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Karma1
de Taisen Deshimaru

O que é o karma? (Go em chinês) É um termo sânscrito que significa "ação". Karma é toda ação engendrada pela fala, pelo corpo e pela consciência. São as sementes portadoras das ações futuras, ou o conjunto infinito de fatos passados e presentes ligados e agrupados em uma estrutura, em um organismo vivo (o ser humano, por exemplo). Este organismo está em relação com o meio ambiente e com o universo que o rodeia. Dito de outra maneira, o produto de todos os fatos passados e presentes em uma estrutura vivente formam o karma. Se hoje você pratica meditação durante uma hora, esta ação é uma semente que engendra, desde agora até a eternidade, um karma bom e profundo, um karma superior. O mesmo acontece com a leitura deste texto.

Aqui e agora, por que você lê estas palavras? Esta ação é resultado do seu karma passado. Toda ação é a realização do karma passado e engendra o karma futuro,seja a felicidade ou o sofrimento. A boa ou a má saúde dependem diretamente do karma passado que se atualiza no presente. A situação atual é o seu efeito causal, retribuidor. O karma, bom ou mau, que criamos no passado, encontra progressivamente sua realização pelo encadeamento causal. Os efeitos não se manifestam nunca em sua totalidade. Uma parte deles pode já haver recebido certas retribuições, enquanto que a outra parte ainda está latente. Por isto, é sempre difícil compreender qual aspecto do karma se realiza.

Durante a meditação, você pode observar os aspectos infinitos desde o passado mais remoto. Você pode ver seu karma como uma imagem refletida em um espelho puro. O Sutra do Loto diz: "Graças à meditação, venceremos todos os aspectos dos crimes e das faltas e brilharemos nas dez direções." Se cometemos um crime ou encontramos a felicidade, é por causa do bom ou mau karma passado. O que é um bom ou um mau karma? Os sutras budistas, assim como os textos da maioria das religiões, postulam o fato de que o karma é sempre o resultado de uma boa ou má ação. As causas fundamentais que engendram bom ou mau karma são quase universais e surgem de uma moral fundamental. Por exemplo, desde os tempos pré-históricos e no mundo inteiro, o assassinato é um ato proibido e severamente punido. De fato, dentre todas as espécies vivas, apenas o homem é fratricida. Os animais de uma mesma espécie não se matam. Uma pombinha não mata outra pombinha. A harmonia reina entre elas. Não matar é o preceito fundamental e universal e o primeiro que temos que respeitar. Não se aplica somente aos seres humanos, mas também aos animais e todos os seres sencientes.

Um dia, o Imperador Liang foi ao encontro de Bhodidharma e lhe perguntou:
- Eu construí um grande número de templos, traduzi muitos sutras e ajudei muitos monges. Que méritos eu obtive?
- Nenhum mérito!!!, respondeu Bhodidharma.

Isto é um koan. Não devemos esperar bons méritos de nosso bom karma. Se você pratica um boa ação e pensa:
"Certamente eu criei um bom karma, seguramente obtive bons méritos", você estará pensando de uma maneira parcial e limitada, já que não está considerando seu mau karma que está oculto. É preciso desconfiar e estar atento. Graças à  sua visão justa, Bhodidharma havia percebido o mau karma do Imperador. Eis aqui o que relata a história:

"Nesta época, Liang levava uma vida tranqüila e favorável. Interessava-se pelo Budismo, queria defendê-lo e estendê-lo por seu país. Apesar disto, seu mau karma acabou por emergir com força. Com efeito, anos antes, saiu vencedor dos combates entre os reinos do norte e do sul. Matou o rei inimigo e apoderou-se da rainha, levando-a a seu reino e casando-se com ela. A rainha trouxe ao mundo um bebê, que se tornou príncipe. Bhodidharma, que havia assistido aos acontecimentos bélicos entre os reinos do norte e do sul, decidiu ir até o norte, onde se ocultou nas profundas montanhas setentrionais. O jovem príncipe cresceu e todo o mundo se alegrou em ver nele o futuro sucessor do rei. Recebeu uma educação própria à sua posição de príncipe e foi introduzido nos assuntos e na história de seu país. No entanto, à medida que os anos passavam, tornava-se cada vez mais desconfiado e cauteloso com relação a seu pai, o rei.

Um dia, decidiu obter a prova do que pressentia quanto à sua verdadeira identidade e à paternidade que todos diziam ser do rei. Para isto, conhecia um meio seguro. Sabia que, se derramasse uma gota de sangue sobre os ossos dos pais, o sangue se filtraria e se expandiria rapidamente por seu interior. Se os ossos fossem de outra pessoa, o sangue escorreria sem penetrar. Certa noite, fugiu do palácio e dirigiu-se à tumba do rei morto. Cavou e desenterrou os ossos; depois, cortou ligeiramente os dedos e derramou algumas gotas de sangue sobre os ossos que acabara de extrair. O sangue penetrou imediatamente nos ossos. Assim, teve a confirmação de seus pressentimentos. Seu verdadeiro pai era este rei que havia encontrado a morte sob a espada do Imperador Liang, o qual fingia ser seu pai. Passou-se o tempo. As relações entre os reinos do norte e do sul se tornaram tensas novamente. Novas batalhas começaram. O Imperador Liang ordenou a seu filho que fosse combater o inimigo. O príncipe pôs-se à frente de seu exército; porém, em vez de combater o inimigo, opôs-se a seu pai e atacou o palácio. O Imperador Liang, depois de todos estes anos, havia se tornado um budista fervoroso e havia recebido ensinamentos de Bhodidharma. Quando o exército inimigo atacou encabeçado por seu filho adotivo, Liang estava sentado na postura de Buda, praticando meditação. Morreu assim, assassinado pelo príncipe."

Se você criar um mau karma agora é devido a uma ação do passado; por isso é tão difícil deter o karma. No início da cerimônia de ordenação, quando são passados os preceitos, recita-se o Sutra da Confissão,cuja tradução é assim:
"Por que desde os tempos antigos tenho criado tão mau karma?
Meus desejos, minha cólera, minha ignorância
Surge de todo este mau karma sem começo.
Tudo foi criado por meu corpo, por minhas palavras, por minha consciência
Aqui e agora, confesso tudo de coração aberto."


Durante a meditação, o karma aparece diante do espelho da consciência. A observação do karma é uma confissão. Se uma pessoa confessa a si mesma, o karma se realiza e seus efeitos se acabam. Por isso a meditação é tão importante. Praticar meditação, mesmo que seja por um minuto ou dois, é um bom karma. Se a pessoa souber suportar a dor, se tiver paciência, se for perseverante, estas ações se tornam meritórias, criam um karma excelente e realizam-se no futuro em forma de grande felicidade, não apenas para ela, mas para toda a sua família e também para toda a humanidade.

Estudando mais profundamente esta noção de karma, observamos que é um poder potencial que possui uma influência e que se prolonga no futuro. Se nossa vontade estiver em ação, se desejarmos algo com nossa consciência pessoal, isto se converte em pensamento. Durante a meditação, o corpo não pode agir; permanece tranqüilo. Não é possível beijar. As mãos estão na postura do mudra cósmico. Se você quiser bocejar, é difícil, pois tem que fazer uma reverência. Porém, em sua vida quotidiana, você pode agir segundo sua própria vontade, você pode se mover, falar, pensar... Essas ações são produtos da realidade da sua vida e, ao mesmo tempo, influenciam o futuro.

Podemos distinguir três tipos de ações: as do corpo, as da palavra e as da consciência. Porém, a raiz das ações do corpo e da palavra está na consciência. A ação do pensamento se converte em karma da ação do corpo e da palavra. O pensamento é a substância do karma. O pensamento cria a ação do espírito. A partir do espírito, cria-se o karma e todos os fenômenos do mundo. A substância de nosso espírito, voltando a repetir, é completamente pura e está ligada à ordem cósmica. Porém, as ilusões aparecem pela vontade. Estas ilusões produzem o karma e, desta maneira, criam-se os fenômenos do mundo inteiro. O karma aparece e prossegue devido à existência do ego. Se não há ego, o karma potencial não se manifesta.

No Budismo, e na maioria das religiões, existem preceitos fundamentais. Além da religião, existem também a ética, a moral universal e a fundamental, que são a mesma para toda a humanidade. No entanto, na civilização moderna, a moral fundamental foi reduzida e esta é a causa de sua crise. No Budismo, o bom ou o mau karma não são a verdade última. Temos que ir além do karma, de qualquer karma - tal é o ensinamento de Buda. A pior ação para o corpo é matar, não só seres humanos, mas também animais, plantas e todos os seres sencientes. Isto é muito difícil de praticar. Alguns dizem: "Nunca matei ninguém; portanto, sou perfeito". Porém, nunca se é tão perfeito. "Eu não roubo", dizem outros. Na verdade, porém, é muito difícil respeitar este preceito. Às vezes, você não paga o telefone, ou pega de alguém uma folha de papel para escrever...

O poder do compromisso com os preceitos para os que receberam a ordenação continua por muito tempo. Até durante seus sonhos, ou quando você quiser cometer uma má ação, este poder potencial se converte em um poder que previne as más ações. Reflita bem. Em toda meditação aparecem muitas ilusões. Você quer criticar alguém, seu amigo. Porém, seu espírito te permite observar suas ilusões: "Devo deter esta ação. Isto não é bom". Você pode refletir sobre seu espírito, sobre suas ilusões. Durante a meditação, você repete constante, inconsciente, natural e automaticamente esta reflexão sobre o seu bom ou mau karma. Graças à meditação, seus preceitos se prolongam e se reforçam. A meditação fortalece os preceitos e o seu mau karma diminui. Neste momento aparece a sabedoria transcendental. O que é bom e o que é mau no budismo? Criar o espírito que procede da natureza original de Buda, de sua verdadeira e pura natureza é bom. Ao contrário, uma má ação manifesta um espírito contrário à natureza de Buda. Se você diminui sua verdadeira natureza original de Buda com seus próprios pensamentos, esta é uma má ação. A verdadeira via existe no interior do seu espírito, não no exterior.

Diz um sutra: "Nos três mundos - infernal, terrestre e celestial - tudo é de minha posse, todo o cosmos é de minha posse, todas as existências do cosmos são minhas." Não é necessário ter tudo. Querer possuir algo é como estar infringindo o preceito de "não roubar". Toda a terra, a água, o vento podem ser utilizados; portanto, não é necessário possuí-los diretamente. Em um outro sutra está escrito: "Todos os seres sencientes são meus filhos. Todas as pessoas mais velhas são meus pais. Todos os homens e mulheres da minha idade são meus irmãos e irmãs. Todas as crianças são meus filhos e minhas filhas." Devemos respeitar os mais velhos e ser bons com os jovens. O marido e a mulher devem ser íntimos. Podemos fazer amor, porém devemos eleger com cuidado nosso par. Temos que prestar atenção quando fazemos amor. Constantemente este ato se complica e cria um mau karma, uma semente potencial do karma futuro. Se involuntariamente você criar uma má ação, aqui e agora, você tem que ver nesta a realização de um karma potencial passado.

Não devemos mentir aos demais, nem a nós mesmos. Mentir aos outros é fácil, porém mentir a nós mesmos é muito difícil. Tampouco devemos mentir ao céu e à terra. Se você pensar que todos os seres são seus filhos, como se diz no sutra, você não odiará, não duvidará e nem falará mal de seus amigos. Transforme-se em um bodhisattva, no pai de todos os seres sencientes. Todos os homens e todas as mulheres, além de seus países e nacionalidades, são realmente irmãos e irmãs. Ricos ou pobres, de classe social elevada ou baixa, altos ou baixos, não são mais que sombras, fenômenos do karma. Portanto, não há que ter muitos desejos nem ambições. Se você não criticar quando tiver o impulso de fazê-lo, esta ação influenciará seu futuro durante muito tempo. Esta ação se converte em um karma que conduzirá à felicidade futura. Esta ação faz com que suas enfermidades diminuam, e, assim, você poderá viver durante muito tempo. Ao contrário, se por exemplo você tiver muitas relações sexuais e transformar-se em um obcecado em sexo, isto criará um mau karma e inevitavelmente se produzirá um acidente. A idéia da transmigração do karma não existe somente no Budismo. A moral fundamental é o mais importante. Na época moderna, isto ficou esquecido, a moral já não é mais ensinada. Os religiosos explicam-na, porém não o fazem com a devida exatidão. Limitam-se a dizer: "Não roubar, não matar, não mentir, não ter má conduta sexual, não se embriagar."

Sabemos que há vento pelo movimento das plantas e das árvores. Da mesma maneira, observando as ações das pessoas, pode-se compreender seu espírito e seu karma. O karma que se manifesta foi influenciado originalmente pelos genes. Possuímos um karma genético. Quando entramos no ventre de nossa mãe, já temos substância de um forte karma. Produzido antes do nascimento, este karma continua até a morte.

Os karmas do pai e da mãe influenciam a criança na gestação. O karma de seus antepassados já foi iniciado. A partir da gestação e durante o nascimento, a ação do corpo e da consciência de nossa mãe nos influencia igualmente. Transforma-nos em um menino ou em uma menina. Toda a educação e o meio ambiente criam nosso karma. Nossa personalidade é quase completamente o produto do nosso karma. Nossas ações "aqui e agora" são realizações do karma passado, as quais, além disso, influenciam o karma futuro. E o karma de cada um repercute no universo inteiro.

O fato de fazer meditação influencia não somente o nosso lar, como também o bairro, o país, a civilização, o cosmos... As boas sementes do passado se tornam boas raízes de ações futuras. O mesmo ocorre com as más sementes. Desta maneira, toda a existência é o que foi semeado. Os seres de alta ou baixa estatura são fenômenos, aspectos do karma. Os estado de ódio, de amor, de ansiedade e de sofrimento são produtos do seu próprio egoísmo, egoísmo que é produzido pela própria consciência pessoal. Se aceitarmos todas as existências, se não produzirmos um espírito negativo, em todas as partes e sempre sentiremos alegria e prazer. A ansiedade e o sofrimento desaparecem quando estamos alegres. Se não tivermos ansiedade nem sofrimento, o ódio não aparecerá. Desta maneira, poderemos obter tudo da Grande Via.

Assim, a pessoa não se torna dogmática. As visões negativas das pessoas ordinárias, dualistas são produzidas pelo ego. Se existe um aspecto do ego, caímos em uma visão dualista de existência ou de não-existência. Porém, se seguimos a ordem cósmica, da natureza, o espírito do ego acaba. Podemos nos separar dos pontos de vista da existência e da não-existência. Se não caímos neste dualismo que se inclina de um lado para outro, podemos obter o verdadeiro poder da fé. Desta maneira, nosso espírito original nos dita os dez preceitos fundamentais.

A uma criança não agrada matar, nem roubar, nem mentir, nem criticar. Quando comete estes atos, sente vergonha. É pudico com relação ao sexo, e o oculta, a menos que esteja enamorada. As crianças são sempre muito mais honestas que seus pais. O único que desejam é comer e sentir-se seguros. Só choram por isso. Amam o bom e temem o mal. Assim, desde a infância possuímos os dez preceitos. Os grandes sábios, os grandes santos são seres que não perderam o espírito da infância. Se temos que enfrentar um homem orgulhoso e sabemos ter paciência, nosso poder de paciência aumenta e se desenvolve. Se nos encontramos com pessoas más e nos mostramos compassivos com elas, nossa compaixão aumenta. Desta maneira, podemos compreender que, se seguimos a lei moral integralmente, a compreensão da Via do Céu se abre diante de nós. Se realizamos a Via do Céu, podemos conhecer a nossa verdadeira natureza original. Podemos compreender nosso próprio karma passado e nosso destino.

A Via do Céu dispõe todos os seres sencientes em seus lugares naturais e os faz crescer no interior do cosmos. Durante a Segunda Guerra Mundial, a polícia militar em Sumatra havia me designado a missão de capturar e prender todos os inimigos combatentes que conseguisse. Porém, eu achava que, se capturasse algum inimigo, era melhor dar-lhe roupa, alimento e cigarros... e assim agi. A polícia militar queria exterminar os prisioneiros. Eu ia aos cárceres repartir víveres e cigarros, o que produzia grande alívio entre eles. Por fim, dirigi-me ao comandante e, trocando alguns bens, consegui liberar uns cem prisioneiros indonésios. Ao final da guerra, a polícia militar foi feita prisioneira, porém eu fui bem recebido, respeitado e protegido por todo o exército indonésio liberado.

É muito importante respeitar o homem, respeitar-se mutuamente, ter um sentido elementar de humanidade. Deus e Buda, os Bodhisattvas, os santos e os sábios são produtos do ser humano e protegem-nos como seres humanos. Se possuirmos dentro de nós o desejo profundo de respeitar e proteger os outros, não poderemos cometer más ações, ações abusivas, nem conceber sentimentos de ódio ou de desprezo. Se a humanidade fosse assim, não haveria crimes nem assassinatos sobre a Terra. Este espírito de compaixão se eleva em todos os seres sencientes e é sentido inclusive pelos animais, pelos pássaros, pelos peixes, pelas plantas, pelas árvores...
Meditem sobre isso!
  1. Extraído de www.jardimdharma.org.br