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Próximo o lago...
Entrevista da Sensei Coen
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Rose é revisora e redatora de textos... e o personagem desta história. É uma mulher aparentemente normal, mas, furiosa, geniosa e ciumenta! No dia anterior, havia se desentendido com um cliente pra quem revisara um livro. Então, vermelha de raiva, picou o calhamaço de 600 páginas: rac roc rac roc... E muito xingou o infeliz. Só que depois se culpou pela grosseria. Nada a fazer, foi relaxar no parque: ver gente e planta, solução para ficar calminha. Ai a natureza! Lago cheios de patos e verde de aromas mil: "Não dá o dourado sol tão doce beijo / No fresco orvalho de manhã cobre a rosa, / Como seus olhos beijam em seus raios... /" (Shakespeare). Respirou ardente buscando a salvação.

Mira que mira as águas: quão doce pensar nas mágoas e amores perdidos. Que temperamento do cão, uma ciumenta, isso sim, inviável para o amor, para o convívio em sociedade. Que continuasse nas aulas e, nas ruas, conhecendo gente e gente, até quem sabe descobrir um remédio para seus males.

Domingo é dia de dominum, dia de Deus. Entonces... dia de milagres!

Viu o grupo em fila indiana, lento; 1... respira 2... respira 3... À frente, a monja, mulher bonita cujo andar desenha a cadência dourada. Rose resolve segui-los, a alma precisava se apoiar neles, tão serenos; buscava uma resposta para a culpa da ira. Porém, o pessoal anda mais do que lento e, agitada como é, Rose sente-se incompatível com a "correição do silêncio". Aflita, distancia-se, prefere olhá-los à distância. Admira-lhes a Paz.

Passo por passo, a monja e o grupo alcançam a parte alta do parque. Abraçam as árvores, cerimoniosos e felizes. Rose desdenha e inveja (sim, porque, às vezes, Rose é má). Vê brotar-lhe o pensamento maldoso: "Quero ver o dia em que as árvores forem extintas... A quem abraçarão? Rá!".

"Rose faladeira, este texto é uma entrevista, há que se ser conciso: encurta a história, sua egocêntrica!" (quem pensou isso foi a Rose, redatora). Aos fatos! Aos fatos! Função referencial da linguagem, dados, dados!
Presente do Indicativo é o que se pede, assim: Rose conversa com a monja; o nome dela é Coen; solicita-lhe uma entrevista. Precisa encontrar a paz. E assim é.

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"NÃO TE ZANGUES POR SERES QUEM ÉS" (Shakespeare)

Rose: Coen, o que você acha do futebol? Pense em espiritualidade. Existe uma energia positiva nestas épocas de Copa do Mundo? Não é uma "baixaria geral"?

Coen: Não, tudo é positivo. Porque faz surgir o senso de nacionalidade, o que não ocorre, por exemplo, na comemoração da Independência. Nós nos sentimos pertencendo ao mesmo time, é a união nacional, essa identidade de todas as pessoas, acabam-se as discriminações, não sou homem , não sou mulher, somos todos iguais.
Ontem assistia ao jogo da torcida com o Senegal... E comentava com amigos: "Estou torcendo pelos dois times". Pois o bonito é ver quem hoje está com o bom futebol.

Rose: E a torcida?

Coen: o que vejo de errado na torcida: querer que o time mais fraco ganhe para lutarmos com ele. Não! É bem ao contrário, quem é o melhor? Nós temos de ser os melhores dos melhores. Não temos de ganhar e, sim, fazer um bom jogo. Essa, a diferença que as pessoas não perceberam. Os jornais diziam que tínhamos de torcer para que o time perdedor fosse fácil de ser vencido. Mas não é isso!

Rose: O que significa o futebol pra você?

Coen: Atletismo, esporte é aceitar a vitória do outro com ternura. Pode-se ficar alegre com a vitória do outro. Quando acaba o jogo, a gente vê um time pulando de alegria e outro, de tristeza. Mas, se o seu coração está aberto, você chora e ri ao mesmo tempo: porque ri com a alegria do que ganhou e chora com a tristeza do que perdeu. Imagine que se possa compartilhar a alegria de ganhar, porque compreende-se que, no instante X, as condições e as causas fizeram com que o time Y ganhasse. Aceitar isso e não se entristecer, porque se perdeu. Difícil chegar lá, mas acho que este é o caminho!

Rose: De acordo com o sistema econômico neoliberal, vence o mais forte, é como a lei da selva. Enaltecem-se os campeões. Então acho que ganhar passou a ser o mais importante. Aos derrotados, o desprezo. A leitura que se faz do perdedor, aquele que perdeu a bola, o olho, a casa, é a do desprezo. Mas o ser humano é suscetível à fragilidade. E, se pensarmos em Buda que contempla a miséria do mundo e tem uma resposta para ela, podemos achar nele um cúmplice que nos ajude a entender este momento? Vemos tantas pessoas caídas pelas ruas... Isso angustia muito, não é? E vitorioso acaba sendo quem não se deixa abalar pela contemplação da miséria e aceita o "derrotado" como digno de ser perdedor, de ser chutado pelo sistema. Dentro do budismo há jeito de contemplar a miséria sem ter de tomar um calmante, um lexotan da vida?

Coen: Sidarta sai de seu castelo e encontra a velhice e a morte... e assim como incomoda a você, incomodou a ele que pensou: "O que eu posso fazer para amenizar o sofrimento do mundo?" Esse é o passo inicial da caminhada dele. Como você disse, algumas pessoas põem uma espécie de couraça e, através dela, passam-nos a impressão de que não se importam com nada, mas... não é assim. A miséria incomoda a todos, porque todos estamos vendo e sentindo e mesmo; os que parecem enrijecidos e tão vencedores, na verdade, lá dentro!, estão percebendo tudo. Somos um só processo, estamos ligados.

Buda saiu de sua casa, livrou-se de suas roupas nobres e dedicou-se às práticas acéticas. Fez jejuns, mas não afirmou que isso lhe trouxesse sabedoria . Por isso ele foi procurar a meditação. É isso! Meditação!

Rose: Uau! Que difícil!

Coen: Ouça, Rose: Sidarta, ou Buda, descobre, através da meditação, que o universo é uno. Tudo que existe está em relacionamento a... Este Universo é de causas, condições e efeitos... Se as coisas estão como estão é porque todos são responsáveis e, por isso, cada um de nós tem de fazer a sua mínima parte. Gosto muito de uma frase de Gandhi, que não era budista, mas disse: "Nós temos de ser a transformação que queremos no mundo". Não é que temos de ser, nós somos a transformação do mundo! Cada um de nós é... Então, vamos nos perguntar: o que estamos fazendo das nossas vidas que transforme o mundo? Cada um faz a sua parte, o seu trabalho de entrevistar pessoas é uma parte, Rose. Eu me transformo num coração novo, num coração da não-violência, num coração que não se importa de ser o perdedor

Rose: Caminhamos para o apocalipse? Parece que a qualidade de vida está tão deteriorada...

Coen: Não é o apocalipse, não! Depois ou até antes de chegarmos ao fundo do poço, tudo deve mudar. Preste atenção, mesmo os senhores do mercado deverão dar condições aos pobres para consumir, senão como eles vão ficar mais ricos? Deve haver uma mudança... em breve.

Rose: Os poderosos e opressores estão ligados ao mal? Existe o mal? Algumas pessoas são piores que outras?

Coen: Não! O que existe é ganância, raiva e ignorância, os três venenos que acabam com o ser humano: assim, faço qualquer coisa para vencer, passo sobre o outro, mas venço! O melhor seria que nos comparássemos conosco mesmos. Precisamos aprender a enfrentar a opressão do outro, sem cair em depressão. Precisamos entender a opressão e saber como não nos transformarmos em opressores, caso tenhamos ocasião. Os que sofrem por serem oprimidos devem se trabalhar para jamais serem os futuros opressores.

Rose: Estamos na selva...

Coen: Devemos ir além do nosso lado animal. Há uma imagem de Buda em que ele está sentado sobre um leão. Temos essa capacidade de superar o lado animal. Entender e superar a opressão de nós para nós mesmos, do outro para nós.

Rose: Clarice Lispector, a escritora, achava que devemos aceitar a nossa animalidade. Eu, por exemplo, sou uma pessoa passional... isso é ruim?

Coen: Não é negativo. A gente transcende o bem e o mal. Você pode, num momento de fúria, destruir um livro, mas depois você precisa do livro. Através da meditação, percebemos que temos inúmeras facetas. Cada pessoa que encontro é um aspecto de mim. Se você se entende com uma monja, você não é só a Rose passional. Há em você uma parte monja! Perceba as suas facetas todas, e, quando elas se apresentarem, deixe que vivam, mas não que atuem na realidade em forma de reação, mas sim, em forma de ação e controle.
Dalai Lama tem um livro em que fala como transformar a raiva, a fúria em compaixão. Alguém faz algo errado, aquilo irrita... o que fazer com a energia que vem? Não dá para controlar um sentimento, porque ele vem, existe. Controlo a ação, isso sim. Controlo a raiva, sinto meu coração batendo, a vontade de destruir, mas não ajo. O controle é no corpo ou na ação e não, na reação. Negar um sentimento é bobagem, não adianta lutar contra o ele. Isso vale para todos os sentimentos, até o ciúme, que é o apego maior. O amor verdadeiro é aquele que dá.

Rose: Sou ciumenta e inviável, porque infernizo a vida de quem amo.

Coen: Havia um professor no Japão que dizia "Mantenha as mãos abertas". Entende? O ciúme não é o amor verdadeiro, o verdadeiro é o que diz: "Vai, seja feliz". Se me apego a algum sentimento, quero segurá-lo nas minhas mãos. Veja, é assim como essa mão que segura o microfone e não pode segurar mais nada. Errado isso!

Rose: Vamos parar de falar em ciúme, tá? Vai aí um verso do Drummond: "De tudo fica um pouco... de mim, de ti, de Abelardo... vento nas minhas orelhas, de tudo fica um pouco... E sobre os gonzos da família e da classe, de tudo fica um pouco, às vezes um botão, às vezes , um rato". Como zerar tudo e ser livre?

Coen: Coisa linda! De tudo fica um pouco e... de tudo o que fica é o zero. No budismo, a gente fala: a forma é o vazio, e o vazio é forma. A gente pensa que o vazio é a ausência de tudo, não! Porque tudo é transitório, nada pára nem um só instante. Nada! A gente não pode agarrar nem dizer "Eu sou assim". Não sou mais a menininha de um ano e meio, ela deixa um rastro em mim, mas não sou ela. Sou e não sou. Porque vou me transformando. Antes de entrarmos aqui, éramos duas pessoas diferentes, mas nos transformamos. Eu a transformo e você me transforma. Cada encontro é um constante transformar-se: o eterno presente, e nada é para sempre.

Rose: Fale do amor. Ele está sempre presente?

Coen: Amor... nem sempre. Há filhos que não amam os pais. Depende de quem falamos. Há mães que não amam os filhos, largam-nos na lata de lixo. Veja o cachorro com a cria, ele cuida pelo instinto da preservação da espécie. Mas a ternura, devemos senti-la por todos os seres. É o que nos distingue dos animais. Se dissermos: "Só amo minha filha e quero que ela seja a primeira!", isso não é amor. Há quem cobre do filho: "Veja como me sacrifiquei por você!" Isso não é amor! Isso não é amor!

Rose: Fale mais sobre o amor, Coen. Estou gostando de ouvi-la!

Coen: Vou lhe contar uma história. Um rei subiu na torre mais alta pra olhar todo o seu reino, os campos , as montanhas... Após momentos de meditação, perguntou à rainha: "Será que a pessoa que você mais ama é você mesma? Se for, não é certo". Então, foram falar com Buda, que ponderou: "Está certo amar a si mesmo, cada ser ama a si mesmo, sim! Amamos a quem se ama. Quem não é capaz de amar a si mesmo não é capaz de amar ninguém". O primeiro passo para amar é amar a si próprio.

Mas veja: os relacionamentos são de troca, é verdade. Eu ofereço carinho amor e ternura e espero a receptiva, porém, é preciso aprender que, se eu não receber nada em troca, devo aceitar o fato. É o aprendizado do amor.

Rose: Coen, dá pra você falar da dor. Ela nos ajuda a evoluir? Por que há gente que parece que gosta de sofrer? Está tudo bem e a pessoa tá lá reclamando de tudo...Um inferno!

Coen: A dor pode ser um ótimo mestre. O que é a dor? Como é a dor? Você a sente agora neste instante? Xaquaimuni Buda, em seu primeiro sermão, falou das Quatro Nobres Verdades. A primeira é sobre a dor, o sofrimento, em sânscrito, Dukha. A segunda é que para tudo há uma causa. A terceira verdade nobre, o Nirvana - paz e tranqüilidade sábias. Tudo isso pode ser atingido por qualquer pessoa, desde que se dedique ao Caminho de Oito Aspectos, ou seja, viver corretamente, falando a verdade, fazendo o bem e pensando com sábia compaixão.

Rose: E os sofredores contumazes?

Coen: Por que alguns se apegam à dor e sofrimento? Ainda é o ego, querendo controlar tudo. Eu sinto dor como ninguém mais. É preciso sair desse casulo e perceber que muitos sofrem . Em vez de ficarmos parados na dor e sofrimento, deixemos que eles esvaeçam, e se transformem em crescimento e capacidade de ajudar outros seres.

Rose: Se os sem-tetos invadissem a sua casa, o que você faria?

Coen: Primeiro, dava banho neles. Considero-os os quilombos de nosso tempo. Não têm outra saída, o sistema os abandona. A sociedade está dividida.

Rose: Como é o seu cotidiano?

Coen: Acordo um pouco antes das 5 horas. Temos zazen, meditação sentada , todos os dias às 6 horas e depois um momento de prece, leitura de sutras. Durante o dia dou aulas, preparo os cursos, escrevo, estudo e converso sobre budismo com pessoas interessadas, um pouco de aconselhamento. De terças a sextas, dirijo meditação , cursos e palestras do Darma a partir das 20h. Sábados às 18 h e domingos pela manhã, Caminhada Zen nos parques. Domingo sim outro não no parque da Aclimação!

Temos retiros intensivos de práticas meditativas todos os meses. Participo de encontros inter-religiosos. Sou membro da United Religios Initiative - URI, Círculo de Cooperação de São Paulo. Sou chamada a participar de eventos pela Paz.

Rose: Coen, nosso tempo acabou. Obrigada por tudo.

Coen: Venha caminhar com a gente no parque.

Rose: Esperem por mim!


  1. Extraído do site www.monjacoen.com.br.