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A volta para casa
Texto de Thich Nhat Hanh,
extraído do livro"Flamboyant em chamas"

Tão logo acordou, de manhã cedo, T’ô soube que havia uma grande aglomeração na praça do mercado. Thach Lang já tinha acordado e estava calmamente sentado, tomando conta de T’ô. Contou que havia muitos homens armados, discutindo com aldeões, interrogando-os. T’ô entendeu que pessoas do governo tinham vindo do quartel-geral. Ela desceu da carroça.

— Vamos, mano Thach Lang. Vamos pedir para eles encontrarem nossa mãe.

Thach Lang também desceu e, enquanto se aproximavam do soldado, T’ô perguntou:

— Por favor, senhor, ajude-nos a encontrar nossa mãe.

Thach Lang falou mais alto:

— Senhor, minha irmãzinha não pode enxergar. É cega. Descemos ontem da Aldeia de Cima com nossa mãe. Ela estava no mercado quando começou a batalha. Não sabemos agora onde ela está.

Thach Lang falou com tanto desembaraço e com tal cortesia que T’ô ficou impressionada. Mas, ao invés de responder, o homem dirigiu-se a outro e falou com ele em voz baixa. Este último tinha uma voz autoritária. Perguntou o nome da mãe.

—Senhor — respondeu T’ô — minha mãe é a senhora Ba Ty. É lenhadora. Nossa casa fica perto da floresta Dai Lão, na Aldeia de Cima.

O comandante (T’ô entendeu que era o chefe do grupo) voltou-se para os aldeões e perguntou se alguém sabia alguma coisa a respeito dessa mulher. Disseram que ela não estava nem entre os mortos nem entre os feridos. Alguém sugeriu que ela podia ter sido levada pelos atacantes. O homem voltou-se para as crianças, disse para elas voltarem para casa e esperarem.

— Vocês devem voltar para casa e não se preocupar. Tão logo tivermos notícias de sua mãe, mandaremos informações.

As duas crianças, obedientes, voltaram para perto do flamboyant. Empurrando e puxando a carroça, voltaram para a Aldeia de Cima. A volta foi fácil sem a carga de lenha. Porém não falaram nem riram alegremente como tinham feito na ida. Thach Lang já conhecia o caminho. Puxou a carroça sem nunca perguntar o caminho.

Chegaram em casa quando o sol já estava alto. Thach Lang carregou para dentro as coisas que a mãe de T’ô havia comprado no dia anterior. T’ô seguia Tach Lang. Sem a mãe, a casa parecia tão vazia e tão fria! T’ô perguntou a Thach Lang se estava com fome, mas nem um nem outro estava com vontade de comer. Saíram e sentaram-se na soleira da porta e ficaram espreitando em silêncio.

Em seguida, Thach Lang propôs que T’ô pegasse a flauta e fosse com ele até o riacho. Embora ela estivesse tão ansiosa e não estivesse com vontade de tocar, T’ô atendeu. Ele falou:

— Os peixinhos devem estar mortos agora.

Thach Lang foi procurar uma bacia, encheu-a de água e colocou dentro o pacote, todo embrulhado com folha de bananeira. Após um momento disse:

— Quase todos estão mortos. Apenas dois sobreviveram. Dois bem pequeninos: um cor-de-rosa e outro prateado. Vamos colocá-los no riacho.

Thach Lang carregou a bacia e T’ô, a flauta. Desceram a colina com dificuldade. Quando atingiram o regato, ajoelharam-se e, com ambas as mãos, libertaram os dois peixinhos. Thach Lang se debruçou sobre a água e deixou-os irem.

— Pois é, T’ô, nós os colocamos no riacho.