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OS ASPECTOS POSITIVOS DA MORAL BUDISTA

O ensinamento do Buda foi descrito em três curtos axiomas:

Pare de fazer o mal;

Aprenda a fazer o bem;

Purifique sua própria mente.

A primeira linha resume o código moral contido nos cinco preceitos. Esta representa, entretanto, apenas a retirada das ervas daninhas do solo, e o trabalho construtivo começa com a segunda linha: aprenda a fazer o bem.

Diversas listas de estados "saudáveis" ou de "coisas a serem incentivadas" estão espalhadas por toda a literatura budista, e estas são contrastadas com estados "não-saudáveis", ou coisas que devem ser desencorajadas. Um dos mais proeminentes estados "saudáveis" é o dãna - que significa "dar".

O dãna adquiriu, com o decorrer dos séculos, um significado mais restrito e materialista - com o princípio do caritas do Novo Testamento. Mas, se observarmos as primeiras descrições e ilustrações do dãna, descobriremos que esta não era a sua intenção original.

O que deve ser incentivado não é o ato de dar às instituições de caridade de tempos em tempos, não éum pagamento mecânico de dízimos, nem tampouco, grosso modo, o hábito de comprar uma "consciência leve" pelo preço mais barato. O dãna implica o desenvolvimento gradativo do desejo de dar - quando quer que surja a necessidade.

Os leitores ocidentais provavelmente compreenderiam melhor o espírito de virtude do dãna budista se nos remetêssemos a uma descrição do caritas da Epístola aos Coríntios:

"E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse meu corpo para ser queimado (como um sacrifício), e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria. O amor é sofredor, ébenigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se enche de soberba... Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal."

Aqui, somos trazidos a um outro aspecto da virtude budista: o mettã. O dãna é uma manifestação superficial de interesse pelo bem-estar de outrem, o mettã (freqüentemente traduzido como a benevolência) engloba tudo que diz respeito a esse bem-estar. Desenvolver o mettã é desenvolver um estado mental onde as alegrias e tristezas, o bem-estar e os problemas alheios sejam tão importantes para mim quanto os meus próprios. O mettã requer a destruição de barreiras no pensamento do indivíduo entre ele mesmo e o resto da humanidade. Diz-se, freqüentemente, que os seguidores do Buda deveriam empenhar-se em sentir por todos os homens - parentes, amigos, conhecidos e inimigos - o mesmo que uma mãe sente por seu filho. É uma tarefa difícil, não resta a menor dúvida, mas, ao mesmo tempo, segundo o código budista, desejável, antes que qualquer progresso no desenvolvimento espiritual seja possível.

Uma outra virtude indispensável, ligada ao mettã, e talvez ainda um pouco mais difícil de ser compreendida por aqueles que não são budistas, é a "transferência de mérito". São Paulo diz que o amor "não busca seus interesses". A virtude budista de transferência de mérito pode ser considerada como um desenvolvimento deste tema. Foi dito «Pare de fazer o mal; aprenda a fazer o bem"; mas a hora chega em que nos devemos dar conta de que na abstinência do mal e na perseguição do bem há um egoísmo inerente. "Torna-se aparente para mim que estou fazendo o bem para que eu possa colher seus benefícios - sejam eles uma forma de respeito crescente pelos outros ou simplesmente por mim mesmo. Estou trabalhando e lutando para que possa ir para o céu - seja este céu um mundo além da morte povoado por anjos que tocam harpas, ou seja ele um estado de bem-estar e auto-satisfação nesta vida." É neste ponto que a prática de "transferência de mérito" deve ser desenvolvida, O budista aprende a desejar que os benefícios de suas boas ações retornem não apenas para ele, mas para toda a humanidade. Cada ato de generosidade, cada ato de amor não deverá mais somar-se à minha conta pessoal, mas sim ao benefício de todos. Mais precisamente como uma corrente que alimenta o oceano e que não é reabastecida pela mesma água, porque a água não flui de volta para ela, mas, com o correr do tempo, pela queda das chuvas.

A prática de transferência de mérito é uma tarefa difícil de se realizar; os obstáculos são muitos e sutilmente disfarçados, embora seja um conceito que muitos de nós deveriam levar em consideração.

Finalmente, neste estudo breve e necessariamente superficial das práticas budistas "saudáveis", devemos considerar a virtude de "regozijar-nos com o mérito de outras pessoas". Que tal virtude seja extremamente difícil de se atingir, podemos deduzir através da leitura das admoestações de Sta. Teresa d’Ávila e do autor de The Cloud of Unknowing.Esse "regozijar-se no mérito de outras pessoas» não pode ser experimentado até que uma considerável quantidade de benevolência (mettã) tenha sido desenvolvida, e até que alguma tentativa de compreender o conceito de "transferência de mérito" tenha sido feita. Regozijar-se com o mérito de outra pessoa pode ser infinitamente mais difícil do que regozijar-se com a promoção de um encontro de outra pessoa que você desejava. Aqui, mais uma vez, a virtude não deve ser cultivada para interesses próprios - porque o Buda disse que não. Regozijar-se com o mérito de outras pessoas, em sua excelência moral e em seu crescimento espiritual, é um dos métodos sugeridos que o seguidor do Buda achará útil na derrubada das barreiras artificiais que erigiu entre si e o outro.