Escolha
 
logo FALE CONOSCO
shunya meditação mestres textos zen dzogchen links

Dos problemas às decisões
Texto de Charlotte Joko Beck,
extraído do livro"Sempre Zen"

Às vezes, as pessoas que aparecem no Centro, em geral as novas, dizem que o que realmente desejam é encontrar uma vida espiritual, uma vida de integração e unidade, uma vida em que se sintam unidas a tudo e não separadas das coisas. Não há nada de errado nisso, é o que estamos fazendo aqui.

Apesar disso, não creio que a maioria possa definir o que é "vida espiritual". Por isso, falamos principalmente sobre o que ela não é. Há um famosa passagem da literatura zen: "Um décimo de polegada de diferença e céu e terra estão separados". A que isso se refere? Qual é esse décimo de polegada de diferença a partir do qual "céu e terra estão separados", em que a totalidade da vida fica perdida (ou assim achamos que esteja)? Do ponto de vista absoluto, nada poderia quebrar essa unidade, mas da perspectiva relativa em que nos encontramos, algo não parece encaixado. A totalidade essencial da vida nos parece inatingível. As vezes temos vislumbres, mas na maior parte do tempo, não.

Por exemplo, na época do Natal, as pessoas ou estão se divertindo ou enlouquecem. As vezes conseguimos combinar os dois estados! É uma época em que costumamos tomar consciência de nossa ansiedade e de nossas rupturas. Além disso, quando nos aproximamos do Ano Novo, sentimos que esse tipo de comemoração é um momento de virada e não há ser humano que possa considerar esse instante com superficialidade. Temos um determinado número de viradas de ano no planeta. Para quem for um pouco sensível, a virada do Ano Novo é crucial. Necessitamos enxergar esse décimo de polegada de diferença, observar o que ele é, e como está relacionado com as viradas de nossa vida.

Uma passagem bíblica diz o seguinte: "O homem é o que pensa no coração". Essa inquietação de que estamos falando, essa separação, esse décimo de polegada de diferença. vem de como a gente "pensa no coração". ("Coração não se refere a alguma característica emocional, e, sim, ao coração da questão, à verdade do problema, ao cerne mesmo, como no Sutra do Coração.) "O homem é o que pensa no coração": conforme vai enxergando a verdade de sua vida é isso que ele é. Bem, quanto mais enxergamos qual é a verdade de nossa vida, mais veremos o que é esse décimo de polegada de diferença. Isso me leva a duas palavras que se parecem e costumam ser usadas como sinônimos: decisões e problemas.

Da manhã à noite, a vida não é senão decisões. O instante em que abrimos os olhos pela manhã tomamos decisões: levanto agora ou fico mais uns cinco minutinhos? Em especial, devo me levantar e sentar! Primeiro uma xícara de café? O que comer no desjejum? O que fazer primeiro hoje? É dia livre, devo ir ao banco? Ou apenas me divertir? Escrevo ou não aquelas cartas? De manhã até de noite tomamos uma decisão atrás da outra e é normal. Nada de estranho nisso. Mas a vida nos parece uma série de problemas, e, não, de decisões.

Podemos dizer, por exemplo: "Mas uma coisa é decidir se vai primeiro ao banco ou ao supermercado. Essa é uma decisão simples. Porém, o que me acontece é realmente um problema de vida". Pode ser que se relacione com seu emprego, porque ele de fato não é bom. Pode ser que estejamos desempregados... qualquer coisa. Não pensamos que seja só uma decisão, acreditamos que seja um problema. Todos nos preocupamos com o que fazer para solucionar os problemas; todo mundo considera a vida um problema, pelo menos parte do tempo. Outro exemplo: "Estou trabalhando em San Diego. Tenho uma namorada fantástica aqui, gosto do clima, mas, é incrível, recebi uma oferta irrecusável em Kansas City que envolve mais dinheiro". Sentimos que não podemos tomar apenas uma decisão, e aí temos um problema. É nesses momentos que a vida humana fica completamente enrolada e quando surge o décimo de polegada de diferença.

O que devemos fazer a respeito de nossos problemas, em vez de ruminação, análise, pensamentos que se remoem de forma incessante, sentimentos de desorientação? Não estou me referindo a questões sem importância; tomamos alguma decisão e saímos do impasse. Entretanto, quando nos acontece algo significativo na vida — "Entro nessa relação?" "Termino-a?" "Se quiser acabar com essa relação, o que fazer?" — ficamos sem saber como agir. E, então, que a frase citada tem sentido: "O homem é aquilo que pensa no coração". O que realmente decide uma questão é o modo como pensamos no coração, o que vemos que nossa vida é. A partir desse conhecimento tomamos nossas decisões.

Suponhamos que praticamos o zazen há dois anos. Talvez nem percebamos, mas é provável que nos comportemos de diversas maneiras diante de como encerrar uma relação, agora e antes de iniciarmos a prática, porque cremos que somos diferentes e que uma pessoa é outra. Uma prática séria modifica o modo como encaramos a vida e, por isso, começa a se modificar o que fazemos com ela. As pessoas querem uma maquininha para tomar decisões e resolver problemas. Não podem haver maquininhas fixas. Contudo, se conhecermos cada vez mais quem somos, tomaremos nossas decisões a partir daí.

Por exemplo, imaginemos que se diga a Madre Teresa: "Bem, Madre, por que não considerar a possibilidade de viver em San Francisco, em vez de Calcutá? Aqui a vida noturna é melhor. Há lugares mais bonitos para sair e jantar. O clima é mais ameno". Todavia como ela toma sua decisão? Como chega à decisão de ficar naquela parte infernal de Calcutá onde trabalha? De onde brotou essa decisão? "O homem é aquilo que pensa no coração." Provavelmente de suas preces. Depois de muitos anos consigo mesma, ela vê que o lugar onde trabalha e o que faz não são um problema, são uma decisão tão somente.

Quanto mais sabemos quem somos, mais nossos problemas mudam para: "Sou assim e, por isso, farei aquilo, ou até certo ponto estou disposto a fazê-lo". As vezes faremos a escolha em favor de algo que, para os outros, parece muito cansativo e desagradável. "Mas como é que. você faz isso? Eu não faria!" Para mim, no fundo de meu coração, é como sinto que sou e é desta maneira que minha vida quer se manifestar. Então, não há problema.

Portanto, quando algo em nossa vida parecer insolúvel, significa que estamos pensando que existe um problema que nos parece, do lado de lá, um objeto, um grapefruit. Não estamos vendo nosso problema como nós mesmos. Uma forma de fazer com que o problema se transforme numa decisão é sentar com ele, fazer o zazen. Por exemplo, a decisão a respeito de onde trabalhar. Se eu sentar com essa questão, os pensamentos virão flutuando para me aclarar as reservas que tenho ou seja lá o que for, sobre trabalhar em outro estado. Procedo à sua rotulação e deixo que flutuem até acabar. Preocupo-me, analiso e remoo. Volto o tempo todo à experiência direta de meu corpo sobre a verdade desta questão. Mantenho-me apenas sentado com a tensão e a contração, respirando com atenção. Quando ajo dessa forma, entro mais em sintonia com quem sou e a decisão começa a ficar clara. Se eu me sentir completamente emaranhado, não é que existe um problema para o qual preciso encontrar alguma solução, é que só não sei quem sou com respeito à situação.

Suponhamos, por exemplo, que eu não sei se caso ou não com um certo homem por causa de seu dinheiro, ou com outro só porque gosto dele. Se essa questão alguma vez vier a mim, então existe algo que desconheço a meu respeito. O problema não está do lado de lá. O problema está aqui: não sei quem sou. Quando sei, como Madre Teresa, não terei problemas para saber quem escolher. Quanto mais eu souber quem sou, mais conseguirei reduzir minhas necessidades às verdadeiras. Não me ocorre mais descobrir, de repente, que preciso de qualquer jeito ter isso ou aquilo. Não é que eu desista de tudo, é só que de fato não preciso mais tanto disso ou daquilo. A maioria dos que praticam o sentar por muitos anos descobre que suas vidas se tonaram muito mais simplificadas, não por causa de alguma virtude, mas porque, necessitando menos, os desejos naturalmente desaparecem. As pessoas que hoje me conhecem não conseguem acreditar, porém durante anos a fio eu jamais fui trabalhar sem esmalte nas unhas e batom combinando; eu ficava incomodada se essas coisas não estivessem combinando. Embora eu nunca tivesse sido rica, sempre tinha belas roupas. Não que haja algum problema em se ter uma bela aparência; não estou afirmando isso. Estou dizendo que, quando os desejos auto-centrados são a principal preocupação, então a pessoa terá problemas com suas decisões. Elas serão um problema. Mas, praticando o zazen, uma vez que muda a preocupação central a respeito do que na realidade se quer para a própria vida, os desejos e as indecisões simplesmente se desmancham no ar.

No Natal temos dificuldades, correndo sem parar de um canto para outro, tentando realizar os desejos de todo mundo. Temos de saber, para nós, o que nos é central. Então, sabemos quanto é apropriado que o façamos. Claro que esse conhecimento de quem somos é sempre fragmentário, incompleto e até mesmo elementar. Apesar disso, mantendo-nos na prática, veremos cada vez mais que a vida não é problemas nem reclamações.

Não estou afirmando que nunca devamos nos divertir. Teremos o desejo de nos divertir na proporção em que esse divertimento for pertinente à imagem de quem somos num dado momento. Se precisamos de bastante tempo livre é simplesmente assim que vemos a nós e a nossa vida. Mas com o tempo isso irá diminuir, porque não conseguimos sintonizar com o cerne da questão, com nosso cerne, sem que tudo o mais que está em torno também mude. T. S. Elliot escreveu a respeito desse eixo imóvel em torno do qual o universo gira. Esse eixo imóvel não é uma coisa. Quanto mais praticamos, mais o conhecemos. Todavia, sem uma prática persistente e paciente, que é o zazen para a maioria de nós, nossa tendência é ficar confusos. Por exemplo, pode ser que exijamos de nós muitos sacrifícios pessoais. As vezes pode ocorrer que nosso sacrifício em nome de outra pessoa seja ruim para ela. Outras ocasiões é exatamente o que tem de ser feito. Quando enfrentamos uma decisão sobre fazer ou não uma coisa para outra pessoa e dizermos enfim: "Não, isso eu não lhe faço", de onde vem essa capacidade de tomar uma decisão sábia? Vem de uma clareza cada vez maior a respeito de quem somos e do que é nossa vida. Ao longo dos anos, faço cada vez menos pelas pessoas, pelo menos no sentido que costumava. Sempre que alguém com uma pequena dificuldade batia à minha porta, eu costumava achar que tinha de atendê-lo logo. Agora coloco-me em primeiro lugar uma porção de vezes. Isso não é necessariamente ser egoísta, pode até ser a melhor coisa a ser feita.

O conhecimento do que precisa ser feito vai de forma lenta se esclarecendo com a prática. As decisões tornam-se apenas decisões: não são mais problemas de dilacerar os corações. O sesshin é um meio de impelir-nos para além do plano onde se situa aquela parte de nós que deseja enervar-se com os problemas. Por meio de suas próprias estruturas nos confere, quer o desejemos ou não, um espaço onde enxergamos com mais nitidez. Porém, o mais importante é o sentar diário. Não estou me referindo a apenas sentar de algum dos antigos modos. Sendo assim, não é um sentar inteligente. É quase pior fazer isso do que não o fazer. Temos de saber o que estamos fazendo. Senão, construímos um mundo de fantasia que talvez seja mais prejudicial do que não praticar o sentar de jeito nenhum. Então, vamos às perguntas.

ALUNO: Parece que, se nós temos idéias a respeito do que é certo e errado, elas interferem.

JOKO: Sem dúvida que sim! Porque são pensamentos e estão dentro de minha cabeça dizendo o que está certo e errado; são meus pontos de vista pessoais e, em geral, têm uma origem emocional, que interfere na clareza que deve existir quando olho para mim e para os outros.

ALUNO: Creio que a resposta é ver a realidade simplesmente como ela é.

JOKO: Muito bem. Mais uma vez, essa representação em termos da prática em si pode não ser tão simples: "Um décimo de polegada de diferença..." o que é isso?

ALUNO: Se existe uma coisa que eu planejei fazer e de repente acontece uma outra, que com a primeira forma dois cenários entre os quais devo escolher um, nesse intervalo começo a ficar inquieto e a ter pensamentos autocentrados...

JOKO: Então você está com um "problema", certo?

ALUNO: Com mais de um décimo de polegada!

JOKO: Mais do que um décimo de polegada! Certo?

ALUNO: Talvez a diferença tenha que ver com a capacidade de reconhecer o que me compete, as responsabilidades que me cabem.

JOKO: Você sempre sabe quais são elas?

ALUNO: Não!

JOKO: Então, o que cria aquele décimo de polegada de diferença, que nos impede de ver? Todos têm deveres e obrigações, mas confundimo-los também e os transformamos em problemas. O que é que nos cria esse décimo de polegada de diferença?

ALUNO: Queremos coisas.

JOKO: Queremos coisas, sim.

ALUNO: Temos pensamentos sobre dá-las.

JOKO: E só podemos dar de verdade quando não necessitamos de nenhuma espécie de retribuição. Certo? Quero, quero, quero, quero. Apenas reconhecer que eu quero tudo: que a minha vida seja de tal jeito e não de outro; isso tem muito que ver com aquele décimo de polegada de diferença. Todo mundo deseja que a vida aconteça de acordo com nossa imagem, de preferência de uma maneira confortável. Agradável. Que mais? Plena de esperanças futuras? Não existe futuro. "Algum dia vai ficar tudo certo." Quem sabe?

ALUNO: Para mim, é uma entrega. Se eu consigo me entregar ao que está acontecendo, então não convoco tantas coisas nas quais acabo tropeçando.

JOKO: Se realmente conseguimos nos entregar, é ótimo. Mas o que atrapalha o caminho da entrega? Eu. E do que consiste esse eu?

ALUNO: Raiva. Quero que seja de outro jeito! Não foi assim que eu planejei.

JOKO: Certo. Esses são todos pensamentos. Se os víssemos apenas como pensamentos, poderíamos voltar ao que precisa ser feito.

ALUNO: Quando vemos um problema, devemos usar a vontade para mudá-lo?

JOKO: Você está fazendo menção à diferença entre decisões e problemas. Se você realmente enxergar que os problemas são você, em vez de considerá-los um problema a ser solucionado, pode perguntar: "O que está acontecendo aqui?". O que você vê acontecer é em geral sua própria raiva, seu próprio medo, seus próprios pensamentos. Quanto mais você se familiariza com eles e acompanha a tensão física, fica óbvio se é o caso ou não de tentar alguma interferência. Não estou dizendo que não se deva jamais mudar as coisas. Entretanto, o que fazer para mudar fica evidente, como é com Madre Teresa.

ALUNO: Isso é a cura?

JOKO: A cura? Não existe cura, mais no minuto em que você acolhe a vida e a faz ser você mesmo, você só vê o que é, o que está se passando. Aí terá desaparecido o décimo de polegada, entende? Porque o problema não está mais lá. Sou só eu. Então, não amedronta mais. Ao termos paciência e praticarmos o sentar, nossa tendência é ver cada vez mais o que fazer. Não é tão misterioso. E saberemos quando é ou não o momento de mudar as coisas. Como diz o ditado, conquistamos a aceitação para as coisas que não podem ser mudadas, a coragem para o que precisa ser mudado e a sabedoria para distinguir a diferença.

ALUNO: O que nos leva a querer fazer o que é apropriado?

JOKO: Estamos sempre querendo fazer o que é apropriado, quando estamos em contato conosco. "O homem é aquilo que pensa no coração." E não só ele é, como também faz. Ele age.