem irados, tampouco ignorantes) melhora a decoração talvez, mas continua privando-nos de liberdade.

Isso me faz lembrar de uma antiga história a respeito de um rei que desejava o homem mais sábio dentre seus súditos para seu primeiro-ministro. Quando a escolha estava por fim entre três, o rei submeteu-os a um teste supremo: colocou-os num aposento do palácio e instalou uma engenhosa fechadura na porta. Os candidatos foram informados de que o primeiro a conseguir abrir a porta seria nomeado primeiro-ministro. Dois começaram a elaborar complicadas fórmulas matemáticas, a fim de descobrir a combinação do segredo. O terceiro ficou apenas sentado em sua cadeira por um certo tempo. De repente, sem nem se incomodar com lápis e papel, foi até a porta, girou a maçaneta e a porta se abriu. Tinha estado destrancada o tempo todo. Qual é a moral da história? A prisão em que vivemos, cujas paredes redecoramos de maneira frenética o tempo todo, não é uma prisão. Aliás, a porta nunca esteve trancada. Não há fechadura, nem tranca. Não precisamos ficar sentados em celas, lutando pela liberdade, tentando nos mudar a qualquer preço: estamos livres desde sempre.

Entretanto, o mero enunciar, não nos resolve o problema, é óbvio. De que modo podemos perceber esse fato da liberdade? Dissemos que ser egoísta e ter o desejo de ser egoísta são ambas vivências do medo. Até mesmo o desejo de ser sábio e de ser perfeito baseiam-se no medo. Não iríamos à caça do desejo se víssemos que já somos livres. Sendo assim, nossa prática sempre volta ao mesmo ponto: como enxergar com mais clareza, como não entrar em becos sem saída, como tentar não ser egoísta, por exemplo. Em vez de ir de um egoísmo inconsciente para um altruísmo consciente, o que precisamos fazer é ver a tolice do segundo estágio, ou, se nos divertirmos e brincarmos nessa dimensão, é no mínimo enxergar que estamos procedendo dessa maneira. O que precisamos é ir para o terceiro estágio, que é... qual?

De início, devemos desarticular os dois primeiros estágios e conseguimos isso quando nos tornamos testemunha. Em vez de afirmar: "Eu não deveria ser impaciente", observamo-nos sendo impacientes. Damos um passo atrás e observamos. Vemos a verdade de nossa impaciência. A verdade, com certeza, não é uma imagem mental de nós mesmos como pessoas agradáveis e pacientes. Quando criamos essa imagem, apenas enterramos a irritação e a raiva, que mais tarde virão à superfície. Qual é a verdade de qualquer momento de aborrecimento ou de impaciência, ciúme, depressão? Quando começamos a trabalhar desta forma, quer dizer, observando de fato nossas mentes, vemos que é tão constante o desenrolar de imagens como em sonhos, a respeito de devermos ou não ser de uma determinada maneira, ou de outra pessoa que deveria ou não ser assim ou assado. Ou imagens de como fomos no passado e de como seremos no futuro, de como iremos dar um jeito nas coisas para que tudo se arrume como queremos.

Ao darmos um passo atrás e tornarmo-nos uma testemunha paciente e persistente, começamos a compreender que nenhum desses dois estágios faz algum bem a nós ou a outrem. Só então podemos passar para o terceiro estágio, sem que tenhamos sequer tentado. Isto significa que apenas vivenciamos a verdade de todo momento de impaciência, que vivenciamos o mero fato de estarmos nos sentindo impacientes. Quando estivermos podendo fazer isso, teremos saído do âmbito da dualidade que diz que existe um eu e um modo como devo ser; no terceiro estágio, voltamos a ser quem somos e, quando nos vivenciamos dessa maneira, sendo os pensamentos a única coisa que está mantendo a impaciência, esta começa a se resolver por si.

Nossa prática, portanto, refere-se a tornar consciente o medo, em vez de ficarmos correndo em círculos, dentro de nossa cela de medo, tentando fazê-la ter melhor aparência, tentando nos sentir melhor. Todos os esforços que fazemos na vida são tentativas de fuga: tentamos esquivar-nos ao sofrimento, à dor do que somos. Até o sentimento de culpa é escapismo. A verdade de qualquer momento é sempre ser apenas o que somos, que significa experimentar nossa indelicadeza, quando estamos sendo indelicados. Não gostamos de agir assim. Gostamos de nos idealizar como pessoas delicadas, mas muitas vezes não o somos.

Quando nos vivenciamos tais como somos, da morte desse ego, desse fenecimento, brotam flores. De uma árvore fenecida brota uma flor — que linda frase de Shõyõ Rõku. Brota uma flor, não numa árvore decorada, mas numa árvore fenecida. Ao darmos um passo atrás em relação a ideais e os investigamos como testemunha, voltamos ao que somos; essa é a inteligência da própria vida.

Como o processo que mencionamos se relaciona com a iluminação? Quando voltamos da irrealidade, porque a testemunhamos, vemo-la tal e qual ela é, caímos na realidade. Talvez, a princípio, só a vejamos um segundo por vez, contudo ao longo do tempo essa porcentagem aumenta. Quando estivermos em condições de passar 90% do tempo com a vida, como ela estiver, veremos o que ela é. Somos a vida, então. Quando somos qualquer coisa, sabemos o que é. Somos como o peixe esforçado que passou a vida toda nadando de um professor a outro. Ele queria saber o que era o oceano. Alguns professores lhe disseram: "Bem, você precisa se esforçar bastante se quiser ser um bom peixe. A área que você está explorando é imensa. Você precisa meditar por muitas horas, tem de se punir, e se esforçar de verdade para ser um bom peixe". Mas um dia o peixe chegou a um mestre e perguntou-lhe: "O que é o grande oceano? O que é o grande oceano?". O professor, então, apenas riu.