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O BUDHA NÃO ESTÁ MAIS DISTANTE QUE A PALMA DE NOSSA MÃO.
de Namkhaï Norbu Rinpoche
Extraído do livro "Le Yoga du Rêve"
Composto por Mip’am Jamyang Dorje Rinpoche
Traduzido do tibetano por Khenpo Palden Sherab, Khenpo Tséwong Dongyal, Deborah Lockwood, Michael Katz.
Traduzido para o português por Karma Tenpa Dhargye


Nota do editor: o texto seguinte que trata da via dzogchen, é traduzido aqui pela primeira vez. O autor, o grande mestre de meditação Mip’am Rinpoche (1846-1914), tentou mostrar a "verdadeira natureza da mente".

 I – Ensinamento Quintessencial sobre o tema da Mente;

O Budha não está mais Distante que a Palma de Nossa Mão.
Inclino-me diante de Padmasambhava.
E diante do ilustre Lama que é a emanação do ser de sabedoria Manjushri1 (e semelhante a) todos os budhas seus filhos.
Em atenção daqueles que desejam (aprender) a meditação (sobre) o reconhecimento do sentido profundo da mente,
Eu vou explicar brevemente o início da via dos conselhos do coração2.
É necessário, no início, confiar no ensinamento quintessencial de um Lama que (possui) a experiência da realização.
Se não penetrarmos (na experiência do) ensinamento do Lama,
Toda a perseverança e o esforço consagrados à meditação equivalerão a disparar uma flecha na escuridão.
Por esta razão, renunciem a todas as aproximações corrompidas e artificiais da meditação.
O ponto crucial é de colocar (sua consciência) no estado não-fabricado3, instalado em si-mesmo; o rosto da sabedoria sem véu que é distinto do envoltório da mente (quer dizer daquela que se identifica).
Reconhecendo (esta sabedoria), atingimos o ponto essencial.
O sentido de "permanecer desde o início" é o estado natural, não-fabricado.
Tendo desenvolvido a convicção intima de que tudo o que surge é a essência do Dharmakaya4, não rejeitem (este conhecimento).
(Deixar-se levar) pelas explicações discursivas (sobre o tema da via), é como correr atrás de um arco-íris.
Quando as experiências meditativas se manifestam como conseqüência da consciência lúcida do nobre estado não-fabricado, não é pelo meio indireto de uma concentração exterior (mas de preferência) mantendo a não-ação5.
Estupendo, (a maneira como) chegamos à este conhecimento!

II – No momento bem-aventurado onde (atingimos) o estado intermediário

A constância do estado inabalável é mantida pela lembrança do estado espontaneamente estabelecido da "mente-em-si".
Se colocar neste estado é suficiente.
(Se obstáculos são produzidos) pelas nuvens que se elevam da análise mental que cria a distinção entre o sujeito e o objeto da meditação.
(Lembremo-nos) então da natureza da mente que desde o início é não-fabricada – "a mente-em-si", vasta como o céu.
(Para) relaxar, libertemo-nos da estreiteza e dissipemos o apego à (esses conceitos).
O conhecimento espontâneo estabelecido não consiste em pensamentos que fluem em todas as direções.
Ele é vacuidade límpida e radiante, distinta de toda avidez mental.
(Este estado) não pode ser descrito por exemplos, símbolos ou palavras.
Percebemos diretamente a consciência (última) por meio da sabedoria do discernimento.
O nobre estado da consciência lúcida, imparcial, vazia não mudou, não muda e não mudará.
(Ela é) nosso próprio rosto, mascarado pelas impurezas dos conceitos repentinos, diversas vagabundagens quiméricas.
Como é triste!
Que ganharemos em nos prender a uma miragem?
Qual o objetivo de perseguirmos esses sonhos diversos?
De que serve se agarrar ao espaço?
Por conceitos variados, colocamos a cabeça ao contrário.
Coloquem de lado essa falta de sentido esgotante e detenhamo-nos na esfera primordial.
O céu verdadeiro é (saber) que samsara e nirvana não são mais que uma exibição ilusória. Mesmo que hajam exibições muito variadas, consideremos que elas têm o mesmo sabor.
(Ter-se estabelecido) em uma relação íntima com a meditação permite lembrar-se da consciência semelhante ao céu;
Que é consciência nua, situada em si mesma, vibrante, livre dos conceitos.
(A mente natural) está além do conhecimento ou do não-conhecimento, da felicidade ou do sofrimento.
A felicidade nasce (deste) estado de relaxamento/repouso total.
Então, no movimento ou na imobilidade, no ato de comer ou de dormir, nós conhecemos permanentemente este estado, e tudo é a via.
(Assim), "vigilância" [atenção] designa esta consciência semelhante ao céu. (E mesmo) no período que segue a sessão de meditação (formal), elaboramos muito menos conceitos.

 III – Nos momentos bem-aventurados do estado último,

Relativamente às quatro ocasiões (mover, ficar imóvel, comer e dormir)6,
As marcas dos hábitos tenazes, a partir das quais surgem todos os conceitos e os sopros cármicos da mente, são transformados.
(Nós) possuímos a capacidade de nos recolher na cidadela da sabedoria imóvel e inata. O que chamamos samsara7 não é mais que um conceito. A majestosa sabedoria é livrar-se de todo conceito.
Então, tudo o que surge se manifesta como totalmente perfeito.
O estado da nobre clara luz é constante – tanto à noite como de dia.
Ela é outra que a distinção entre se lembrar e não se lembrar.
Outra que desviar-se de seu justo lugar pela advertência do terreno fundamental que impregna toda coisa.
Então, não realizamos nada pelo esforço.
Sem nenhuma exceção, todas as qualidades inerentes às vias e as bases – clarividência, compaixão, etc. – surgem espontaneamente8,
Crescente como a relva que chega à maturidade no verão.
Liberto de apreensão e de vaidade, liberado de esperança e medo,
É a grande felicidade não-nascida, eterna, vasta como o céu.
Essa nobre yoga é (semelhante) ao Garuda lúdico no céu da Grande Perfeição imparcial.
Maravilhoso!
Confiando no ensinamento quintessencial dum mestre,
O meio de manifestar esta sabedoria da essência do coração
É realizar as duas acumulações (de mérito e sabedoria)9 d’uma maneira tão ampla como o oceano é vasto.
Então, sem dificuldade, (a realização) será colocada na sua mão.
Espetacular!
Em conseqüência, possam todos os seres sensíveis, pela virtude desta explicação, chegar a ver Manjushri juvenil, que é atividade compassiva de nossa própria consciência, mestre supremo, essência do diamante (o Dzogpa Chenpo da clara-luz).
Tendo percebido isso, nesta vida mesma, possamos atingir a iluminaçao perfeita.

Notas:

  1. Manjushri: o Bodhisattva da Sabedoria. Segundo a mitologia budista, Manjushri foi, em uma encarnação anterior, o rei Amba que fez o voto de se tornar um bodhisattva para o bem de todos os seres.
  2. Os conselhos do coração: o ensinamento do coração do lama. É um ensinamento essencial condensado, destinado à meditação e apresentado pelo lama aos seus discípulos de coração.
  3. O estado não-fabricado: a consciência que surge no instante da percepção; uma pura presença que aparece sem modificação, não engendrada por causas. Para mais detalhes, ver The Cycle of Day and Night, de Namkhaï Norbu.
  4. Dharmakaya: dharma significa a totalidade da existência; kaya é esta dimensão. A base essencial do ser cuja essência é a claridade e a luminosidade e no seio da qual todos os fenômenos são percebidos como despidos de existência intrínseca.
  5. A experiência meditativa se manifestando por intermédio da não-ação: a meditação do Dzogchen é não-conceitual e realizada simplesmente pelo reconhecimento sem esforço de nossa própria natureza verdadeira, não condicionada. A ação ou o esforço para realizar a meditação são contrários à presença relaxada que caracteriza a prática dzogchen.
  6. Mover-se, permanecer imóvel, comer e dormir: as quatro atividades, englobando todas as ações possíveis, no meio das quais um praticante dzogchen tenta manter sua consciência lúcida.
  7. Samsara: existência cíclica marcada pelo nascimento, a velhice, a doença, a morte e o renascimento. Os seres sensíveis, dominados pelo desejo, a ira e a ignorância, continuam a migrar através dos seis mundos do samsara (o mundo dos deuses, dos semi-deuses,, dos humanos, dos animais, dos espíritos famintos, e dos seres infernais) segundo seu carma.
  8. Qualidades inerentes que surgem espontaneamente: como conseqüência natural da meditação dzogchen, os praticantes avançados podem desenvolver qualidades transcendentais tais como uma grande sabedoria, compaixão, a clarividência etc.
  9. As duas acumulações: a acumulação de mérito por meio das boas ações e da sabedoria por intermédio da contemplação. Se bem que os dois sejam importantes sobre a via do Dharma, o Budha disse que se conseguimos manter o estado de contemplação (a acumulação de sabedoria) durante o tempo que é preciso a uma formiga para ir da extremidade do nariz de uma pessoa a sua testa, isso seria mais benéfico que uma vida inteira de acumulação de méritos pela ação virtuosa e a generosidade.
  10. Mip’am Rinpoche: celebre mestre budista tibetano do séc. XIX que começou por ser aluno de Patrul Rinpoche. Mip’am foi o autor de comentários originais sobre o dzogchen e sobre outras escrituras budistas importantes.