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Para que os adultos tinham olhos?
Texto de Thich Nhat Hanh,
extraído do livro"Flamboyant em chamas"

T’ô acordou no meio da noite. Ouviu ao longe o tiroteio dos canhões e encheu-se de tristeza. Havia sonhado justamente com Thach Lang. Ele tinha voltado e ambos andavam lado a lado. Já havia seis meses agora que ela estava sem notícias dele. Ela o tinha perdido do mesmo modo que perdeu a mãe.

Quando estava na Escola dos Pupilas da Nação, Thach Lang havia escrito quatro vezes para T’ô. E quando foi enviado à Academia de Cadetes, em Vung-Tàu, escreveu novamente. Desde então acabaram-se as notícias. T’ô guardava com cuidado as cartas de Thach Lang num potinho de estanho, no meio das roupas e, de vez em quando, pedia à Grande Irmã Oitava, funcionária da escola, que lesse essas cartas para ela. Como a correspondência tinha parado de chegar, T’ô pediu à administração da escola para conseguir notícias de Thach Lang. A Academia de Cadetes respondeu que, em razão de seu mau comportamento, Thach Lang tinha sido enviado para um novo Centro de Reeducação e que, após sua partida, não fazia idéia do que poderia lhe ter acontecido.

T’ô não conseguia acreditar que Thach Lang tivesse sido mandado ao Centro de Reeducação por causa de seu mau comportamento. Ela nunca conheceu um rapaz tão meigo e tão gentil. Só havia um problema com ele: não tinha medo de nada, nem de ninguém, nem mesmo dos "poderosos", tais como os homens da administração da escola. Thach Lang nunca mostrou nem agressividade, nem mesmo desprezo, para quem quer que fosse. Talvez se ela estivesse com ele, essas desgraças não teriam acontecido. Como agora, ela, uma ceguinha, poderia encontrar os dois seres que mais amava no mundo inteiro?

T’ô aprendeu muita coisa durante esses últimos seis meses na Escola dos Cegos, inclusive a ler com os dedos. Ela agora lia tocando folhas de cartolina sobre as quais tinham sido impressos pontos de diferentes profundidades. Quando seus dedos passeavam sobre esses pontos, materializavam-se imagens no seu espírito e um sorriso aparecia nos lábios. Era uma pena que muitos livros desses não estivessem disponíveis! Também aprendeu a escrever esse tipo de letras com uma caneta sem tinta. A senhora que dirigia a escola até mesmo tinha autorizado T’ô a aprender a servir-se da máquina de escrever especialmente feita para cegos.

T’ô aprendeu também alguns trabalhos manuais: tecer bolsas, fazer cestas e costurar. Participou também do grupo musical, pois tocava tão bem flauta! Entretanto, a escola não permitia tocar senão músicas folclóricas, as que falavam da beleza da vida rural numa época mais tranqüila. Ela não gostava desta restrição. Se tivesse podido fazer o que queria, tocaria suas músicas, aquelas que tinha inventado, que falavam de sua dor e de suas esperanças, as suas e as de milhares e milhares de crianças como ela. Achava difícil entender por que os adultos tentavam esconder o que lhe parecia ser uma verdade universal: em todos os lugares onde Thach Lang e ela passaram só existiam tiros e matanças, sofrimento e morte. Enquanto todos tinham pensado que a vida na cidade era pacifica e feliz, a última festa do Tôt foi, entretanto, testemunha da mais terrível destruição. Havia rumores que até em Saigon, a capital, as casas haviam sido destruídas, bem como nos arredores; que corpos se amontoavam nas ruas e não eram apanhados antes de que começassem a ter mau cheiro. Havia tantos mortos que buldôzeres eram utilizados para empurrar os cadáveres na fossa comum. Os hospitais estavam lotados de feridos adultos e crianças. Mesmo em Bien Hoa, a escola de T’ô tinha sido bombardeada e várias colegas suas estavam mortas. Era um fato, entretanto, que, de um modo ou de outro, as pessoas continuavam a fingir que nada, nada mesmo, estava acontecendo.

T’ô sabia também que nada no mundo poderia fazer desaparecer a angústia de seu coração. Justamente no dia anterior, enquanto o ônibus da escola parava um instante em frente ao hospital da cidade, ela "viu" uma garotinha sentada na calçada, diante da porta, cantando uma música:

Eu choro pelas nuvens

Que dormem nas montanhas;

Eu choro pelas árvores

Que caem nas colinas;

Choro por ti, Irmão,

Cujo sangue secou;

Choro por nossa terra

Embebida de pranto;

Eu choro pelas aves

Que deixaram a floresta;

Eu choro pelas noites

De velórios sem fim;

Choro por ti, Irmã,

Cujo destino é dor.

Minhas lágrimas sem nome

Deixarei para vós

Com essa terra natal.

T’ô percebeu que a menina tinha mais ou menos sua idade. Só de ouvi-la, T’ô sabia que também era cega. E, ainda que quem a acompanhava com o violão devia ser um inválido de guerra, que somente podia sobreviver levando sua filha a cantar nas ruas. Era assim que eles podiam comer.

A menina cantava e T’ô sabia que, embora ela fosse cega, podia perceber tudo que se passava. E, então, se perguntou: "Para que os adultos tinham olhos?"