Escolha
 
logo FALE CONOSCO
shunya meditação mestres textos zen dzogchen links

Você e eu somos apenas um
Texto de Thich Nhat Hanh,
extraído do livro"Flamboyant em chamas"

Dia e noite eu me sentava no alto da montanha e ouvia o canto do céu, das nuvens, da chuva, do vento, das flores, da relva e dos passarinhos... Assim, embora ninguém tivesse me ensinado, eu sei cantar." T’ô lembrou que Thach Lang lhe tinha dito na véspera: "Nasci há muito tempo. - desde meu nascimento, o luar passou acima do cume desta montanha mil vezes ou talvez dez mil vezes..."

Pensou que Thach Lang a tinha deixado sozinha no mundo. Ele tinha vindo para estar com ela. Por que não tinha ficado para sempre? "Em verdade, você e eu, somos apenas um, porque eu estou em você e você está em mim. Isso, você não vê agora, mas muito breve você verá. E uma vez que você tenha entendido isso, em qualquer lugar deste mundo que você vá, verá que eu estou aqui, pertinho de você."

T’ô inclinou a cabeça e chorou, pois, afinal, era apenas uma criança. Chorou até que o sol estivesse muito alto no céu, exatamente acima de sua cabeça. Não tinha mais dúvidas agora: Thach Lang a tinha abandonado para sempre. Ele não a tinha amado de verdade, pensou. A própria mãe a tinha abandonado e, agora, Thach Lang. Sozinha, como poderia ela encontrar sua Má?

De repente, passou nela a vontade de voltar a ser cega, para que Thach Lang estivesse novamente junto, para que ela pudesse conversar com ele, tocar sua mão e seu rosto. Com lágrimas nos olhos, levou a flauta aos lábios. Deu livre curso à sua dor através da música! Até mesmo as nuvens que passavam perto da montanha detiveram-se e juntaram-se em sua volta. O passarinho dourado voltou sem que ela notasse. Quando ele começou seu canto, T’ô parou de tocar e prestou atenção. Embora fosse um simples trinado de passarinho, ela entendia o sentido dessa canção. Eis o que disse o passarinho:

Você se lembra do dia

Em que Má trouxe-me aqui?

A primeira vez que eu vim

Pelos cinco agregados

E que eu cheguei a ti?

Mas quando vier o dia

Não me verás mais aqui;

Então, agora, sorria.

Busque-me com toda a calma

Através de toda coisa

Que vai, que volta e que vem:

Através dos sons e das formas

Que nascem, vivem e morrem.

Descobrirás que eu sou

Mas também que nunca vim

Nem tampouco eu parti.

Eu sou a realidade

Para além da imensidão

E para além da percepção...

T’ô escutava o passarinho falar e sabia que eram exatamente as palavras de Thach Lang. Embora não pudesse distinguir exatamente essas palavras, tentou imediatamente gravá-las na mente e no coração a fim de nunca esquecê-las. Então, levantou a flauta e tocou: perguntou ao passarinho por que Thach Lang tinha partido e não tinha voltado para ela. Mas o passarinho apenas cantou mais uma vez a mesma musica, a mesma mensagem.

T’ô entendia o que o passarinho tinha dito, mas também sabia que ela não poderia depreender mais nada. Lentamente, recolocou a flauta no colo. Como Thach Lang não estava mais com ela, como poderia descer da montanha sozinha? Mas uma luz atravessou sua mente: agora, disse de si para si, tinha recobrado a visão, podia então muito bem descer sozinha a montanha. Justamente no dia anterior, lembrou-se, tinha dito a Thach Lang:

"Irmão, quando você está comigo, não sou mais cega: você é minha visão." A partir de agora, pois, já que podia enxergar com os próprios olhos, seria como se Thach Lang estivesse ao seu lado para sempre. Entendeu então o que Thach Lang lhe dissera: " verdade, você e eu somos apenas um, porque eu estou em você e você está em mim. Você não percebe isso agora, mas, muito em breve, você o verá. E quando tiver entendido isso, verá que, onde quer que você vá, estarei aqui, bem ao seu lado." Correu uma lágrima na face de T’ô. Embora esta lágrima viesse de um coração transbordante de tristeza, era, entretanto, apaziguadora. Não achava mais estranho que Thach Lang lhe tivesse dito na véspera: "Amanhã, nós seguiremos rumo ao sol levante e chegaremos em casa." "Nós..." Certamente Thach Lang estará comigo, estará ao meu lado",pensou.

T’ô levantou a cabeça e olhou as árvores, as nuvens, os rochedos, o céu. Teve então a certeza de que Thach Lang também olhava para eles, via-os e transmitia suas imagens para os olhos de T’ô. E todos os sons, os das árvores e os do vento, eram a voz de Thach Lang. Ela apenas devia prestar atenção e, então, ouviria. Pois a partir de agora, não só Thach Lang estava nela mas ele estava em toda parte.

Este pico rochoso, bem lá no alto da montanha, era Thach Lang.

Não, T’ô não ia descer a montanha agora. Queria ficar aqui até o fim do dia. Ela tinha tempo, pois tinha fé agora naquilo que Thach Lang lhe falara: sua Má estava viva e ela a reencontraria. Ela partiria, mas não sozinha, porque Thach Lang estava junto e eles encontrariam sua Má. Iriam procurá-la exatamente como os dois peixinhos tinham feito e como tinha feito também o velho monge. T’ô pensou que, quando tivesse reencontrado sua Má, contaria tudo sobre Thach Lang e tudo que ele tinha feito por ela. E, nesse dia, as pessoas não mais se matariam umas às outras, as casas não seriam mais destruídas e as crianças não vagariam mais como animaizinhos perdidos.

E para mostrar a Thach Lang que agora acreditava realmente no que ele havia dito, T’ô levou sua flauta aos lábios. O céu, as nuvens, a montanha e todos os seus rochedos e todas as suas árvores se reuniram em paz para escutá-la.