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A revelação
Texto de Thich Nhat Hanh,
extraído do livro"Flamboyant em chamas"

Foram necessárias duas semanas para Thach Lang e o passarinho dourado atingirem Bien Hoa. Ao se aproximarem dos muros da escola de cegos, Thach Lang ouviu o som familiar da flauta de T’ô...

Thach Lang disse então a T’ô que queria levá-la no alto da montanha onde ela poderia beber do orvalho numa cavidade do rochedo e que ele pegaria essa água para banhar-lhe os olhos. T’ô sentiu subir dentro de si uma grande esperança, como um rebento novo de primavera, e estava sentindo desde já que a água milagrosa alcançava seu coração.

Bateram um papo tão animado que chegaram à Aldeia de Cima sem mesmo notar. Sua velha aldeia parecia arruinada. Tinham a impressão que havia menos habitantes agora. Thach Lang podia ver que a guerra não tinha poupado nem mesmo este cantinho tão modesto. Logo depois, Thach Lang distinguiu a velha casa de T’ô e soltou gritos de alegria. T’ô levou as mãos ao peito: seu coração batia fortemente. Perguntou:

— Ela ainda está de pé, Thach Lang? Você acha que Má pode estar dentro?

Thach Lang disse-lhe que a casa não tinha nada, mas que ele não via ninguém dentro. Atravessaram o córrego e seguiram o caminho que serpenteava pela colina. Thach Lang empurrou a portinhola da casa de bambu. Estava vazia e fria. Agora T’ô não precisava mais ser guiada pois conhecia cada recanto da casa. Dirigiu-se aos vários cômodos, à cozinha, ao tanque na área e, enfim, à horta. Só sentia o vazio por todo lugar. Era evidente que sua Mãe nunca tinha voltado desde que ela e Thach Lang tinham partido à sua procura. Cheia de dor, foi até a porta e sentou-se no degrau.

Thach Lang então veio ao seu encontro e disse-lhe para descer com ele até o regato. Lembrou a T’ô que eles haviam devolvido dois peixinhos à liberdade, um era rosa e o outro prateado. Ele disse:

— Você se lembra? Eles começaram sua viagem no mesmo dia do que nós. Gostaria de saber se encontraram a mãe deles. Se encontraram, bem que poderiam voltar todos juntos para cá!

Nos olhos de seu espírito T’ô podia ver os dois peixinhos nadando lado a lado. Desejou que, enquanto eles estavam procurando sua mamãe peixe, não houvessem sido separados como ela e Thach Lang haviam sido. E se eles foram realmente separados, ela esperava que tivessem sido reunidos assim como ela e Thach Lang estavam agora. Apareceu um sorriso em seus lábios: naquele dia, os dois peixinhos eram do tamanho de um dedinho. Agora, um ano tinha se passado: eles deviam estar do mesmo tamanho da mãe!

T’ô e Thach Lang passaram a noite na casinhola. Na manhã seguinte, levantaram cedo e começaram a caminhada para a floresta de Dai Lão onde poderiam começar sua ascensão para o cume da montanha.

Já tinham andado a metade do dia quando o caminho começou a subir cada vez mais. Se bem que não pudesse ver o passarinho dourado em lugar nenhum, Thach Lang não precisava mais de guia: conhecia bem o caminho. Tornou-se cada vez mais difícil galgar o aclive, especialmente para T’ô, que não podia enxergar. Foram, entretanto, perseverantes e, apos três dias de esforços dolorosos, atingiram a base do cume quando caía a noite.

— Quase chegamos, T’ô! Vamos primeiro descansar um pouco aqui — disse ele.

E conduziu-a para uma grande laje na qual a fez sentar. Quando viu que sua testa estava molhada de suor, apanhou uma grande folha e abanou-a.

T’ô sentou e respirou profundamente durante um momento e começou a sentir-se melhor e mais feliz. Deu-se conta, de repente, que o ar em sua volta era extremamente puro e fresco. Também havia um perfume: ficou curiosa de saber se provinha das plantas e flores ou do céu e das nuvens. Sentiu-se mais leve, como se flutuasse... Era a terra de Thach Lang. Aqui ele tinha nascido, daqui tinha vindo. Ela perguntou:

— Há casas aqui, Thach Lang? Você me levará à sua casa, não é? Para conhecer seu pai e sua mãe. Ficarão tão contentes de voltar a vê-lo!

Thach Lang lembrou que a primeira vez em que T’ô e a mãe dela lhe fizeram perguntas sobre sua casa e sua família, para ele foi difícil de responder. De fato, nada contou e provavelmente pensaram que lhe era doloroso demais contar. Então, não insistiram.

Mas agora, pensou, deveria contar a verdade. Jogou a folha fora e disse a T’ô:

— Aqui é donde eu venho. É tudo que sei. Não tenho pai nem mãe da mesma maneira que vocês têm. Nasci há muito tempo. E possível que, desde que nasci, a lua cheia tenha passado mil vezes sobre o cume dessa montanha, talvez dez mil vezes. Não, não há casas aqui. Somente eu, seu irmão Thach Lang, sentado aqui, durante dias e noites, ouvindo os cantos do céu, das nuvens, do vento, das flores, da relva e dos passarinhos. E é por isso que eu sei cantar, embora ninguém me tenha ensinado.