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Hishiryo
Texto extraído de "O Anel do Caminho"
de Taisen Deschimaru


O céu vasto e profundo não é perturbado
pelo vôo das alvas nuvens.

Que é Hishiryo? É pensar sem pensar, não pensar, mas pensar. É o além do pensamento, o pensamento absoluto. Não pensamos, mas o inconsciente se eleva, e pensamos inconscientemente, a partir do tálamo, do cérebro central. O verdadeiro pensamento aparece, o pensamento sem pensamento, para lá de todo pensamento.

Querer cortar os desejos, as ilusões é impossível, a nossa vontade, por si só, é impotente. Por intermédio do zazen, todavia, os desejos, pouco a pouco, deixam de perturbar-nos, diminuem por si mesmos, inconscientemente, naturalmente. Não se deve tentar nem cortá-los, nem segui-los. Nem cortar, nem seguir: isso é Hishiryo.

Não há verdade, não há realidade perfeita; mas tampouco há o falso, há o erro. É preciso estar além do bem e do mal, além do satori e das ilusões.

Obter o satori, despertar, significa que o cérebro muda totalmente, volta à condição normal. Zazen outra coisa não é senão a volta à condicão normal. O satori não é uma condição particular da mente, mas a luz do terceiro olho do Buda ilumina e subverte o mundo. O Buda realizou o satori para todas as existências, para todos os seres vivos, para todas as coisas do Universo.

Uma só voz...
A Lua das quatro horas da manhã
Sobre o travesseiro, por que cada qual não pode
despertar do seu sonho?

O sofrimento, a criação de ilusões [delusões], estão presentes em nosso cérebro. Sem cessar, perseguimos sombras, fantasmas que fabricamos no nosso interior.

Devemos cortar as marcas das delusões. É o fato da consciência Hishiryo. Hishiryo quer dizer, na verdade, apagar os traços dos pensamentos estúpidos [marcas cármicas]. Viver sem traços é a verdadeira liberdade. Seguimos o sistema cósmico, já não é necessário estabelecer categorias.

Devemos pensar desde o âmago do não-pensamento. Hishiryo é a excelência, a explosão, o orgasmo da consciência, o além do pensamento, o pensamento absoluto, cósmico, universal, global. Hishiryo é a consciência cósmica e não a consciência pessoal, a última consciência além do espaço e do tempo. Como pensarmos sem pensar? Esta é, em si, a arte essencial do zazen.

Se nos concentrarmos na postura, deixando passar os pensamentos, sem nos quedarmos num ponto da consciência, se continuarmos assim durante o zazen, os pensamentos se alargarão, se estenderão em profundidade e atingirão a consciência universal. Podemos ir até essa consciência última, mas não devemos passar pelos pensamentos da nossa própria consciência.

Devemos somente praticar o zazen e, inconsciente, natural, automaticamente atingiremos a consciência global. É por isso que se recomenda pensar desde o âmago do não-pensamento, Mushotoku, sem finalidade nem espírito de lucro, natural, automática, inconscientemente; pela prática do zazen, as células do nosso corpo estarão em harmonia com a vida cósmica.

Do ponto de vista de Hishiryo, o pensamento é o pensamento, mas é também o não-pensamento. O não-pensamento é o não-pensamento, mas é também o pensamento.

No Zen, não devemos rejeitar nem escolher. Hishiryo inclui tudo. É voltar à condição normal, original. Se não perseguirmos, se não fugirmos, nosso espírito permanecerá sempre sereno. Por isso mesmo está escrito no Shodoka: não agarrar, não afastar.

Hishiryo é inexprimível pela linguagem, indefinível pelas categorias. É a unidade do objetivo e do subjetivo. É o Zen. Quando voltamos do estado que precede a linguagem, para exprimir a consciência profunda, precisamos falar.

Hishiryo torna-se então a fonte, a raiz da potência criadora.

Na condição de Hishiryo, o pensamento se aprofunda, estende, alarga para todo o cosmo aqui e agora. Hishiryo atualiza a sinceridade da mente. É o céu imenso, o rei do samadi, o equilíbrio das partes direita e esquerda do cérebro, o controle de si próprio. Nossa mente pessoal limita a luz universal, a energia cósmica, o sistema cósmico. A condição da consciência Hishiryo é a fusão total com o sistema cósmico.

Shiki soku ze ku: os fenômenos tornam-se vacuidade.

Ku soku ze shiki: a vacuidade torna-se fenômenos.

Shiki, a existência, o mundo fenomenal, visível, o mundo existencial em todos os planos... é Vazio - Ku. A condição de Hishiryo se estabelece inconsciente, natural, automaticamente.

Em zazen, os pensamentos, a consciência, o subconsciente se apagam, pouco a pouco. Chegamos a uma condição de harmonia com o sistema cósmico, estado original da consciência, condição normal do cérebro, e não estado especial, como a iluminação.

Hishiryo é estar além de todas as coisas sem nenhuma noção de negatividade. A substância de zazen é Hishiryo. Os fenômenos, em mudança incessante, são dirigidos pela lei da impermanência. Entretanto, o ponto do instante é imutável. A substância de Shiki[fenômenos] é a de Ku [vazio] sem substância. O fenômeno de Ku é Shiki. Somos nascidos do Vazio, por isso nosso corpo e nosso espírito se convertem em fenômenos. A consciência Hishiryo inclui todas as coisas.

Por trás da consciência pessoal, em último lugar, existe a consciência absoluta.

Como acontece no oceano e no espelho, as vagas vão e vêm. O espelho tranqüilo do oceano é perturbado pela aparição das vagas, que se esfumam e desaparecem, e a superfície do mar retoma o aspecto liso. Por isso mesmo Hishiryo é o estado para além da nossa consciência pessoal, do dualismo e da oposição das duas consciências.