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Nova Jersey não existe
Texto de Charlotte Joko Beck,
extraído do livro"Sempre Zen"

Assumimos que a realidade é tal e qual a vemos: é fixa e imutável. Por exemplo: se olharmos à nossa volta e virmos arbustos, árvores, carros, presumimos que estamos vendo as coisas como elas são. Entretanto, isso é somente como vemos a realidade no nível do chão. Se estivermos dentro de um avião a 35 mil pés de altitude, num dia de céu claro, olhando para baixo, não veremos nem as pessoas nem os carros. Dessa altura, nossa realidade não os inclui, mas inclui o topo das montanhas, planícies, massas de água. Se o avião desce, muda nossa experiência da realidade. E antes que esteja quase tocando o solo, não veremos paisagens humanas, com seus carros, pessoas e casas. Para uma formiga que anda pela calçada, os seres humanos nem existem; são enormes demais para ela. E a sua realidade provavelmente se compõe das colinas e vales de urna calçada. O que é o pé que pisa na formiga?

A realidade que vive em nós precisa funcionar de determinadas maneiras. Para tanto, devemos ser distintos das coisas que nos rodeiam, do tapete, da outra pessoa. Porém, um microscópio poderoso revelaria que a realidade com que deparamos não está efetivamente separada de nós. Em um nível mais profundo, somos apenas átomos e partículas atômicas, deslocando-se a uma velocidade espantosa. Não há separação entre nós, o tapete e a outra pessoa: somos todos um só enorme campo de energia.

Há pouco tempo, minha filha mostrou-me algumas fotografias de glóbulos brancos do sangue, presentes nas artérias de coelhos. Esses glóbulos são de resgate e têm a função de eliminar resíduos e material impróprio do corpo. Dentro da artéria podem-se ver as minúsculas criaturas rastejando, limpando o caminho ao formarem pseudópodos que avançam na direção dos alvos. A realidade de um glóbulo branco sangüíneo não é a que vemos. O que é a realidade para ele? Podemos apenas observar seu funcionamento, que consiste em limpar. É, neste preciso momento, enquanto estamos sentados aqui, existem milhões desses glóbulos dentro de nós, limpando nossas artérias do melhor modo que sabem. Quando olhamos para a seqüência de fotos, vemos o trabalho que o glóbulo está tentando fazer: ele conhece sua finalidade.

Já nós, os humanos, talvez com os dons mais imensos de todas as criaturas, somos os únicos seres da Terra a dizer: "Não sei qual o significado de minha vida. Não sei para que estou aqui". Nenhum outro, com certeza não os glóbulos brancos, tem essa espécie de confusão. Eles trabalham sem cessar para nós; estão dentro de nós, limpando-nos enquanto vivermos. E, claro, essa é apenas uma entre as centenas de milhares de funções que acontecem no seio dessa imensa inteligência que possuímos. Todavia, como temos um cérebro grande (que nos é dado para que possamos funcionar), arrumamos um jeito de usá-lo de maneira imprópria, assim como aos outros dons naturais que recebemos, cometendo equívocos que nada têm que ver com o bem-estar da vida. Apesar de dotados do dom de pensar, usamo-lo de modo errado e nos perdemos. Expulsarno-nos do Jardim do Éden. Pensamos não em termos de trabalho que precisa ser feito em prol da vida, mas em termos de como servir nosso eu em separado, empreendimento que jamais ocorreria a um glóbulo branco. Em pouco tempo sua vida terá fim; será substituído por outros. Ele não pensa; só executa suas tarefas.

Ao praticarmos o zazen e ao nos darmos conta da natureza ilusória de nossos pseudos pensamentos, o estado de funcionamento natural começa a se fortalecer. Esse estado está sempre presente, mas encontra-se tão encoberto em quase todos nós que apenas não sabemos mais o que é. Estamos tão enredados em nossa excitação, em nossa depressão, em nossas esperanças, em nossos temores, que não conseguimos notar que nossa função não é viver para sempre, mas, sim, viver este momento. Tentamos de maneira inútil proteger-nos, usando pensamentos de preocupação: ficamos arquitetando de que maneira melhorar as coisas para nós, como aumentamos nossa segurança, como perpetuar indefinidamente nosso eu em separado. Nosso corpo tem sua própria sabedoria; é o uso inconveniente de nosso cérebro que acaba com nossa vida.

Há um certo tempo quebrei meu pulso e fiquei com gesso durante três meses. Quando o removeram fiquei comovida com o que vi. Minha mão era só pele e ossos, débil, trêmula. Fraca demais para fazer o que fosse. Porém, quando saí do hospital e fui para casa, comecei a fazer uma tarefa com a mão sã, esse nadinha de pele e ossos começou a tentar ajudar. Sabia o que deveria fazer. Era quase patético: aquele esqueletinho, sem poder nenhum, ainda queria ajudar. Sabia qual era sua função. Quando olhei para aquela mão, pareceu que não tinha nada que ver comigo; a mão parecia ter vida própria. Queria participar daquele trabalho. Era comovente ver aquele pedacinho de espantalho tentando fazer o serviço de uma verdadeira mão.

Se não confundirmos as coisas, também saberemos o que é para ser feito na vida. No entanto, nós nos confundimos. Envolvemo-nos com relações estranhas que são infrutíferas; ficamos obcecados com uma pessoa, um movimento, uma filosofia. Fazemos qualquer coisa, desde que não seja viver de modo funcional. Mas, com a prática, começamos a enxergar através da confusão e podemos discernir o que precisamos fazer: assim como minha mão esquerda, mesmo incapacitada, esforçava-se para contribuir, para executar o que precisava ser feito.

Quando algo realmente nos atormenta, nos irrita, nos apoquenta, começamos a pensar. Ficamos preocupados, levantamos toda espécie de possibilidades, pensamos, pensamos, pensamos, pois é isso que acreditamos ser a solução para os problemas da vida. De fato, o que os resolve é apenas experimentar a dificuldade que está se desenrolando, agindo então a partir daí. Suponhamos que meu filho gritou comigo e disse que sou uma droga de mãe. O que fazer? Eu poderia me justificar diante dele, explicando-lhe todas as coisas maravilhosas que faço em seu beneficio. Mas o que cura de fato a situação? Simplesmente experimentar a dor do que aconteceu, considerar a presença de todos os pensamentos que tenho a esse respeito. Quando faço isso de modo sincero e paciente, posso começar a sentir de uma maneira diferente aquele filho, e posso enxergar o que fazer. Minha ação brota de minha vivência. Contudo, não fazemos o mesmo com os problemas da vida: ao contrário, rodopiamos com eles, tentando analisá-los, tentando encontrar alguém a quem culpar pelos acontecimentos. Isso é retrocesso. Distanciamo-nos do problema: com toda essa atividade de pensar, reagir, analisar, não conseguimos solucionar nada. O bloqueio imposto por nossos pensamentos e nossas emoções torna o problema insolúvel.

Certa vez, quando eu estava viajando de avião de um lado para o outro dos Estados Unidos, soube, num determinado momento, que estávamos mais ou menos no centro do país. Olhei para baixo e pensei: "Onde fica o Kansas?". Não havia meios de dizer onde ficava. Apesar disso, pensamos realmente que existe o Kansas, o Illinois, Nova Jersey, Nova York, quando, na realidade, existe apenas uma extensão muito longa de terra. Fazemos a mesma coisa conosco. Penso que sou Nova Jersey e ele é Nova York. Acho que devemos culpar Nova York pelos problemas de Nova Jersey (afinal todo mundo que mora fora de Nova York, mora em Nova Jersey). Nova Jersey, quando pensa que é Nova Jersey, compõe imediatamente seu próprio repertório de problemas. Precisa se identificar com todas as suas coisas maravilhosas e, com certeza, isso não tem muita serventia para a Pensilvânia, lá do outro lado. Na realidade, esses limites são arbitrários, mas se nos deixarmos levar pelos pensamentos e pelas emoções que nos separam, vamos pensar que existe uma fronteira separando-nos dos outros. Quando trabalhamos de modo inteligente com os pensamentos e as emoções, os limites desaparecem aos poucos, e percebemos a unidade que está sempre lá. Se nossa mente estiver aberta, apenas recebendo o input sensorial que a vida nos apresenta, não temos de lutar por algo que chamamos "grande iluminação". Se Nova Jersey não tem de existir como entidade em separado, não precisa se defender. Se não precisamos existir como entidades em separado, não há problemas. Porém nossas vidas se absorvem com a questão do que nos seria melhor, como poderíamos deixar a vida melhor para nós. Os outros e as coisas só participam na medida em que estiverem dispostos a entrar no jogo que estipularmos. Claro que eles nunca estarão realmente dispostos porque estarão fazendo a mesma coisa. Por isso, o jogo nunca dá certo. Por exemplo, como um casamento pode dar certo se um está em Nova Jersey e o outro em Nova York? Pode até dar a impressão de funcionar uma vez ou outra, mas, enquanto o casal não perceber que não existem fronteiras (e isso implica a dissolução do bloqueio da emoção-pensamento), haverá uma corrida armamentista entre ambos.

Ainda não aprendemos a viver como seres humanos; criamos um mundo falso que recobre o verdadeiro. Confundimos o mapa da realidade com ela. Os mapas são úteis, contudo, se apenas olharmos para eles, não veremos a unidade que, por exemplo, são os Estados Unidos. Não existe o Kansas como uma unidade em separado. Como os glóbulos brancos, estamos projetados para ter determinadas funções dentro deste enorme padrão de energia que somos. Precisamos ter uma determinada forma para podermos funcionar, assim como os glóbulos brancos precisam formar os pseudópodos para realizar um serviço de limpeza. Precisamos ter uma certa maneira para poder funcionar; precisamos dar a impressão de estar separados, a fim de entrarmos nesse maravilhoso jogo do qual fazemos parte. O problema é que não estamos jogando o verdadeiro jogo. Estamos jogando um jogo que usamos para revestir o verdadeiro, e essa falsa brincadeira acabará conosco. Se não enxergarmos através dela, viveremos até o último de nossos dias na Terra sem jamais termos desfrutado um só deles. Quando bem jogado, esse jogo é bom, na maior parte. Inclui sofrimentos e alegrias, decepções e problemas, mas é sempre real e rico, e não é insatisfatório, nem desprovido de significado. O glóbulo branco sangüíneo não indaga: "Qual é o sentido da vida?". Ele o sabe. E quando rompermos o bloqueio das emoções-pensamentos, então também começaremos a saber quem somos e qual nossa participação na vida. O que nos cabe fazer na vida? Se não nos confundirmos muito com falsos pensamentos saberemos. Ao nos desviarmos de nossa obsessão pessoal com nós mesmos, a resposta se torna óbvia. Mas não fazemos isso com facilidade porque estamos vinculados a um pensamento centrado em nós, repleto de certezas.

Às vezes, porém, quando praticamos de maneira meticulosa, existem momentos (por vezes horas até mesmo dias) em que, embora ainda tenhamos os mesmos problemas, tudo fica certo. Quanto mais tempo e dedicação tivermos empenhado em nossa prática, mais essa sensação dura. Esse é o estado de iluminação; nele, simplesmente dizemos: "Oh, isso precisa ser feito? Tudo bem. Tenho de ir ao dentista na terça-feira. Posso não gostar, mas está certo. Preciso ficar duas horas com aquela pessoa aborrecida... bem, vamos ver no que é que dá". É inacreditável: o fluir fica tão fácil! Então (se não tomamos cuidado), a confusão começa a invadir o espaço de novo. A clareza e a força começam a se dissipar. A marca registrada de anos de uma boa prática é que os períodos de clareza duram mais e os de confusão, menos.

Claro que, independente do tempo de prática, existem partes da vida que parecem embrulhadas e confusas. "Não sei muito bem o que está havendo aqui". Paradoxalmente, porém, querer estar embrulhado e na confusão é a clareza em si. Muitas vezes ouço de meus alunos: "Tenho me sentido confusa a respeito da prática, estou um pouco nervosa. Parece que não estou conseguindo clareza nas coisas". O que fazer então? Na realidade, todos os fatos da vida são assim. Para todos nós, cada dia apresenta períodos como esse. O que fazer? Em vez de tentarmos compreender a confusão e o nervosismo, para podermos chegar a alguma parte, perguntamo-nos: "Qual é a sensação da confusão?". Voltamos ao corpo e suas sensações, acompanhando os pensamentos flutuantes. Muito antes de percebermos, estamos de volta na trilha.

Em épocas de confusão e de depressão, o pior que pode ocorrer é tentar ser de algum outro modo. O portão sem portão está sempre exatamente aqui, quando nos vivenciamos como somos, e não do jeito que acreditamos que deveríamos ser. Ao fazermos isso de verdade, o portão se abre, embora ele se abra quando deve e, não necessariamente, quando desejamos que aconteça. Para algumas pessoas, uma abertura precoce seria desastrosa. Sou cética quanto a práticas que forçam o ritmo das coisas; forçar a clareza, rápido demais, apenas cria mais problemas. Claro que a alternativa não é sentar sem fazer nada. Precisamos manter a conscientização das sensações corporais, dos pensamentos e do que mais estiver aqui, seja o que for. Não precisamos julgar se nossa prática do sentar é boa ou má. Existe só o seguinte: "Estou aqui e pelo menos estou ciente de parte da minha vida". Ao praticar com meticulosidade, essa porcentagem tende a aumentar.

Uma parte de nós é como o glóbulo branco: está sempre ali e sabe o que fazer. Quer funcionar. A prática não é um empurrão místico na direção de qualquer outro lugar, sabe-se lá onde. O absoluto não está em nenhum outro lugar. Onde mais poderia estar se não precisamente aqui? Meu nervosismo é o quê? Uma vez que existe aqui e agora, se estou nervosa, esse é o nirvana, o absoluto. É isso. Não há para onde ir; estamos sempre precisamente aqui. Onde mais poderíamos estar, exceto onde estamos? Estamos sempre como somos. Nossa inteligência inata sabe quem somos e "qual é a nossa" neste mundo, desde que não embaralhemos tudo.