Escolha
 
logo FALE CONOSCO
shunya meditação mestres textos zen dzogchen links

A VIDA E O ENSINAMENTO DO BUDA
Texto de de H. Saddhatissa,
extraído do livro"O Caminho do Buda"

O primeiro ponto a se considerado, se desejarmos evitar qualquer confusão na discussão do budismo, é que o Buda em momento algum pretende ser mais do que um ser humano. Seu ensinamento revolve o problema do sofrimento humano e indica, ou pretende, um caminho, que o homem deve seguir para solucionar esse problema – sem a ajuda de qualquer força externa ou sobrenatural.

Buda, significando o que é iluminado ou desperto, foi o nome descritivo dado a um príncipe indiano, Siddhãrta Gautama, após ter alcançado um estado de compreensão absoluta. É para um estado semelhante de compreensão – e para a libertação do medo e do sofrimento que tal compreensão traz – que a trajetória budista pretende conduzir.

O budismo começou nas províncias do Norte da Índia, e simultaneamente veio a prevalecer em toda a Ásia. Durante vinte e cinco séculos, mesclou-se a crenças tradicionais de muitas terras. Atualmente, existem mais de quinhentos milhões de budistas na Índia, Nepal, China, Japão, Coréia, Tibete, Laos, Vietnam, Cambója, Malásia, Birmânia, Tailândia e Ceilão; e há evidência de um crescente interesse na América e na Europa.

Siddhãrta Gautama parece ter nascido em maio de 663 a. C., num dia de lua cheia, em um lugar chamado Jardim Lumbini, perto das fronteiras do Norte da Índia. Seu pai, Suddhodana, era soberano de Sãkya, um reino situado no sopé do Himalaia. (Um dos muitos nomes pelos quais Gautama era conhecido era Sãkya Muni – o sábio dos Sãkyas). Sua mãe chamava-se Mahãmãyã.

Muitas estórias miraculosas surgiram em relação ao nascimento da criança e seu desenvolvimento precoce. Essas estórias parecem ser um dos riscos profissionais dos líderes religiosos. Os relatos mais simples estabelecem meramente que, após uma infância exemplar, ele tornou-se um jovem de aspecto nobre, combinando a destreza de um atleta com a inteligência de um erudito. Aos dezesseis anos de idade, casou-se com sua prima, uma princesa de rara beleza chamada Yasodharã. Treze anos mais tarde, seu filho Rãhula nasceu.

A estória de como aos vinte e nove anos de idade Siddhãrta Gautama deixou seu lar, sua jovem esposa e seu filho recém-nascido para levar a vida de um monge errante converteu-se, através dos tempos, em mito e lenda. Mais uma vez faremos o relato mais simples. Por aproximadamente trinta anos, o jovem viveu uma vida protegida e provavelmente bastante luxuosa. Sua família era rica e aparentemente culta; e ele era incentivado a buscar quaisquer distrações físicas ou intelectuais que o atraíssem. Gozava de todo esse conforto e segurança que dizem algumas vezes trazer a felicidade. Contudo, de vez em quando, perturbava-se com a doença e a miséria que via à sua volta, e começou a suspeitar de que seu modo de vida fosse vazio. Procurou o conselho daqueles que gozavam de grande reputação de sabedoria e descobriu apenas que estes não possuíam respostas adequadas para suas perguntas.

O caminho que Siddhãrta Gautama, em sua inquietude mental, desejou seguir – renunciar ao mundo e viver como um asceta paupérrimo – pode parecer dramático e talvez irresponsável nos dias de hoje. Na Índia de seis séculos antes de Cristo, foi uma escolha extrema, mas não muito incomum. O que faz com que o caso de Gautama seja digno de estudo não é o fato de ele ter escolhido renunciar ao mundo, mas sim o fato de ter, em sua busca incessante da causa e cura da angústia e tensão humanas, renunciado aos caminhos do próprio ascetismo.

No princípio sua aproximação foi bastante ortodoxa; consultava as mais altas autoridades sacerdotais da religião bramanista de seu povo – embora nenhuma pudesse explicar o instruir-lhe satisfatoriamente. Nessa época, era costume praticar mortificação corporal a fim de obter a libertação das doenças do corpo e da mente; conseqüentemente, ele também tentou esse método. Na floresta de Uruvela, perto de Gaya, praticou as mais intensas formas de austeridade durante seis anos, e foi finalmente trazido às beiras da morte.

De repente, deu-se conta de que, em vez de proporcionar a paz e a clareza mental, as graves penalidades que se auto-impunha haviam arruinado sua saúde e entorpecido sua mente. Para o desagrado de seus companheiros ascetas, resolveu rejeitar os caminhos da austeridade do mesmo modo que havia rejeitado os caminhos da luxúria, e decidiu, em vez disso, seguir um caminho intermediário entre os dois extremos. Após revitalizar seu corpo com alimento, sentou-se sob uma árvore e começou a meditar. Permaneceu em estado e intensa concentração durante dota a noite, e pela manhã havia vislumbrado "duas coisas" que viriam a ser os fundamentos de seus ensinamentos – a verdade da existência do sofrimento e a verdade de que existe um meio de libertação, isto é, um caminho intermediário que evita os extremos. Passou os quarenta e cinco anos restantes de sua vida com um monge itinerante expondo esse caminho intermediário a todos aqueles que procuravam seus conselhos.

Os ensinamentos do Buda iniciaram-se em Benares a cidade sagrada dos hindus, lugar para onde se dirigiu logo após sua experiência de "iluminação". Nos limiares da cidade, no parque dos cervos, em Sarnath, pronunciou seu primeiro discurso ou sermão, conhecido como "O giro da Roda da Lei", no qual explicitou em termos simples a estrutura quádrupla de seu ensinamento, geralmente traduzida como "As quatro nobres verdades". São elas:

  1. A verdade da existência da infelicidade.
  2. A verdade de que há uma causa para essa infelicidade.
  3. A verdade de que a infelicidade pode cessar.
  4. A verdade do caminho que conduz ao cessamento da infelicidade.

Discorreremos sobre alguns dos detalhes e implicações dessas "quatro nobres verdades" em capítulos posteriores deste livro.

O Buda, como todos os verdadeiros líderes religiosos, ensinou que o desejo, a possessividade e a inveja são as causas de muitos males pessoais e sociais; pregou contra a guerra e a escravidão, e denunciou as chamadas práticas sagradas que envolviam o sacrifício de seres humanos ou de animais. Como um mestre, dirigiu-se aos ricos e poderosos bem como aos pobres e fracos. Desconsiderou as distinções de classe do sistema de castas e ajudava pessoas, fossem elas bem-nascidas ou não; admitia no seu grupo de seguidores todos aqueles que escolhessem segui-lo. Apaziguava brigas entre proprietários de terra e príncipes. Ajudava aqueles que sofriam da mente ou do corpo a encontrarem uma cura para seus males. Não se tratava aqui de um Deus ou ser sobrenatural; o Buda não acreditava em milagres nem procurava desviar o curso natural dos eventos. Ao contrário, ensinava aos homens como reconhecer a interdependência de causa e efeito, e a compreender que, para erradicar um efeito indesejado, é necessário descobrir e erradicar a causa.

O Buda advertiu que um estado de paz poderia ser alcançado e plenamente realizado aqui, nesta vida, não através de sacrifícios aos deuses, nem por meio de orações, mas através de um contínuo esforço e por um desprendimento lentamente aperfeiçoado.

O budismo não é uma religião que possa ser aceita cegamente de uma vez por todas; dever ser compreendido e constantemente questionado. O Buda disse: "Aceitai minhas palavras somente após haverdes examinado o seu sentido por vós mesmos; não as aceiteis apenas em nome do respeito que tendes por mim". Embora com o decorrer do tempo o budismo tenha sido, algumas vezes, afetado pela tradição, rituais, etc., seu criador não formulou mais do que um método a ser experimentado. A autoconfiança e a tolerância são as chaves do pensamento budista. O Buda afirmou repetidas vezes: "Vós mesmos deveis esforçar-vos – o Buda apenas aponta o caminho". O budismo jamais poderia, portanto, ser uma fé proselitista. Na realidade, o seguidor dos ensinamentos do Buda é exortado a usá-los apenas como "uma balsa para a travessia de um rio". Uma vez tendo atingido o objetivo, isto é, o Nibbãna, a balsa deve ser abandonada.

As últimas palavras do Buda foram: "Lute cautelosamente." Tolerar com cautela é ver o mundo e nossos companheiros claramente, sem julgamento, inveja ou ódio. Para sermos capazes disso, é necessário que nos conheçamos intimamente bem como a fonte de felicidade e infelicidade existente dentro de nós.