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A prisão
Texto de Thich Nhat Hanh,
extraído do livro"Flamboyant em chamas"

Agora, tinham-se calado os canhões. T’ô pensou que tudo se passava como se a batalha nunca tivesse acontecido. Havia sido apenas um pesadelo. Os passarinhos estavam voando novamente. De todos os lados, o vento tinha amainado. As crianças seguraram-se pela mão e ficaram de pé em silêncio pois ao seu redor o mundo tinha silenciado. A leste, começa’ a despontar a aurora.

A vida recomeçava suavemente seu curso na pequena aldeia, embora ainda não houvesse amanhecido e que tudo ainda estivesse banhado numa espessa neblina branca. Então apareceram vários homens com tochas acesas nas mãos. A morte estava agora afastada e desde já recomeçava a reconstrução. Novamente, projetou-se o envio de novos reforços em vista de um novo ataque e a petição foi enviada ao quartel-geral do distrito,

Era dia claro agora. As crianças, desconhecidas pela população local, foram detidas e levadas ao quartel-geral por um destacamento de patrulheiros. Alguns desses homens, militares e civis, ficaram de repente com muita raiva e ameaçaram as crianças de fuzilá-las imediatamente. Thach Lang olhou espantadíssimo para eles. Não sabia o que significavam as palavras "correio", "batidas", "espiões". Mas T’ô estava aterrorizada. Chorou convulsivamente e começou a contar aos homens tudo o que tinha acontecido aos dois. Era óbvio que os homens não acreditavam neles. Mas, ao invés de fuzilá-los, o comandante, que parecia não concordar com seus homens, ordenou que as crianças fossem levadas ao quartel-geral do distrito e então enviadas às autoridades civis.

Viaturas do exército levaram as crianças ao posto policial da capital do distrito, onde deram comida para eles. Passaram a noite lá mesmo, com apenas um cobertor e uma esteira. Três dias depois, foram levados à capital da província e enviados a um centro de reeducação de jovens.

Era uma vasta área onde, em alguns lugares, apareciam construções baixas e compridas, de altos muros com cacos de garrafa em cima. Foram levados a uma sala onde estavam sentados uma datilógrafa e um inquiridor. T’ô disse logo que seu nome era Hoàng Thi T’ô, que ela tinha nove anos, estava no curso médio e que era a filha do senhor e senhora Hoàng Vãn Tý, lenhadores na Aldeia de Baixo, distrito Dai Lão. Também disse que Thach Lang era seu irmão, que ele tinha doze anos, mas que não estava na escola porque devia ficar em casa para ajudar a mãe viúva. Declarou ainda que o pai tinha sido morto numa batalha quando soldado. O interrogador pediu então a Thach Lang para dizer tudo aquilo que sabia a respeito do ataque de Phüóc Binh, ocorrido quatro dias antes, e dizer francamente se trabalhava para os rebeldes. Thach Lang fez exatamente o que lhe tinha sido pedido, relatando todos os pormenores desde o dia em que tinha ido procurar a mãe até o dia de sua própria detenção. Embora não enxergasse, pareceu a T’ô que tudo que Thach Lang havia dito a propósito dos homens armados na jângal tinha levantado suspeitas do interrogador. Ele permaneceu sentado bastante tempo, silencioso, e então ordenou que Thach Lang fosse levado ao campo A, enquanto T’ô ao campo D. A secretária, alta e esguia, pegou a mão de T’ô e disse a Thach Lang para segui-las. Se bem que estivessem em campos diferentes, poderiam se ver duas vezes ao dia, após o almoço e após o jantar. Ela acrescentou que, em caso de emergência, sempre poderiam pedir licença para se encontrarem logo. Thach Lang compartilhou o quarto com um rapazinho dois anos mais velho do que ele. A colega de quarto de T’ô chamava-se Lê, quatro anos mais velha do que ela.

Embora T’ô tivesse licença de participar de todas as atividades da escola, não podia enxergar o que a professora escrevia no quadro, nem ler os livros que lhe davam. Mas quando surgiam assuntos que não exigissem a visão, sempre era ela a primeira da turma. Somente após cinco dias tornou-se capaz de se deslocar sem guia através do centro de reeducação. Sua colega de quarto, embora um pouco levada e de gênio difícil, afeiçoou-se a ela: T’ô era muito boazinha e fácil de convívio.

Quanto a Thach Lang, ele foi para a aula, mas não pode continuar pelo simples motivo de não saber ler. Pediu e obteve a autorização de ficar na turma de T’ô e sentou-se ao seu lado. Após as refeições, ela lhe ensinava as bases da leitura. Ele aprendeu depressa. Em seguida, T’ô mostrou-lhe a misteriosa complexidade da matemática. Chegou um dia em que ele ficou completamente iniciado às quatro operações: adição, subtração, multiplicação e divisão.

Havia muitas crianças no centro e todas eram boazinhas e amigáveis, mas, para alguns "machões", a grande alegria parecia consistir em aborrecer os outros. Conquanto a disciplina fosse bastante rígida, alguns rapazes atacavam os mais quietos, brutalizando-os e surrando-os. Um dia, o próprio Thach Lang foi atacado por dois rapazes mais velhos, simplesmente porque estava sorrindo enquanto tentavam intimidá-lo. Embora com a cabeça sangrando, Thach Lang não se defendeu. Estava apenas muito admirado que alguém o brutalizasse sem que ele lhes tivesse feito mal algum. T’ô, por acaso, estava lá e soube que ele tinha apanhado, embora não pudesse ver nada. Correu em busca de ajuda. Quando chegaram os homens do centro, Thach Lang estava caído no chão sujo e sangrava abundantemente. Foi levado à enfermaria e T’ô pediu licença para se sentar ao lado. A partir daquele dia, os outros começaram a chamar Thach Lang de "bobão" pelo fato de não ter revidado ao apanhar. E T’ô, naturalmente, foi chamada de "ceguinha".

No fim daquele ano, graças à sua conduta exemplar e às suas notáveis aptidões, Thach Lang deixou o Centro de Reeducação e foi mandado à Escola dos Pupilas da Nação. Também T’ô foi transferida para a escola dos cegos em Bien Hoa. Ficaram ambos em pânico quando souberam de seus novos destinos. Pensaram que, uma vez separados, nunca poderiam reencontrar a mãe. Mas a decisão estava tomada. Entretanto, foram autorizados a escreverem-se e, de quando em quando, Thach Lang poderia visitar T’ô na escola dos cegos.