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O rochedo
Texto de Thich Nhat Hanh,
extraído do livro"Flamboyant em chamas"

Com muito cuidado, Thach Lang pegou o orvalho em suas mãos. Subitamente, T’ô sentiu que o tempo havia parado, que, acima dela, a lua e as estrelas vigiavam-na solenemente. Também teve a impressão que, ao lado de Thach Lang, estava o velho de barba branca que ela tinha encontrado no reino das águas e que ele lhe entregava um grande girassol. Com os joelhos tremendo um pouco, T’ô ajoelhou-se na pedra. Thach Lang levou as mãos aos lábios de T’ô. Ela bebeu o orvalho com o mais profundo respeito. E, enquanto descia por ela, sentiu-se transformada: uma sensação de bem-estar a invadiu e preencheu seu corpo todo. Respirou longa e profundamente. Sentiu que seus medos todos, seus temores, suas dores, tinham se dissipado em um instante.

Thach Lang juntou as mãos, pegou o orvalho e o levou até os olhos de T’ô. e, juntos, lavaram-nos. Levou-a então para uma grande laje e, quando ela se deitou, ele tirou o casaco e cobriu-a. Disse-lhe:

— Cubra bem a cabeça, T’ô, senão a friagem do orvalho lhe dará dor de cabeça. Durma agora. Ficarei perto de você.

T’ô estava deitada, muito tranqüila desfrutando a calma que a envolvia. Novamente teve a impressão de estar numa ilhota, no meio do oceano. Ao longe, soprava o vento. De vez em quando, ouvia uma gota de orvalho cair no chão. Sabia também que Thach Lang respirava leve e regularmente. Pensou que também ela deveria adormecer. Mas continuou a ouvir a respiração de Thach Lang. Sua respiração agora parecia fundir-se com o sopro, a passagem, o barulho do vento, longe, longe...

Acordou com o canto dos passarinhos. Levou as mãos aos olhos tendo um choque ao perceber uma impressão estranha e familiar. Sim, fazia dia claro e era a luz do sol. Ela não era mais cega. Thach Lang a tinha realmente ajudado a ver de novo. A luz era tão fulgurante que T’ô colocou as mãos sobre os olhos, mas tentou ver através dos dedos. Cá e lá, muito confusamente, podia ver as pedras e o céu. Um momento mais tarde, retirou as mãos do rosto.

A primeira coisa que viu em sua magnífica totalidade foi um imenso rochedo, três ou quatro vezes maior do que a casa de seus pais. Esse penhasco erguia-se contra o azul profundo do céu sem uma nuvem. O céu era imenso, infinito: estendia-se acima e além do cume e envolvia as curvas da montanha de todos os lados; T’ô estava realmente numa ilha.

Voltou-se e viu que floresta e montanhas, mais abaixo, ainda estavam banhadas de neblina matinal. Na noite passada, havia sido por aí que Thach Lang e ela haviam subido. Tinha a impressão, aqui, de estar mais perto do céu e das nuvens do que a própria montanha. A imensidão e a profundidade que a envolvia deram-lhe a sensação de ter escapado, uma vez por todas, de uma existência cheia de sofrimento e dor.

Olhou em volta, mas não viu Thach Lang em lugar nenhum. Chamou:

— Thach Lang!

O som de sua própria voz rolou no espaço, atingiu árvores, neblina, pedras e voltou para ela, Não houve resposta. Novamente, colocou as mãos em volta da boca e gritou o nome de Thach Lang, com todas as suas forças. Porém, ninguém respondeu.

Ela começou a entrar em pânico. Escalou o rochedo mais perto de si e observou o horizonte em direção ao sol levante. Não havia nada, nenhum sinal. Aprontava-se para descer quando olhou novamente para o céu e seus olhos detiveram-se sobre o cume do mais alto pico. A visão tirou-lhe o fôlego. O rochedo tinha a forma e o porte de Thach Lang. Sim, era a silhueta de Thach Lang sentado: ele estava acenando para ela. Como era estranho: nunca tinha visto Thach Lang antes e, entretanto, agora que podia enxergar novamente, sabia que o rochedo parecia com ele. Era uma imagem que ela tinha formado apenas com o som da voz de Thach Lang, que seus ouvidos tinham ouvido, e com as linhas e formas do rosto que ela tinha apalpado. Agora, podia ver esta imagem com os próprios olhos, pela primeira vez e para sempre!

T’ô enxugou os olhos e olhou de novo. Agora via que o rochedo não lhe fazia mais sinal, embora parecesse ainda muito com Thach Lang. Compreendeu então que Thach Lang tinha voltado de onde viera. Tinha voltado novamente a ser um rochedo.