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A greve de fome
Texto de Thich Nhat Hanh,
extraído do livro"Flamboyant em chamas"

Pegou a mão de T’ô e, seguindo o muro da escola, tentaram sair da cidade. O passarinho dourado voava o tempo todo acima deles, mostrando o caminho.

T’ô puxou um canto do seu camisão bá-ba para enxugar suas lágrimas e perguntou:

— Aonde iremos agora, Thach Lang?

Embora somente nove meses tivessem passado, pareceu-lhe que Thach Lang havia ficado nove anos mais velho e estava certa de que ele saberia responder à sua pergunta.

Primeiramente, vamos sair dessa cidade. Depois tentaremos encontrar nosso caminho para ir para a floresta Dai Lão. Devemos voltar em casa e ver se Má voltou. Depois preciso voltar para minha casa, lá no alto da montanha. Você sabe, há doze meses que parti.

— Mas como você pode saber que caminho iremos pegar agora? A casa está tão longe! Vamos nos perder.

— Não se assuste! O passarinho dourado nos mostrará o caminho. Ficou comigo durante toda a minha volta das montanhas de Lang Son. Ajudou-me a encontrá-la, sabe?

Sim, realmente: Thach Lang tinha chegado até ela partindo das longínquas florestas e montanhas do norte! Ela estava louca de alegria! Pensou que se ele foi capaz de reencontrá-la, também o seria para encontrar a mãe deles. Lembrou-se do sonho que teve na noite anterior, no qual o velho de barba branca lhes tinha dado um sol que era tão grande quanto uma cabaça, de um branco opaco como uma bolinha de naftalina, com a transparência de uma vela, mas que, de vez em quando, brilhava como uma concha de nácar. Ela contou seu sonho a Thach Lang e andou ao seu lado. Ele escutava atentamente. Perguntou, então, tudo o que tinha ocorrido desde o dia em que ela foi mandada à escola das crianças cegas, em Bien Hoa. Ouviu em silêncio, exceto para perguntar um ou dois detalhes. Logo chegaram além dos limites da cidade. Aprofundavam-se agora cada vez mais na floresta de seringueiras. Andaram o dia inteiro com apenas duas curtas paradas para descansar um pouco. O passarinho dourado, voando acima deles, continuava a ser seu fiel companheiro. Ao chegar num canal raso, encontraram uma velha canoa abandonada. Serviram-se dela como abrigo, passando aí a noite.

Andaram vários dias por florestas e colinas rumo ao nordeste. Um dia, atravessaram um bananal. Descobriram que bananas nativas eram miúdas mas gostosas. Após terem comido as bananas, beberam água de um regato que corria pertinho. Numa outra ocasião, encontraram um bambuzal: cortaram alguns brotos que assaram num fogo de folhas secas de bambu. Aproximadamente uma semana depois, chegaram à clareira onde, uma noite, tinham visto aqueles soldados acamparem perto do riacho e cantarem em volta de uma fogueira. Sempre, desde aquela noite, T’ô lembrava da triste canção de soldados guardando um posto avançado, longe de casa...

Foi durante essa caminhada que Thach Lang falou para T’ô a respeito dos dias em que tinha estado na Escola dos Pupilas da Nação. Ele fez vários amigos entre os colegas cujos pais e irmãos tinham morrido; na guerra, é claro! Formaram um conjunto: cantavam seu ódio à guerra e seu desejo de paz. Quando Thach Lang cantava, emocionava tanto seus colegas que estes o tinham escolhido para dirigir seu grêmio artístico. Eles não se apresentavam apenas na escola, mas também em reuniões intercolegiais. Suas músicas comoviam profundamente tanto adultos quanto crianças. A reação de seu auditório talvez tivesse sido até demasiadamente entusiasta, segundo a opinião da administração da Escola. Por isso, o conjunto recebeu cópias de músicas das quais ignorava a proveniência e disseram que somente podia cantar essas músicas. Thach Lang absolutamente não gostava delas. Seus amigos e ele recusaram-se a cantar essas músicas. Ameaças e castigos e depois favores e agrados não influenciaram Thach Lang, que era, segundo a escola toda sabia, a alma do grupo. Foi expulso e mandado para a Escola de Cadetes em Vüng-Táu onde a disciplina não era mais a de um colégio, mas sim a do exército.

Na Escola de Cadetes, Thach Lang fez novos amigos, talvez uma centena! Um belo dia, os jovens apresentaram um requerimento à escola: em vez de serem preparados com o objetivo de se tomarem combatentes, queriam ser treinados para serem jovens operários sociais: poderiam ir ajudar os aldeões a reconstruírem as casas, a ararem seus campos e até mesmo a participarem do grande movimento nacional trabalhando para o próximo fim da guerra. Esses estudantes da Escola de Cadetes engajaram-se em ações tão "subversivas" que criaram um verdadeiro rebuliço, não apenas no próprio estabelecimento, mas também nas esferas superiores. Thach Lang foi acusado de "propaganda em favor do inimigo" e levado à prisão de Chí-Hoà. Lá, viu monges budistas cujos braços eram amarrados com ferros. Perguntou-lhes o que haviam feito para sofrerem tal tortura. Disseram que era porque pediram publicamente aos combatentes de ambos os lados para pararem de atirar, para se sentarem e discutirem a respeito da paz. Thach Lang já estava há duas semanas em Chí-Hoà, quando trezentos monges e perto de duzentos outros prisioneiros começaram uma greve de fome. Numa noite, ele foi brutalmente despertado e levado para uma sala onde disseram que ele, com suas canções, havia incitado os monges budistas a continuarem a greve. Depois disso, Thach Lang foi conduzido algemado, de caminhão, a um campo de prisioneiros políticos da Primeira Região Militar do País, na parte norte do Vietnã do Sul.