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Ilusões pertubadoras


Essas dificuldades não são novas. No Surangama Sutra, o Buda diz a Ananda, seu discípulo dileto: "Ananda, desde épocas infinitamente remotas, de vida em vida, todos os seres sencientes - os seres que se movem pela mente cármica e vivem a experiência dos seis reinos do samsara - têm mantido suas ilusões perturbadoras. Sob o poder de seus carmas individuais, direcionam seu desenvolvimento natural de forma condicionada, tal como o quiabo que, quando aberto, sempre oferece três sementes em cada grupo.

A razão pela qual nem todos os discípulos devotados atingiram a suprema iluminação é não terem sido capazes de compreender os dois princípios fundamentais. Assim, tornaram-se mentalmente confusos e caíram em práticas errôneas. E como se estivessem tentando preparar finas iguarias cozinhando pedras e areia. A nada chegarão, mesmo que tentem por incontáveis kalpas.

Quais são esses dois princípios, Ananda? O primeiro refere-se à causa básica da sucessão de mortes e renascimentos desde tempos sem inicio. É o princípio expansivo da dualidade, individualização, manifestação, transformação e sucessão. O segundo princípio fundamental é a pura unidade, a iluminação, existente desde tempos sem inicio. Buscando-o no brilho de sua própria natureza, esse espírito unificador pode ser descoberto e vivenciado, mesmo sob a variedade de causas e condições."

No Surangama Sutra, o Buda ensina que os seres sencientes, desde tempos sem início, buscam as soluções externamente, e isso os leva à expansão e ao sofrimento. Expansão porque estão constantemente desejando, construindo, criando, modificando. E sofrimento porque tudo o que desejam, constróem, criam ou modificam é impermanente: tem começo, meio e fim. Além disso, nem sempre obtêm o que desejam e freqüentemente se defrontam com o que não querem. Por esse caminho, não chegam a lugar algum - os seres movem-se pela insatisfação e obtém o sofrimento como resultado.

O Buda diz também que na própria natureza básica da mente está a iluminação, um principio fundamental unificador, puro, perfeito, sem obstruções, totalmente abrangente, além do espaço e do tempo, e, ainda assim, capaz de ser vivenciado mesmo sob a variedade de condições. Nas palavras de Sua Eminência Jamgon Kongtrul Rinpoche III: "A experiência da mente não-obstruida vem da prática da estabilidade sobre sua natureza básica. A visão não-obstruída é que se chama de claridade ou luminosidade da mente. Não reconhecendo a natureza fundamental não-condicionada, temos a noção de objetos ou de outros e nos fixamos nisso. A natureza básica da mente está além de surgimentos e desaparecimentos, de obstruções e sensações, de fixação em um ponto".

A busca da estabilidade na natureza básica da mente é o caminho direto da meditação, aquele no qual se busca praticar a mente liberta, a condição de libertação. Reconhecendo que a natureza intrínseca de cada ser é a liberdade e a iluminação - a mesma essência do Buda -, praticar é sentar, relaxar a mente e deixá-la, por si mesma, repousar em sua condição natural. Não há nada a ser buscado ou rejeitado. Apenas repousa-se na condição natural. Imagine um copo com água turva que, pela decantação se toma cristalina. Com a prática contínua e gradual, a mente começa a clarear por si mesma e termina por revelar sua natureza pura e cristalina. Não é algo voltado a acumular méritos para o futuro. É a própria prática da iluminação.