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Primeiro Preceito: Não Matar(*)1
de Taisen Deshimaru

Buda erigiu, como primeiro preceito, o respeito e a proteção da vida. Negou a ordenação aos criminosos. Porém, às pessoas que haviam cometido delitos menores, como matar animais, permitia a ordenação após a confissão. Os crimes são de muitas classes, assim como as maneiras de matar. Podemos classificá-las em quatro categorias:

- Matar homens de bem com um espírito mau (Este é o pior.)
- Matar homens maus com um espírito mau.
- Matar homens bons com um espírito bom.
- Matar homens maus com um espírito bom.

A classificação é a mesma no que diz respeito aos animais, às árvores e às flores. Às vezes, é necessário, por exemplo, matar uma pessoa má, um criminoso perigoso, porém com um bom espírito. Existem graus nas diversas formas de homicídios. Há, por exemplo, uma hierarquia relativa à qualidade das vítimas, plantas, árvores, insetos, bípedes, quadrúpedes, etc. Este preceito não deve ter um sentido restritivo. Em um sentido amplo, não matar pode significar não fazer sofrer aos demais, não odiar, não invejar, já que também estas ações são outras formas de matar.

Devemos observar sempre que o céu e a terra possuem a mesma raiz. Todas as existências são um só corpo. Compreender a verdadeira natureza original do ego significa penetrar, a não diferenciação entre si mesmo e os demais. Por esta compreensão, qualquer crime, qualquer ódio ou inveja, qualquer animosidade desaparecem para sempre. Nosso espírito de compaixão cresce graças aos outros. Sem os outros não pode existir espírito de compaixão ou de amor. Se exercemos nossa paciência, se aprendemos a ter paciência frente às dificuldades, nosso poder de paciência aumenta. O poder de nossa fé aumenta igualmente, ao mesmo tempo em que se desenvolve nosso espírito de compaixão.

Nossas sementes de Karma se atualizarão um dia e nos conduzirão à angústia ou à felicidade, da mesma forma que uma semente de árvore engendra a árvore que cresce e se expande. A desgraça das pessoas de nossa época e toda crise da civilização atual são uma acumulação de más sementes, que germinam e crescem, semeadas e mantidas pelas faltas cometidas contra a moral fundamental, quando esta cai no esquecimento. Os dez preceitos são as regras fundamentais de comportamento do ser humano, se este quiser se harmonizar com a natureza, e não se opor às leis do universo.

Se respeitarmos fundamentalmente uma pessoa e sentirmos uma compaixão verdadeiramente profunda, poderemos alcançar a Verdadeira Via. Se sentimos respeito e compaixão, nosso egoísmo diminui. O mais importante é respeitar a família, os pais, o marido ou a esposa, os irmãos mais velhos e os mais novos. Aqueles que não sentem respeito nem compaixão por sua família não podem criar um espírito de compaixão pelos demais. Se não se possuírem um espírito de compaixão, facilmente poderão matar animais ou insetos. Um animal ou um inseto também sente amor por seus filhos ou por sua mãe. Também existe intimidade entre o macho e a fêmea - sentem alegria, prazer e temem a morte. Se observarmos isto, não poderemos matar nem sequer animais. Se mantivermos o preceito de "não matar" nem sequer insetos pequeninos e respeitarmos suas vidas, este ensinamento haverá alcançado sua perfeição.

Se uma pessoa se dedica a fabricar um sabre ou uma espada com trabalho constante, seu aço será afilado. Os "preceitos" nos ensinam a deter nossas más ações. Se conseguirmos detê-las, nossa virtude aumenta. Porém, às vezes, pode ser necessário matar. Se uma pessoa ou animal mata cem ou mil homens, é possível matar este assassino. Em um sutra pode-se ler: "Aqueles que matam as pessoas com um espírito mau devem ser executados." Trata-se de uma educação para os outros. Esta execução é, neste caso, mais justa que o fato de matar um inseto com um espírito mau. A pena de morte, às vezes, é necessária. Se um governo se equivoca, a civilização entra em crise. Uma boa civilização está ligada aos "dez princípios fundamentais da moral" e, nela, até os malvados mudariam de espírito, e os animais e os pássaros não fugiriam do homem.

Se cumprirmos o preceito de "não matar", receberemos dois tipos de recompensa: podemos viver muito tempo, e sem enfermidades. Se nosso comportamento, por outro lado, distanciar-se deste preceito, ou se os nossos antepassados não o respeitaram, seguramente um bebê morrerá ao nascer, ou alguns dias depois, ou durante a infância. Sua vida será breve. Isto é devido à influência dos nossos antepassados que não respeitaram este preceito, ou devido à influência do mau karma da mãe. Aqueles que não mantêm este preceito sofrem de enfermidades que são, em sua maioria, devidas à aparição do karma passado ou genético. Se nossos antepassados não tiverem cumprido ou nós não cumprirmos este preceito, sofreremos um acidente de automóvel. Os repetidos abortos produzirão, igualmente, graves acidentes ou enfermidades. Se a força do karma é poderosa, este se repete eternamente.

As grandes guerras sucedem as grandes calamidades e as pessoas não são felizes. Os japoneses, por exemplo, receberam uma bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki em retribuição a seu mau karma. E, sem dúvida, este ato terá uma grande repercussão no karma nacional dos Estados Unidos. Existem grandes karmas entre os países. Se uma nação conquista a outra, isto lhe criará uma mau karma. Em um Sutra está escrito: "Se numerosas pessoas morrem em um país, as colheitas não serão boas. Este país não dará bons frutos, nem belas flores."

Nossa vida é exatamente igual a uma nuvem: sempre segue a direção do vento. O vento é parecido com o karma, e a nuvem, com o nosso corpo. O vento move e impulsiona a nuvem do corpo. Da mesma forma, o destino das pessoas é conduzido pelo karma. Não conhecemos a verdadeira liberdade.

A aparência, o aspecto, a silhueta, a cor da pele e dos cabelos, tudo isto realiza o aspecto do karma genético. Se seguirmos os dez preceitos, nosso mau karma diminuirá e isto influenciará eternamente a humanidade. A diferença entre o homem e o animal reside essencialmente no cumprimento dos preceitos. O ser humano segue um cerimonial em numerosos atos. Acontecimentos tais como nascimentos, casamentos e funerais, são objetos de uma cerimônia, de um ritual. A hierarquia familiar e os antepassados, ainda que estejam desaparecendo em nossos dias, foram, durante muito tempo, honrados em nossa sociedade, estando ainda muito presente nas sociedades mais arcaicas. O ato sexual sempre foi objeto de rito, de um comportamento definido. Estes dois aspectos do comportamento não se encontram nos animais, os quais obedecem seus instintos, satisfazendo-os sem o intermédio de um cerimonial. Em nossa civilização atual, os homens tendem a voltar ao comportamento animal, abandonando-se aos instintos sem se importar com a moral. Isto terá grandes repercussões. Aqui e agora, é um fator de crise para a civilização.

O preceito de "não matar" não se refere somente a tirar a vida humana. Quando eu era menino, esta moral fundamental era ensinada em forma de apaixonantes histórias. Na época atual, esta forma de ensinamento está em desuso, pois foi esquecida pela maioria de educadores, os quais tendem mais a se opor a e esta moral fundamental do que a segui-la. Eis aqui uma história que nos contavam para ilustrar o preceito de "não matar":

"Era uma vez, um jovem pescador que, quando não estava no mar realizando seu duro ofício, gostava de passear pela praia da aldeia em que vivia. Um dia, como em tantos outros em que seus passos o haviam levado sobre a praia, foi repentinamente despertado de seus pensamentos pelos gritos e risos de uns rapazotes, que um pouco à frente, formavam um roda e pareciam muito agitados.

Taro Urashima, tal era o seu nome, aproximou-se e viu que a razão da agitação era a captura de uma tartaruguinha, a quem maltratavam para se divertir. Urashima propôs uma troca aos meninos. Ele lhes daria umas moedas e eles lhe entregariam a tartaruga. Assim aconteceu. Urashima comprou, pois, a tartaruga, acariciou-a, alimentou-a e devolveu-lhe a liberdade. A tartaruga correu até o mar e desapareceu. Os dias e os meses se passaram. Um ano depois deste acontecimento, uma grande tartaruga se aproximou do barco em que Urashima pescava. Chegou muito perto e dirigiu-se a ele:

- Bom dia jovem pescador. Não se recorda de mim? Há muito tempo você me salvou das mãos de uns jovens malvados que me torturavam. Agora quero demonstrar minha gratidão. Você vai ser recompensado. Monte sobre minha carapaça que eu vou te conduzir a um país maravilhoso, como você nunca pôde sonhar. Venha! Vou te guiar!

Taro Urashima, que não acreditava em seus olhos, montou sobre a tartaruga e, cavalgando-a, perdeu-se no horizonte. Não deve ter sido uma viagem muito longa; no entanto, toda noção de tempo havia desaparecido no espírito de Urashima, e a travessia aconteceu como um sonho. Tão inesperadamente como deixou seu barco, encontrou-se diante de um palácio majestoso, O Palácio do Rei dos Dragões.

O esplendor do luxo que emanava de todas as partes era indescritível aos olhares. Seres maravilhosos o povoavam, meio mulheres, meio anjos, mais esplêndidos que todos os tesouros da terra reunidos! A rainha apareceu, insuperável em beleza. Com recepção de honra, aproximou-se e beijou-o com um beijo mais etéreo que a brisa sobre a superfície do lago. Foi conduzido a um magnífico salão em cujo centro estava uma grande mesa coberta dos manjares mais suculentos e na qual ardiam vários candelabros de ouro. Os frutos de sabores tão diferentes se mesclavam com as exalações de flores mágicas. A noite evoluía ao som de doces melodias que transportavam as almas até o auge da ternura, e que eram sucedidas por canções alegres acompanhadas ao ritmo das dançarinas, que se movimentavam como fadas emergindo do bosque.

"Seria o amanhecer ou o crepúsculo? Nascia o dia ou caía a noite?" Ninguém poderia responder. A pergunta havia sido absurda, já que o tempo era algo desconhecido neste lugar, ou ao menos não possuía nenhuma ligação com o que Taro Urashima conhecia. Nem rastro de noite, nem de dia, nem de estações, nem de anos... "Haviam se passado anos, ou um instante?" Urashima penetrou nestas reflexões. Nada parecia envelhecer, nada se modificava - nem os seres, nem as flores, nem os frutos, nem a luz - nada. Nada que estivesse marcado pela roda do tempo. "Seria um sonho, um milagre, uma visão?" Não, ele vivia, se alimentava e respirava. Beliscou-se e sentiu dor. E eram reais os objetos que o rodeavam, bem palpáveis!!! Onde estava? Que estava vendo? Imediatamente, a nostalgia, uma nostalgia forte e opressiva, apoderou-se de todo o seu corpo. Em seu espírito, formaram-se imagens cada vez mais claras, recordações, recordações distantes... Uma praia, seus irmãos, seus amigos, a pesada rede de pesca que estava acostumado a tirar com tanto esforço, mas que o enchiam totalmente de alegria... Seguindo as imagens que desfilavam em seu espírito, sucedendo-se e aclarando-se cada vez mais, Urashima pouco a pouco voltou a ser pescador. O desejo de voltar à sua aldeia se apoderou dele, e ele comunicou isto à rainha. Ela se entristeceu, porém seus argumentos nada puderam fazer perante a determinação de Urashima.

- É uma grande tristeza, posso lhe dizer. Você quer nos deixar e eu não posso fazer nada contra sua decisão. No entanto, peço-lhe que aceite este presente. Veja este cofre. Além de ser feito de ouro e pedras preciosas, encerra em si um tesouro. Porém, recorde-se bem disto: Não deverá abri-lo nunca! Enquanto possuir esta caixa, poderá ser feliz para sempre e tudo lhe será possível graças ao poder do cofre. Se algum dia quiser voltar aqui, poderá fazê-lo. Poderá fazer tudo o que quiser, menos abrir este cofre.

Urashima tomou o cofre e se foi. Ao cruzar a porta do Palácio dos Dragões, a tartaruga o esperava:
- Sentiu-se bem durante sua estada?
- Muito. Até me esqueci de minha aldeia natal. Porém, quanto tempo estive aqui?
- Muito tempo. Eu mesma já sou muito velha - respondeu a tartaruga.

Alguns instantes mais tarde, Taro Urashima já estava de novo em sua aldeia. Porém, que espetáculo mais estranho!!! Olhou ao seu redor e constatou que nada do que havia deixado existia mais. Tudo havia mudado. Tudo havia se transformado. Entrou na casa que havia sido de seus pais e encontrou-se com uns estranhos. Pais, amigos, irmãos, irmãs... há tempo tinham desaparecido, contaram-lhe. "Que jovem estranho", pensavam os aldeãos. "Ele busca seus pais, que são tão velhos que somente nossos avós puderam conhecer. E busca seus irmãos e irmãs da idade de nossos avós e de amigos que foram amigos de nossos avós." Todos pensaram que ele era um pouco idiota; ainda assim, receberam-no como amigos. O calor de sua acolhida, porém, não poderia aliviar a saudade de Urashima, que se sentia cada vez mais melancólico. Então, lembrou-se do cofre que a Rainha do Palácio dos Dragões lhe havia confiado e seu coração se iluminou de novo. Invadido por uma alegria repentina, esqueceu as palavras da rainha. Apressou-se em abrir a caixa, pensando encontrar um tesouro fabuloso. Que erro! Os anos passaram sobre ele em um instante...! Em um instante tornou-se um velho centenário. Em um instante, as rodas de toda a vida passaram sobre ele... Na caixa não havia nada. Estava vazia... e dela um fiozinho de fumaça escapou.


*Os Dez Atos Não Virtuosos - Os atos prejudiciais do corpo: matar, roubar e ter má conduta sexual. Os quatro atos prejudiciais da palavra: mentir, criar a discórdia por fofocas, usar palavras ofensivas e usar palavras fúteis. Os três atos prejudiciais do espírito: a inveja e a cobiça, a maldade e o desejo de prejudicar, e as opiniões erradas ao respeito do Dharma.
  1. Extraído de www.jardimdharma.org.br