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Seja feita a vossa vontade
Texto de Charlotte Joko Beck,
extraído do livro"Sempre Zen"

Muitos aqui assistiram esta semana a um documentário de televisão sobre a vida e a obra de Madre Teresa. Há quem a chame de santa. Duvido que esse título signifique alguma coisa para ela; mas o que considerei mais extraordinário foi que ela apenas ficava fazendo a próxima coisa, a próxima coisa, a próxima coisa, totalmente absorta em cada tarefa. É o que precisamos aprender. Sua vida é seu trabalho, é fazer cada tarefa com uma entrega irrestrita, um momento após o outro.

Nós, americanos sofisticados, temos dificuldade para compreender tal modo de vida; é muito difícil e, no entanto, é nossa prática. Não a minha, mas a Vossa vontade seja feita. Isto não significa que Vossa seja outra coisa que não eu mesmo, contudo é o outro no seguinte sentido: minha vida é uma forma particular, no tempo e no espaço, porém, a Vossa Vontade não é tempo nem espaço e, sim, seu funcionamento; o crescimento de uma unha, a purificação que o fígado realiza, a explosão de uma estrela — a agonia e o êxtase do universo. O Mestre.

Um dos problemas inerentes a algumas práticas religiosas é a tentativa prematura de seus adeptos de levarem uma vida na qual "seja feita a Vossa vontade", antes de terem chegado a uma compreensão das suas implicações. Antes, que eu possa entender a Vossa Vontade, devo começar enxergando a ilusão da minha vontade. Preciso saber com a máxima clareza possível que minha vida consiste em "eu quero", e outro "eu quero" e mais "eu quero ainda, O que eu quero? Quase tudo: às vezes, coisas triviais, em outras, coisas espirituais" e (mais comumente) desejo que você seja do jeito que eu imagino que você deveria ser.

Surgem dificuldades na vida porque eu quero algo que, mais cedo ou mais tarde, colidirá com o que você quer. É inevitável que se sigam dores e sofrimentos. Quando observamos Madre Teresa, é óbvio que, onde não existe eu quero, existe alegria a alegria de fazer o que tem de ser feito, sem qualquer pensamento eu quero.

Um aspecto que ela assinala é a diferença entre o trabalho que a pessoa faz e sua vocação. Todos nós temos um trabalho, como médicos, advogados, alunos, construtores, encanadores, mas essas ocupações não são nossa vocação. Por quê? O dicionário revela que "vocação" deriva do latim vocatio, convocar, chamar. Todos nós (independente de termos consciência ou não) somos chamados ou convocados por nosso Verdadeiro Eu (Vossa Vontade); não estaríamos num centro Zen se não existisse alguma coisa se mexendo em nosso íntimo. A vida de Madre Teresa não é servir aos pobres, mas corresponder ao chamado, à convocação. Seu trabalho não é servir aos pobres; essa e sua vocação. Ensinar não é meu trabalho, é minha vocação, O mesmo vale para vocês.

Na realidade, nosso trabalho e nossa vocação são a mesma coisa. O casamento, por exemplo, implica muitos tipos de trabalho (ter dinheiro, cuidar de filhos e de uma casa, servir a o parceiro e à comunidade), porém a vocação do casamento permanece como o Mestre. É nosso verdadeiro eu, nosso chamado, somos nós nos convocando. Quando tivermos clareza quanto a quem é o Mestre, o trabalho fluirá com facilidade. Se não tivermos clareza, nosso trabalho sairá imperfeito, nossas relações ficarão defeituosas, toda situação da qual participamos ficará complicada.

Vamos todos adiante, esfuziantes, fazendo nosso trabalho, mas pode ser que estejamos cegos para qual seja nossa vocação. Então, como nos tornarmos menos cegos, como reconhecermos nossa vocação, nosso Mestre? Como entender "Seja feita a Vossa vontade"?

São necessários dois estágios de prática (e hesitamos entre ambos). O primeiro consiste em reconhecer com honestidade que eu não quero fazer a Vossa vontade, que aliás, deixa para lá, não tenho o menor interesse em executá-la. Desejo fazer só o que eu quero praticamente o tempo todo; desejo conseguir só o que eu quero; não quero nada que me seja desagradável; quero sucesso, prazer, saúde e mais nada. Esse senso do eu quero está presente em cada célula de nosso corpo e nos é impossível conceber uma vida sem isso.

No entanto, ao praticarmos o sentar com paciência, ao longo dos anos, com tanta clareza, presença e consciência possível, estará se consolidando um segundo estágio: vai crescendo em nossas células o conhecimento de quem na realidade somos e, ao mesmo tempo, nossas crenças conceituais (as minhas) aos poucos enfraquecem. Algumas pessoas gostam de considerar a prática zen como uma realidade esotérica, afastada, em separado. O que ela absolutamente não é. Devagar, uma lenta modificação no nível celular vai nos ensinando que é outra coisa, conforme o tempo passa. Sem que precisemos nos ater a ponderações filosóficas, começamos a ver quem é o Mestre. Cada vez mais a Vossa vontade e a minha vontade se tornam una.

Não tenho pena de Madre Teresa. Ela faz aquilo que lhe dá as maiores alegrias. Tenho pena de todos nós que estamos encurralados e cegos numa vida na qual minhas vontades sejam feitas, paralisados pela ansiedade e pela inquietação.

Todas as vidas contêm problemas: ou será que nos são oferecidas oportunidades? Somente quando tivermos aprendido como praticar e pudermos escolher não nos furtar às nossas oportunidades, e sim sentarmos com nossa raiva, resistência, dores e decepções, é que poderemos enxergar o outro lado. O outro lado não é sempre a minha, mas seja feita a Vossa vontade, a vida que na verdade desejamos.

O que é necessário. Uma vida inteira de prática.