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O karma e o ego1
de Taisen Deshimaru

Qual é o poder fundamental do karma?

Ele não se limita ao mundo humano. E um poder infinito que suporta todo o cosmo, por ele são governadas todas as existências, toda a natureza, toda a Terra e todas as galáxias; é, portanto, o poder que suporta, dirige e reúne tudo. Todas as existências são reunidas e unidas nesse poder e por ele, como o ferro temperado no fogo se funde sob o efeito do calor ou como o gelo que se liqüefaz e evapora sob o efeito do Sol. É a energia cósmica que enche todo o sistema, toda a ordem cósmica, e gera o movimento perpétuo do cosmo.

O cosmo nunca está em repouso. Reúne e destrói, produzindo, ao mesmo tempo, ordem e caos.

A energia cósmica. que enche e influencia todo o Universo e todas as existências, por toda a eternidade, que impregna toda a natureza, a partir dos minerais, dos vegetais e até dos seres sensíveis, animais e humanos, é recebida inconsciente, natural, automaticamente, por cada uma das existências. É a ordem exterior do poder cósmico fundamental.

Durante o zazen. podeis compreender esse poder energético, senti-lo e reconhecê-lo inconsciente, natural, automaticamente, em vosso espírito, pela consciência Hishiryo.

A vontade do homem pode intervir no seu karma e transformá-lo. O ser humano não é um organismo definitivamente estruturado e rígido; está em perpétua evolução; sua estrutura evolutiva caracteriza, assim, a agilidade e a faculdade de adaptação às circunstâncias; a ele se oferecem, então, possibilidades múltiplas, que vão da rigidez tenaz, a afirmação do ego, à agilidade mais adaptável, o abandono do ego.

O karma não tem o aspecto que caracteriza o destino quando este se mostra determinista, irrevogável e misterioso. O karma atenua o aspecto de necessidade que define a causalidade e forma a trama do destino. Por si só, o princípio da causalidade não governa a nossa vida, que é um todo composto. Da pluralidade dos antecedentes, ou causas anteriores, não se origina necessariamente uma única resultante possível; a vida psíquica é, de fato, tributária desses antecedentes, mas não é rigorosamente determinada por eles.

No nível da consciência humana, aparece a noção de escolha voluntária, de opção deliberada lucidamente e, portanto, do possível sem necessidade. Na ordem da natureza inferior, mineral, vegetal, animal, os fenômenos só estão submetidos à necessidade, à lei física do determinismo; se se juntarem as condições requeridas, o fenômeno aparece. Mas o determinismo que define o principio de causalidade não pode dominar o psiquismo humano; quanto mais um ser desperta para a realidade e a compreende, tanto menos o determinismo terá domínio sobre ele, quanto maiores sejam sua liberdade de ação e sua autonomia, tanto mais imprevisível é a sua ação.

Nossa vida é a atualização de uma longa evolução, cuja origem se funde na noite dos tempos. Mas sendo um devir que se realiza na decorrência do tempo, é uma perpétua transformação com uma parte da imutabilidade que caracteriza o indivíduo: o indivíduo continua a ser ele mesmo, mas nunca é o mesmo.

Qual é, pois, esse poder criado pelo karma? Eis ai o verdadeiro problema importante; é o problema do poder especifico da energia. Que faz que se movam e evoluam todas as existências, é a energia cósmica que enche tudo. Claro está que esse poder não é idêntico ao karma propriamente dito.

O karma não é a representação do poder energético do cosmo. É o símbolo da energia cósmica, do seu poder, mas inclui também outro poder especifico; tem sua particularidade própria, através da qual se compreende o poder fundamental do cosmo. A própria ordem do mundo humano é criada pelo poder especifico do karma.

O movimento no cosmo não é unicamente gerado pela energia do poder cósmico universal: supõe a existência da qualidade específica do karma, compreendida em cada ser que vive num lugar e numa época determinada, O que chamamos karma, em nosso senso comum, é limitado pelas categorias do mundo humano, pela vida existencial de cada indivíduo.

Por conseguinte, o conceito estreito e restrito do karma depende das categorias intelectuais de cada um, tributário do contexto dado de uma cultura específica.

Deveis compreender que não há realidade verdadeira. Como o reflexo da Lua na água.

Deveis compreender que a vossa concentração durante o zazen assemelha-se, com muita exatidão, à serpente que entra num talo da bambu; embora o seu corpo seja reto nesse momento, assim que ela sai do talo de bambu e enfrenta de novo os objetos, recomeça a curvar-se, a rastejar, a retorcer-se, a encurvar-se, a inclinar-se; da mesma forma, quando saímos da nossa observação durante o zazen, as ilusões do mau karma recomeçam a elevar-se e a crescer. Esse karma cresce do mesmo modo que um pouco d’água, a princípio acumulada, se espalha largamente, se não encontrar obstáculo pelo caminho.

As ilusões nascem do desejo, que gera todas as moléstias do corpo e do espírito. Muitas neuroses são a expressão de uma defasagem entre o desejo e sua satisfação.

Mas se estivermos concentrados aqui e agora, os desejos logo se apagam; uma vontade nasce, depois morre; passa sem afetar, sem deixar vestígios. Lembranças e projetos devem ser o motor da ação presente; são tão necessários à vida quanto o ar, mas a nossa boa saúde mental depende da dinâmica deles. Tudo muda, tudo passa e se transforma. A vida é a não-fixação; toda lembrança imobilizada e todo desejo obsessivo são as células cancerosas da vida. Atrofiam-na, opõem-se à circulação da corrente da energia cósmica.

Se vos criticarem, atacarem ou baterem, não vos encolerizeis. Se as pessoas vos respeitarem, admirarem, não fiqueis envaidecido nem contente demais.

Por mais que me respeitem e admirem, eu me conheço. Não sou tão bom nem tão mau. Não deixo que as críticas ou a admiração dos outros influam em mim. Meu espírito não se move.

Quando alguém tem a iluminação da sabedoria, tem os olhos clarividentes do corpo e do espírito. O olho espiritual.

As vezes, julgamos, compreendemos com o olho do espírito por intuição, sem olhar.

Entretanto, na maioria das pessoas, o karma e as ilusões passaram a ser o próprio fundo da personalidade; por não ter sido possível observá-los, controlá-los e ultrapassa-los, eles se converteram nas suas próprias características. É um grave problema.

Por isso mesmo, as ilusões são a raiz, a origem de todos os sofrimentos, das doenças; e a substância, a essência, o fundo dos sofrimentos humanos e de todos os aborrecimentos repousa na ignorância humana, desprovida de toda sabedoria profunda.

O louco não compreende que é louco pois, do contrário, estaria curado; do mesmo modo, pensar que temos o satori é uma forma de loucura. Se obtiverdes o verdadeiro Zen, não podereis obter, ao mesmo tempo, os proventos ou as honras do social e, ao contrário, se não obtiverdes o verdadeiro Zen, vosso espírito não estará na condição normal e fareis crescer cada vez mais o vosso mau karma. A ação do karma presente realiza o karma passado, e as ações do karma passado atualizam-se nos efeitos do karma presente e futuro.

Numa lareira, uma só acha de lenha não dá um grande fogo mas, se houver muita lenha, a potência do fogo aumentará. Se vos concentrardes no zazen, podereis, sem dúvida, experimentar uma energia forte, uma robusta potência. Não só para o corpo, mas também para o espírito. É o principio da interdependência.

A liberdade além do tempo e do espaço é uma experiência mística. Em nosso mundo social real, só existe a realidade da nossa vontade, profundamente limitada pelo espaço. É o Despertar no que concerne ao karma, à interdependência.

A alma é infinita. Devemos despertar para o fato de ser o ego a realização do poder cósmico fundamental, O karma é infinito. O ego é um entre todas as existências. O ego consiste na relação de interdependência com todas as existências.

Se o nosso espírito, durante o zazen, se apegar a alguma coisa, a um estado exterior, devemos apanhar esse espírito e reconduzi-lo à consciência exata.

Quando soprada pelo vento, a nuvem se mexe. O espírito se parece com a nuvem. Sempre dirigido pelo diabo ou pelo karma, não para de mexer-se.

O vento do karma, do diabo, dirige o espírito e o abala. Nesse caso o espírito não é livre do nascimento à morte.


  1. Extraído de "O anel do caminho".