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Ponto de mutação
Texto de Charlotte Joko Beck,
extraído do livro"Sempre Zen"

Todos querem uma vida de liberdade e compaixão, uma vida humana em pleno funcionamento, que não pode estar apegada a nada, nem a uma prática, nem a um professor, nem mesmo à Verdade. Se estivermos apegados à Verdade, não poderemos enxergá-la.

Vi no noticiário da TV uma história a respeito de um homem que encontrou inúmeras caixas de peças de maquinários. Não tinha a menor idéia da utilidade delas, mas gostava muito de ficar colocando as coisas perto umas das outras e o mistério tornava tudo mais excitante ainda. Então, ele começou seu trabalho. Custou-lhe dez anos encaixar aquelas milhares de peças, algumas grandes, outras pequenas. Quando enfim terminou o trabalho, tinha criado um novo e reluzente modelo Ford T. Mas (claro que ele não tinha esposa!) ele tinha construído aquela beleza na sala de visitas! Por isso, depois de alguma hesitação, derrubou a parede da frente da sala de visitas e empurrou o modelo T até a entrada, numa mostra definitiva de progresso. Porém, o pórtico tinha de altura meio metro em relação ao nível da rua e ele precisou construir uma rampa até o chão. Por fim, conseguiu deslocar o carro pelo jardim até a rua e, assim, aquele Ford T conseguiu chegar a ser um carro de verdade, funcionando.

Essa é uma história maravilhosa porque se parece com o que fazemos com nossas vidas. Construímos uma criatura bizarra que chamamos de "eu mesmo". Infelizmente, não temos toda a habilidade do mundo para construir esse ser e, depois de ele estar concluído, temos a incômoda sensação de que nosso si-mesmo (como aquele modelo T) está confinado, as paredes o estão esmagando. O si-mesmo pode até ter boa aparência, chegando mesmo a impressionar, mas ainda se sente incomodado pelas restrições.

Agora acontece a escolha crucial: existem duas possibilidades de irmos em frente depois de sentir o confinamento e a ansiedade em "nós mesmos". Uma delas é fingir que nosso espaço de vida foi na realidade projetado para conter um modelo Ford T, e então decoraremos as paredes ou criaremos artifícios com espelhos, para que haja ilusão de descontração e de espaço. A outra é constatar que esse "si-mesmo" constrito deve ser deslocado para outro lugar, de algum jeito, até chegarmos a um espaço arejado e iluminado.

Nesta altura (quando começamos a examinar o carro, esse si-mesmo que construímos), nossa prática está de fato se iniciando. Não esperamos mais dar um jeito no que está em volta, no meio ambiente; em vez disso, mudamos o modelo Ford T de lugar para que possamos examiná-lo: levamos o si-mesmo para fora. Isso não é o fim, claro; o estágio final da vida humana não é examinar e analisar o si-mesmo, para ver como funciona; é pôr nossa vida na rua onde pode funcionar plenamente.

É a dor das paredes que nos confinam que primeiro nos motiva a sair dali; sabemos que é preciso fazer alguma coisa quanto às paredes. É um grande progresso o simples fato de deslocar o carro até o pórtico, onde ele possa receber um pouco mais de luz, ter um pouco mais de espaço e perspectiva. Na prática, esse é o ponto crucial da mutação. Assim, o que devemos fazer para propiciar um ponto de mutação?

Consideraremos a idéia de "renúncia". Muitas vezes sentimos que, para nossa vida ter outro começo, o que é velho e antigo deve ser descartado. O que poderíamos considerar como renúncia? Podemos renunciar ao mundo material tal como o concebemos, ou a nosso mundo mental e emocional.

Há muitas tradições que efetivamente encorajam a renúncia de todas as posses materiais. Os monges conservam, segundo a tradição, uma pequena caixa contendo poucos pertences necessários. Isso é renúncia? Digo que não, embora seja uma prática útil. É como se pensássemos que a refeição noturna não fica completa sem a sobremesa; assim ficamos sem sobremesa por um certo tempo como uma maneira de aprender algo a nosso respeito, e essa é uma boa prática.

Depois pode ser que acreditemos que as coisas que se passam dentro dos pensamentos e das emoções não estão certas: "Eu deveria ser capaz de renunciar a tudo. Deveria ser capaz de me livrar disso tudo. Sou mau porque penso e sinto assim". Isso também não é renúncia. É brincar com as noções de bem e mal.

Alguns realizam um esforço final. Porque estamos confusos e desestimulados sobre nossa vida diária, por fim decidimos que é preciso ir "em busca da Realização; devo levar uma vida inteiramente espiritual e renunciar a tudo o mais". Isso é uma maravilha se compreendermos o que significa. Mas de todas as interpretações equivocadas da renúncia, a mais nociva está no âmbito da assim chamada prática espiritual, em que alimentamos noções como "Devo ser puro, sagrado, diferente dos outros.., vivendo talvez num lugar remoto e ermo": isso tampouco tem qualquer coisa que ver com renúncia.

Então, o que é renúncia? Ela existe mesmo? Talvez possamos esclarecer melhor a questão considerando agora um outro termo: "desapego". Costumamos pensar que, se nos preocuparmos com os acontecimentos superficiais de nossas vidas, tentando alterá-los, preocupando-nos com eles ou conosco, estamos lidando com a questão da "renúncia", quando na realidade não é preciso que "renunciemos" a nada; só precisamos perceber que a verdadeira renúncia é o mesmo que desapego.

O processo da prática é ver até o fim, e não eliminar, aquilo a que estamos apegados. Podemos ter enormes fortunas e não estarmos apegados a ela; podemos ter quase nada e sermos muito apegados a isso. O mais comum e que, se tivermos visto a fundo a natureza do apego, nossa tendência será diminuir nossas posses, mas não necessariamente. A maioria das práticas fica emaranhada nessa área de envolvimento entre nós e nossos ambientes, através da mente. "Minha mente deve aquietar-se." Nossa mente não importa; o que importa é o desapego em relação às atividades mentais. Nossas emoções são inócuas a menos que nos dominem (quer dizer, se ficarmos apegados a elas), quando então criam desarmonia para todos. O primeiro problema da prática é ver que estamos apegados. Conforme nosso zazen cresce em persistência e em paciência, começamos a saber que não somos outra coisa senão apegos. Estes governam nossa vida.

Entretanto, nunca limpamos um apego dizendo-lhe apenas que se vá. Só quando alcançamos uma clareza de percepção a respeito de sua verdadeira natureza é que, de maneira silenciosa e imperceptível, ele some. Como um castelo de areia por onde as ondas passam, ele se desfaz aos poucos e por fim... onde está? O que era?

A questão não é como nos livrar de nossos apegos ou renunciarmos a eles; trata-se da inteligência de ver qual é sua verdadeira natureza, sua impermanência, seu vazio, sua fugacidade. Não precisamos nos livrar de nada.

Os apegos mais difíceis e insidiosos são aqueles que pensamos serem as verdades espirituais. O apego àquilo que chamamos de "espiritual" é a própria atividade que detém uma vida espiritual. Se somos apegados a qualquer coisa, não podemos ser livres, tampouco verdadeiramente amorosos.

Enquanto mantivermos qualquer imagem de como devemos ser ou de como os outros devem ser, estamos apegados; e uma vida realmente espiritual é apenas a ausência disso. "Estudar o ser é esquecê-lo", nas palavras de Dõgen Zenji.

Ao prosseguir com nosso zazen de hoje tenhamos em mente a questão central: a prática do desapego. Prossigamos com persistência e cuidado, sabendo que pode ser difícil e que a dificuldade não é o problema. Cada um tem sua escolha. Qual será? Uma vida de liberdade e compaixão, ou o quê?