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O Flamboyant
Texto de Thich Nhat Hanh,
extraído do livro"Flamboyant em chamas"

Tinha caído a noite. Thach Lang calou-se novamente. T’ô ergueu a flauta e tocou. Pensava nos passarinhos, na terra, no vento e na neblina. Tinha a impressão de estar agora sentada com Thach Lang em cima de um alto pico rochoso no cume de uma montanha, pico solitário e perdido na neblina.

A mãe saiu para chamá-los de volta. Acendeu o lampião e preparou o jantar. Após terem comido, ela guardou alguns objetos a fim de deixar um lugar para Thach Lang dormir. Pela primeira vez em sua vida, T’ô tinha um amigo que dormiria em sua casa.

No dia seguinte, levantaram-se como dois passarinhos. T’ô levou Tach Lang ao jardim e lhe ensinou a brincar de esconde-esconde. Ele estava encantado. Eles pulavam e rolavam na relva da colina, salpicada de milhões de flores do campo, amarelas e vermelhas. Depois Thach Lang convidou T’ô a voltar ao riacho para escutá-la. Thach Lang olhava o céu, a terra e disse a T’ô tudo que via naquela nova manhã fresca e primaveril. Agora ele não tinha mais problemas em falar. T’ô estava tão feliz! Ficar apenas ouvindo! Gostava da voz dele. Ao escutá-lo, tinha a impressão de ouvir a voz da terra e do céu e que esses conversavam com ela. Com Thach Lang ao seu lado, embora sem olhos, ela não era cega. Naquele dia, após terem almoçado, a mãe de T’ô pegou um pedaço de pano marron na cesta de costura e fez uma camisa bá-ba para Thach Lang. O menino, imitando T’ô, começou também a chamá-la de Má. T’ô tinha certeza, de que a mãe tinha ficado muito contente com este apelido. No dia seguinte, ela disse para eles que os três desceriam à praça do mercado para venderem lenha e comprarem alguns mantimentos. T’ô ficou alegríssima, pois poderia assim explicar a Thach Lang muitas outras coisas novas e talvez assim pudessem compartilhar a visão.

Ao irem para o mercado, Thach Lang e T’ô empurravam a parte de trás da carroça, carregada de lenha, enquanto a mãe de T’ô puxava a parte da frente. Ambas as mãos segurando os varais da carroça, e uma correia amarrada na frente do veículo e passando em volta dos ombros da mulher, ela avançava e puxava com todas as forças. Graças às crianças que empurravam a parte de trás, ficou mais fácil para ela puxar a carroça até o mercado. Habitualmente era mais cansativo com a única ajuda da frágil T’ô.

T’ô ficou tagarelando desde a Aldeia de Cima até a Aldeia de Baixo. Dizia para Thach Lang olhar à esquerda e à direita e novamente à esquerda e perguntava se estava vendo tal casa, tal ou tal árvore ou jardim. Assim ela sabia a cada instante o trajeto. Chegaram finalmente ao mercado da Aldeia de Baixo. Era somente um mercadinho à-toa, muito pequeno. No entanto, naquele dia, havia muita gente, talvez mais de cem pessoas. Quando acabaram de vender a lenha toda, a mãe de T’ô comprou arroz, sal, uma garrafa de molho de peixe e um punhado de peixinhos ainda vivos que o peixeiro embrulhou numa folha de bananeira. Também comprou um pastel de banana e um bolinho de arroz-doce, recheado com feijões, para cada uma das crianças. Disse para colocar todas as compras na carroça e esperá-la enquanto ia comprar óleo para a lamparina. Pegou a garrafa e dirigiu-se para a loja de óleo.

As crianças esperaram a sentaram nas raízes de um grande flamboyant pertinho da feira. A carroça estava na sombra da árvore. Comeram alegremente os docinhos e bolinhos. Estavam mesmo mais felizes de poder comê-los perto do mercado. T’ô tinha exatamente acabado o pastel e começava a saborear o bolinho quando ouviu um tiroteio no mercado e gritos: "Alerta! Alerta!" Num segundo, o mercado pareceu uma colméia alvoroçada. Balas perdidas assobiavam acima de suas cabeças. As pessoas corriam em todos os sentidos abandonando tudo. T’ô apertou a mão de Thqch Lang e ambos caíram por terra perto da grande árvore.