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Religião
Texto de Charlotte Joko Beck,
extraído do livro"Sempre Zen"

As pessoas que vêm a um Centro Zen estão em geral aborrecidas ou desiludidas em virtude de suas experiências religiosas passadas. O sentido original do termo "religião" e interessante: vem do latim religare que significa "reatar, unir o homem e os deuses". Re quer dizer de novo, ligare é atar, ligar, unir.

O que estamos unindo? Antes de mais nada, unimo-nos a nós mesmos, porque mesmo em nosso íntimo estamos separados, e unimo-nos aos outros; enfim, a todas as coisas, as sensíveis e as insensíveis. Unimos os outros a eles mesmos. Tudo que não estiver unido é nossa responsabilidade. Mas, a maior parte do tempo, nossa tarefa é nos unirmos a nossos companheiros, a nosso trabalho, a nossos parceiros, filhos e amigos; depois, é nos unirmos a Sri Lanka, ao México, e a todas as coisas do mundo, ao universo.

Isso parece uma beleza! No entanto, na realidade, não é sempre que vemos a vida assim. Qualquer prática religiosa verdadeira consiste em retomar a visão do que já existe: é enxergar a unidade fundamental de todas as coisas, é ver nossa verdadeira face. É remover a barreira entre nós, outrem e as coisas: é remover ou enxergar através da natureza dos obstáculos.

As pessoas, em geral, costumam me perguntar: se essa unidade fundamental é o verdadeiro estado das coisas, por que quase nunca é vista? Não é pela falta de informações científicas adequadas. Conheço muitos físicos que têm o conhecimento intelectual, mas não vivem sua suposta percepção das coisas em suas atividades diárias.

A causa principal desse obstáculo e a principal razão que nos leva a não ver o que já existe, é nosso medo de ser ferido pelo que parece estar separado de nós. É mais do que sabido que nosso ser físico precisa efetivamente ser protegido ou não consegue funcionar. Por exemplo, se estamos fazendo um piquenique num trilho ferroviário e uma locomotiva vem vindo, é uma excelente idéia sair dali. É necessário evitar e reparar danos físicos. Porém existe uma enorme confusão entre esse tipo de dano e outras ocorrências menos tangíveis, que parecem nos ferir. "Meu amor me deixou, dói ficar sozinha." "Jamais vou conseguir um emprego." "Os outros são tão ruins!" Consideramos todas essas circunstâncias como fontes de dor. Costumamos sentir que fomos feridos pelas outras pessoas.

Se olharmos para nosso passado, fazemos uma lista de pessoas e situações que nos magoaram. Todos têm a sua. Com base nessa longa lista de dores desenvolvemos uma visão de vida condicionada: aprendemos padrões de evitação, tecemos julgamentos e opiniões sobre tudo e todos que receamos possam nos magoar.

Nossas capacidades inatas são postas em funcionamento para evitações, para queixas de sermos vitimas, para tentativas de arranjarmos as coisas a fim de continuarmos mantendo o controle. A vida de verdade, a unidade fundamental, nos escapa. É lamentável, mas há quem morra sem jamais ter vivido, porque ficou completamente obcecado com as tentativas de evitar ser magoado. De uma coisa podemos ter certeza: se fomos magoados, não queremos que isso nos ocorra de novo. E nossos mecanismos de evitação são quase infindáveis.

Todavia, em muitas tradições religiosas, em particular na tradição zen, há muitas expectativas de se vivenciar o que é chamado de "abertura" ou experiências de iluminação. Essas experiências são muito variadas. Porém, se forem genuínas, iluminam nossa atenção para aquilo que já é, levam até aí nossa atenção. O que já é, é a verdadeira natureza da vida, a unidade fundamental. O que encontrei, contudo, (e sei que muitos dentre vocês também) é que, em si, essas experiências são insuficientes. Podem ser úteis, mas se nos apegarmos e ficarmos dependentes delas, elas se tornam barreiras. Para algumas pessoas, elas não são tão difíceis de acontecer. Somos variados nesse sentido e a variação não é, tampouco, uma questão de virtude. Contudo, sem o empenho de um sério esforço de unificação da própria vida, essas experiências não fazem muita diferença. O que de fato conta é a prática que temos de efetuar, a cada momento, com aquilo que parece nos magoar, nos ameaçar ou nos desagradar, com nosso marido ou mulher, com qualquer pessoa. A menos que, em nossa prática, tenhamos alcançado um ponto em que reagimos muito pouco, uma experiência de iluminação é quase inútil.

Se realmente desejarmos enxergar a unidade fundamental não só de vez em quando, mas na maior parte do tempo — o que enfim é a própria vida religiosa — então nossa prática elementar tem de construir o que Menzan Zenji (erudito e mestre do zen Soto) chama de "barreira da emoção~pensamento . Ele quer dizer que, quando alguma coisa parece nos ameaçar, reagimos. No mesmo instante em que reagimos, ergue-se uma barreira e nossa visão fica obscurecida. Uma vez que quase todos nós reagimos em média, uma vez a cada cinco minutos, fica óbvio que a maior parte do tempo a vida nos está oculta por trás dessa barreira. Ficamos presos no interior de nós mesmos, ficamos presos dentro dos confinados limites dessa barreira.

Nossa prática elementar é com essa barreira. Sem essa prática, sem o entendimento dos dentro e fora das barreiras que erguemos — o que em si não é absolutamente fácil — permanecemos escravizados e separados. Pode ser que enxerguemos nossa verdadeira face de vez em quando, mas ainda assim pensaremos que é impossível sermos nós mesmos, a cada momento. Em outras palavras: a vida religiosa não terá sido realizada e a humanidade e os deuses permanecerão separados. Existe eu e existe a vida, do lado de lá, que considero ameaçadora; e essas dimensões não se reúnem.

Essa barreira da emoção-pensamento costuma assumir a forma de uma hesitação entre dois pólos. Um é o da conformidade: o sacrifício aos deuses, o sacrifício de nós mesmos, agradar a vida e os outros, ser bom, tentar ser uma pessoa ideal, asfixiar o que é verdadeiro para nós a cada momento. Essa é a pessoa que tenta ser boa, que tenta se empenhar com sua prática, que tenta obter a iluminação, que tenta, tenta e tenta. Esses esforços são extremamente comuns, em especial nos círculos de alunos do zen. Mas se praticarmos com inteligência, começaremos a perceber o estilo conformista em que nos afundamos e depois sentiremos o ímpeto de ir até o extremo oposto, adotando outro tipo de escravidão: a rebeldia ou o inconformismo. E quando as pessoas insistem: "Ninguém vai me dizer o que fazer! Preciso de meu próprio espaço e quero que todo mundo fique fora dele!". Nesta fase julgamos os outros com muita brutalidade e formulamos opiniões negativas. Em vez de vermo-nos como inferiores e dependentes, vemo-nos como superiores e independentes. Esses estados (de conformismo e inconformismo) fluem um para outro em questão de instantes. Nos primeiros anos de prática, a maioria das pessoas sai de um primeiro estágio para cair em cheio no segundo. Nessa altura, parece que a vida ficou muito pior, em vez de melhorar: "Onde está aquela bela pessoa que eu costumava conhecer?". No entanto, os dois estados são de escravidão, porque ainda estamos reagindo à vida. Ou nos conformamos a ela ou nos revoltamos contra ela. As pessoas e os deuses continuam separados.

Todos nós oscilamos entre os dois estágios. Certo dia da semana passada, resolvi, às 9 h, que ia responder uma carta, uma carta difícil que eu não queria escrever. As 15 h dei-me conta de que ainda não havia redigido a resposta. Eu tinha encontrado quinze coisas para fazer entre 9 h e 15 h, que não me haviam permitido respondê-la. Minha reação inicial foi: "Preciso responder aquela carta". Isso é conformismo. "É necessário que eu o faça. Devo fazê-lo". A segunda reação foi: "Você não vai me forçar. Eu não tenho de fazer nada. Posso muito bem deixar essa carta, mofando na mesinha". Porém, no instante em que o observador enxergar os dois estados, o que acontece? Quando observei os dois tipos de pensamento, sentei-me e respondi a carta.

Qual é a resolução? O que resolve essa batalha incessante em nosso íntimo? O que nos faz reunir aos deuses novamente? Até que tenhamos compreendido esse enigma, estamos presos em suas malhas. A primeira coisa a ser vista é o que estamos fazendo. Quando sentarmos isso se revelará por si. Primeiro teremos um pensamento "devo fazer isso". Se continuarmos sentados mais um pouco, virá o segundo pensamento "mas eu não quero". Começamos a observar que oscilamos entre esses pensamentos, como um balanço.

Em todo esse processo infindável de ida-e-volta, não há senão separações. Como resolver a situação? Resolvemos vivenciando o que não queremos vivenciar. Precisamos experimentar não-verbalmente a sensação de incômodo, de desconforto, a raiva, o medo, tudo que está por trás da prática de sentar, por trás da oscilação entre um pólo e outro. Esse é o verdadeiro zazen, a verdadeira oração, a verdadeira prática religiosa. Com o tempo, a raiva (assim como a experiência física) começará a se modificar. Se estivermos de fato aborrecidos, a mudança pode levar semanas ou meses. Mas se nos entregarmos às vivências, se "abraçarmos o tigre", ela sempre mudará, porque quando a estamos vivenciando em si, não há mais sujeito nem objeto e, nesse estado de indeferenciação, desaparece a barreira imposta pelas emoções-pensamentos e, pela primeira vez, conseguiremos enxergar com clareza. Quando conseguimos ver, sabemos o que fazer. Nosso ato será amoroso e compassivo. A vida religiosa pode ser vivida.

Enquanto não nos sentirmos abertos e amorosos, nossa prática está bem ali, esperando por nós. Uma vez que na maior parte do tempo não nos sentimos abertos e amorosos, devemos praticar de modo meticuloso o tempo todo. Essa é a vida religiosa: essa e a religião", embora não precisemos usar essa palavra. Trata-se da reconciliação das pessoas e de suas noções separatistas; trata-se da reconciliação de nossos pontos de vista a respeito de como as coisas deveriam ser, como as pessoas deveriam se comportar, trata-se da reconciliação de nossos receios. A reconciliação de tudo que é a experiência — do quê? de Deus? Daquilo que simplesmente é. A vida religiosa é um processo incessante de reconciliação, de um segundo a outro.

Cada vez que atravessamos essa barreira, algo muda dentro de nós. Com o tempo, vamos ficando cada vez menos separados. Isso, porém, não é fácil, porque desejamos ficar dependentes daquilo que nos é familiar: estarmos separados, sermos superiores ou inferiores, sermos "alguém" diante do mundo. Um dos aspectos distintivos de uma prática séria é o estado de alerta e de reconhecimento para os momentos de separação. No exato instante que tivermos mesmo que seja uma fugaz noção de estar julgando outra pessoa, a luz vermelha da prática se acende e podemos percebê-la.

Todos cometemos ações prejudiciais de que não temos consciência de estar praticando. Mas, quanto mais praticarmos, mais veremos o que antes nos era impossível enxergar. Isso não é o mesmo que dizer que chegará o momento em que veremos tudo. Sempre haverá algo que não conseguiremos ver. Isso não é nem bom, nem mau; é apenas a natureza das coisas.

Sendo assim, a prática não é só vir aos sesshins ou praticar zazen todo dia de manhã. Isso é muito importante, contudo não basta. A força de nossa prática, a capacidade de a comunicarmos a outros, está em sermos nos mesmos. Não precisamos tentar ensinar os outros. Não precisamos dizer nada. Se nossa prática é forte, ficará evidente o tempo todo. Não temos de falar sobre dharma; dharma é simplesmente o que somos.