Escolha
 
logo FALE CONOSCO
shunya meditação mestres textos zen dzogchen links

A queda
Texto de Charlotte Joko Beck,
extraído do livro"Nada Especial"


Houve certa vez um homem que subiu ao topo de um edifício de dez andares e saltou. Quando passava pelo 59 andar em seu mergulho rumo ao chão ouviram-no dizer: "Até aqui, tudo bem!".

Rimos desse homem porque sabemos o que o espera em poucos instantes. Como é que ele pode dizer que tudo está indo bem até ali? Qual é a diferença entre o segundo em que ele está no 59 andàr e o segundo imediatamente anterior ao seu choque contra a calçada? O segundo logo antes de ele bater no chão é o que a maioria de nós chamaria de crise. Se pensamos que só temos alguns minutos ou dias antes de morrer, a maioria dirá: "Isso é uma crise". Por outro lado, se nossos dias estão transcorrendo normalmente (o trabalho de sempre, as pessoas habituais, as incumbências conhecidas), a vida pode não parecer incrível, mas, pelo menos, estamos acostumados com ela. Nessas fases não sentimos que estamos em crise e talvez não nos sintamos motivados a praticar com diligência. Consideramos essa suposta diferença entre crise e não-crise.

O sesshin é uma crise artificial. Quando nos comprometemos com um retiro, temos de ficar e lutar com uma situação difícil. No final do período de retiro a maioria das pessoas terá superado essa crise — o suficiente, pelo menos, para enxergar sua vida de uma maneira um pouco diferente. É triste que nós não compreendamos que cada momento de nossas vidas — beber uma xícara de café, andar pela rua para comprar um jornal — é isso. Por que não apreendemos essa verdade? Não a apreendemos porque nossas pequenas mentes pensam que este segundo que estamos vivendo tem centenas de milhares de segundos que o precederam e centenas de milhares de segundos ainda por vir, por isso afastamo-nos do viver de fato nossa vida. Em lugar disso, fazemos aquilo que os seres humanos passam sua vida toda fazendo: a completa perda de tempo de tentar mentalmente esquematizar as coisas para que nunca tenhamos de sofrer uma crise. Gastamos todas as nossas energias tentando ser amados, bem-sucedidos, boas pessoas, agradáveis, firmes (ou instáveis), dependendo do que pensamos que vai dar mais certo no nosso caso. Temos esquemas. A maior parte de nossas energias é canalizada para esses esquemas, conforme tentamos lidar com nossa vida de tal maneira que nunca cheguemos no fundo do poço. Por isso é que se torna tão incrível chegar perto desse fundo. É por isso que as pessoas seriamente doentes, ou que passam por uma circunstância muito destruidora em sua vida, em geral despertam. Despertam para o quê? Para o que elas acordam?

ALUNO: Para o presente?

JOKO: Sim, e o que mais?

ALUNO: Para a impermanência?

JOKO: Impermanência. Certo, é verdade.

ALUNO: Para as sensações corporais.

JOKO: Sim, e mais que isso, para o que acordamos?ALUNO: Para o deslumbramento diante disso tudo.

JOKO: O deslumbramento deste segundo. Quando este segundo não é eu, nem nenhuma outra coisa, mas o simplesmente, Oh! — e isso não significa nenhuma emoção gigantesca, só o apenas — então todas as nossas preocupações são inexistentes. Em geral, porém, só temos essa percepção quando nos vemos muito pressionadós, tanto que nossa mente é arremessada para o momento presente. Então podemos esquecer todos os nossos esquemas de nos consertar, de consertar alguém ou as circunstâncias. A maioria das pessoas passa de 80 a 90% do seu tempo acordada, tentando evitar o fundo do poço. No entanto, não podemos evitá-lo. Todos estamos a caminho do fundo, todos nós. Não podemos evitar o fundo, mas passamos quase nossa vida toda tentando isso mesmo.

Despertar significa dar-se conta de que a nossa é uma situação sem esperança e maravilhosa. Não nos resta fazer nada exceto viver apenas este segundo. Quando estamos em crise, ou em sesshin, podemos não despertar por completo, mas acordamos o suficiente para que mude o modo pelo qual encaramos a vida. Percebemos que as nossas manobras habituais — preocuparmo-nos com o passado, projetar um futuro imaginário — não fazem sentido, são um desperdício de segundos preciosos.

De um ponto de vista, estamos sempre em crise: estamos sempre caindo até o fundo. Segundo uma outra perspectiva, não há crise. Se iremos morrer em um dado segundo, há alguma crise? Não, existe só esse segundo. Num segundo estamos vivos; noutro, mortos. Não há crise. Existe só o que existe. Porém a ânsia humana de fazer o impossível nos mantém afundados na lama. Gastamos a nossa vida tentando evitar o inevitável. Nossas energias, nossas emoções, nossos projetos encaminham-se para conseguir dinheiro, sucesso, fazer com que todos gostem de nós, porque no íntimo acreditamos que isso tudo irá nos proteger. Uma de nossas mais poderosas ilusões é que estar amando alguém pode nos proporcionar uma verdadeira proteção. Na realidade, não existe proteção nem resposta. Nossas vidas são absolutamente sem esperança. É por isso que são maravilhosas. E não é nada de mais.

Quem quer ser bem-sucedido? Quem quer ser apreciado? Todos nós. Nada de errado com esses desejos — a menos que acreditemos na ilusão. Até mesmo querer US$ 1 milhão pode ser muito engraçado — tão divertido quanto qualquer outro jogo — se apenas o virmos como um jogo engraçado e não ferirmos os outros enquanto o jogamos. Mas não vemos isso como um jogo e por isso ferimos os outros enquanto perseguimos este que se torna um plano letal.

Iluminação é apenas saber a verdade não com a cabeça, mas com todo o nosso ser, sabendo que "é isso". É maravilhoso. Está com dor de dente? Isso também é o que é — maravilhoso. Quando estamos na dor de dente claro que não a achamos sensacional. Contudo ela é maravilhosa simplesmente por ser a vida que acontece neste segundo, doendo mesmo assim.

É uma pena que nossas mentes humanas nos ludibriem. Em sua maior parte, os animais são menos manipuladores com suas vidas. Algumas vezes podem tentar fazer joguinhos. Tive uma vez um cachorro que não gostava de vir para casa quando era chamado e então ficava por trás de uma cerca, do outro lado da rua. No verão isso funcionava muito bem — ele ficava camuflado por trás das folhas, tão imóvel quanto conseguisse. Mas quando as folhas caíam no outono ele ainda assim continuava correndo para se esconder lá e permanecia paradinho — só que completamente visível! Apesar disso, cães e outros animais não se embaralham tanto quantó nós a respeito do propósito de sua vida; eles apenas vivem, e nós não.

Alguns de nós estamos em meio a "desastres"; outros não. Claro que não permanecemos para sempre em meio a um imensodesastre, mas quando estamos atravessando um período desses nós praticamos muito, comparecendo cada vez mais ao zendo —e fazendo tudo ao nosso alcance para enfrentar a situação. Depois, quando a vida se acalma, deixamos de praticar com amesma intensidade. Um indicador da prática madura é enxergar a vida como um processo sempre totalmente em crise e total-mente não em crise: as duas versões são a mesma coisa. Na prática madura, praticamos com a mesma intensidade, haja umacrise ou não. Com crise ou sem, nós praticamos.

Nada será de fato solucionado enquanto não compreendermos que não existe solução. Estamos caindo e não existe resposta para isso. Não conseguimos controlar isso. Estamos passando a vida tentando deter a queda; no entanto, ela nunca se interrompe. Não existe solução nem pessoa maravilhosa que consigam deter esse movimento. Nenhum sucesso, nenhum sonho, nada pode fazê-lo interromper-se. Nosso corpo está simplesmente despencando.

Essa queda é uma grande bênção. Se alguém anunciasse uma pílula que curasse a morte e nos permitisse viver para sempre, isso seria uma verdadeira tragédia. Imagine-se daqui a seis mil anos ainda pensando os mesmos velhos padrões de pensamento! Com uma cura para a morte, mudaria por completo todo o significado de se estar e ser neste planeta. E onde iríamos colocar os novos bebês que fossem nascendo?

Todos nós estamos cientes do envelhecimento: cabelos grisalhos, rugas, cacoetes. Desde o momento em que somos concebidos, estamos morrendo. Quando observo esses sinais, não me rejubilo. Não gosto deles, assim como vocês também não. Mesmo assim, existe uma grande diferença entre não apreciar as mudanças e tentar a todo preço detê-las.

Mais cedo ou mais tarde, damo-nos conta de que a verdade da vida é este segundo que estamos vivendo, independentemente de este segundo estar no 99 andar ou no primeiro. Em certo jeito em mim"; ou "Vou começar a me entender. Quando eu finalmente entender quem sou, ficarei em paz e então a vida correrá bem". Não, não correrá bem. Ela será apenas aquilo que tiver de ser, a cada segundo. Apenas o deslumbramento.

Quando nos sentamos para praticar, conseguimos perceber o deslumbramento? Conseguimos sentir o deslumbramento que há no fato de estarmos aqui, de que, como seres humanos, podemos apreciar esta vida? Nesse sentido, somos mais afortunados que os animais. Duvido que um gato ou uma abelha tenham essa capacidade de apreciar, embora eu possa estar enganada. E posso perder essa capacidade de apreciação, de deslumbramento, se desviar-me deste momento. Se alguém me xinga: "Joko, você é uma droga!" e eu me perder em minhas reações (em meus pensamentos de autoproteção ou de revide e vingança), então terei perdido o deslumbramento. Mas, se permaneço neste momento, existe só o ter ouvido alguém que me xingou. Não é nada. Todos nós porém nos atolamos em nossasreações.

Enquanto seres humanos, temos uma maravilhosa capacidade para ver o que a vida é. Eu não sei se algum outro animaltem essa capacidade. Se nós a desperdiçarmos e não a praticarmos de verdade, todos aqueles com quem entrarmos em contatosentirão os efeitos. Isso inclui nossos companheiros, nossos filhos, nossos pais, nossos amigos. A prática não é algo que nósfaçamos apenas por nós. Se fosse, não causaria a menor diferença, em certo sentido. Todavia, conforme nossa vida vai entrandona realidade, todos aqueles com quem nos relacionamos também sentem a mesma mudança. Se há alguma coisa capaz de afetareste universo sofredor, é esta.