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Sofrimento verdadeiro e sofrimento falso
Texto de Charlotte Joko Beck,
extraído do livro"Sempre Zen"

Ontem estava conversando com uma amiga que há pouco tempo passou por uma grande cirurgia e está se recuperando. Perguntei-lhe qual seria um bom tema para uma dharma palestra; ela riu e disse: "Paciência e Dor. Ela considerou interessante o fato de, nos dias imediatamente subseqüentes à operação, sua dor ter sido clara, limpa, aguda, sem problemas. Mas, quando ficou um pouco mais forte, a mente começou a funcionar, e começou o sofrimento. Todos os seus pensamentos a respeito do que estava acontecendo com ela começaram a aparecer.

De certo modo, sentamos para a prática sem propósito algum; esse é um de seus lados. Porém, o outro é que desejamos nos libertar do sofrimento. Não só isso, como queremos que os outros também fiquem livres. Desse modo, um elemento central de nossa prática é compreender o que é o sofrimento. Se realmente o entendermos, veremos como praticar, não apenas enquanto estamos sentados, mas no restante de nossa vida. Podemos entender nossa vida diária e ver que ela de fato não é problema. Há algumas semanas, uma certa pessoa emprestou-me um artigo muito interessante sobre o sofrimento; a primeira parte versava sobre o significado do vocábulo «sofrimento". Interessam-me esses significados, são em si ensinamentos.

O autor do referido artigo assinalou que o vocábulo "sofrimento" é usado para expressar muitas coisas. O elemento — frer/frimento, deriva do latim ferre, suportar. E a parte inicial do termo, — so, vem de sub, "embaixo". Então há o sentimento nessa palavra de "estar embaixo", «suportar embaixo", "estar completamente sob", "estar suportando alguma coisa por baixo".

Em contraste com esta palavra, "aflição", "pesar" e "depressão" são termos que trazem à mente imagens de peso, de algo que pesa de cima para baixo. O termo "pesar", do latim gravare significa "pressionar".

Assim, existem duas formas de sofrimento. Uma é aquela em que nos sentimos pressionados de cima para baixo, como se o sofrimento viesse até nós de uma fonte externa, como se estivéssemos recebendo alguma coisa que nos está fazendo sofrer. O outro tipo é estar sob, apenas suportando-o, apenas sendo-o. Essa distinção no entendimento do sofrimento é uma das chaves ao entendimento de nossa prática.

Algumas vezes fiz uma distinção entre «sofrimento" e "dor", mas agora gostaria de usar o termo "sofrimento" e nele distinguir o que chamo falso sofrimento e sofrimento verdadeiro. A compreensão dessa diferença é muito importante. Os fundamentos de nossa prática e a primeira das Quatro Nobres Verdades é a declaração do Buda de que "A vida é sofrimento". Ele não disse que, às vezes, é sofrimento; ele disse: a vida é sofrimento. Quero distinguir esses dois tipos de sofrimento.

Em geral as pessoas revelam: "Sem dúvida consigo ver que a vida é sofrimento quando tudo dá errado, tudo é desagradável, mas não consigo mesmo entender que o seja quando as coisas estão indo bem e estou me sentindo bem". Há, porém, diferentes categorias de sofrimento. Por exemplo, quando não obtemos esse algo que desejamos, sofremos. Contudo, quando de fato obtemos esse algo, também sofremos porque sabemos que, se o conseguimos, podemos perdê-lo. Não importa obter ou não, se acontece ou não conosco. Sofremos porque a vida está mudando constantemente. Sabemos que não podemos ficar para sempre com as coisas agradáveis e, mesmo que as coisas desagradáveis desapareçam, elas podem voltar.

O vocábulo "sofrer" não implica de forma alguma uma experiência marcante e dramática; nem o dia mais agradável está isento de sofrimento. Por exemplo, vocês podem ter tomado o melhor café da manhã de suas vidas, podem ter encontrado exatamente aquele amigo que tanto queriam, ir para o trabalho e tudo correr às mil maravilhas. Não existem muitos dias tão bons assim, mas, até então, sabemos que no dia seguinte pode ocorrer tudo ao contrário. A vida não nos oferece garantias e, como sabemos disso, ficamos inquietos e ansiosos. Se na realidade examinamos nossa situação do ponto de vista habitual, a vida é sofrimento, como uma aflição.

Bem, minha amiga observou que, enquanto só havia a dor física, não havia problema. No instante em que começou a alimentar pensamentos sobre a dor, começou a sofrer e a ficar infeliz. Isso me faz pensar numa citação do Mestre Huang Po: "Esta mente não é a mente do pensamento conceitual e está completamente separada da forma. Nessa medida, Budas e seres sensíveis não diferem em absoluto entre si. Se você conseguir libertar-se do pensamento conceitual, terá conseguido tudo. Todavia, se vocês, aprendizes do Caminho, não se libertarem de repente do pensamento conceitual, mesmo que se esforcem por todos os séculos, jamais chegarão lá".

É a atividade de nossa mente, da conceituação a respeito de tudo que nos acontece, que constitui o problema. Não há nada de errado com as conceituações em si, mas, quando consideramos que as opiniões sobre algum evento são uma espécie qualquer de verdade absoluta, esquecendo-nos de que são opiniões, então sofremos. Esse é o sofrimento falso. "Um décimo de uma polegada de diferença, e céu e terra estão distanciados."

Quero acrescentar aqui uma consideração; não faz a menor diferença o que está acontecendo. Pode ser muito injusto ou muito cruel. A todos nós acontecem coisas injustas, mesquinhas, cruéis. Nosso hábito é pensar: "Mas que coisa terrível!". Revidamos, opomo-nos ao que acontece. Tentamos fazer como mencionou Shakespeare: "Apresentar armas contra um conjunto de problemas e, opondo-nos a eles, eliminá-los".

Seria ótimo se realmente "as flechas e as atiradeiras da sina mais ultrajante" pudessem cessar. Todos os dias somos confrontados com acontecimentos que nos parecem completamente injustos e sentimos que a única maneira de enfrentar um ataque é revidando-o. Nosso revide está em nossas mentes. Armamo-nos com nossa raiva e nossas opiniões, nossas justíssimas considerações, como se estivéssemos envergando um colete a prova de balas. Pensamos que desse modo estamos do melhor jeito possível para viver. O máximo que conseguimos é intensificar as distâncias, aumentar a raiva e fazer a nós e a todas as outras pessoas infelizes. Portanto, se essa abordagem não funciona, como enfrentarmos o sofrimento da vida? Há uma história sufi a esse respeito.

Havia há muito tempo um rapaz, cujo pai era um dos maiores professores daquela época, respeitado e reverenciado por todos. E o rapaz, tendo crescido ouvindo as palavras de grande sabedoria do pai, sentia que já sabia tudo o que havia por aprender. Mas seu pai lhe disse: "Não. Eu não posso lhe ensinar o que você precisa saber. A pessoa que quero que você ouça é um professor camponês, um analfabeto, um lavrador". O rapaz não gostou nem um pouco, mas foi assim mesmo e viajou a pé, meio indisposto, até chegar à aldeia onde morava o camponês. Aconteceu que nesse momento o professor, montado em seu cavalo, estava saindo de sua fazenda e indo para outra; nisso, viu o rapaz encaminhando-se até ele.

Quando o rapaz chegou perto o suficiente e curvou-se diante dele, o professor olhou-o de cima a baixo e falou: "Não basta".

Ouvindo isso, o rapaz ajoelhou-se e o camponês repetiu: "Não basta". O rapaz curvou-se diante dos joelhos do cavalo e o professor disse outra vez: "Não basta". Então, o rapaz curvou-se mais uma vez, chegando às patas do cavalo, tocando o casco. Nisso, o camponês comentou: "Agora você pode voltar. Você teve seu treinamento". Isso foi tudo.

Portanto (lembrando-nos da definição da palavra sofrer"), até que nos curvemos e suportemos o sofrimento da vida, sem nos opormos a ele, mas absorvendo-o e sendo-o, não conseguiremos enxergar o que a vida é. De modo algum, isso implica passividade, inação; implica, ao contrário, a ação provinda de um estado de completa aceitação. Até mesmo o termo "aceitação" não é muito preciso; quero dizer, simplesmente ser o sofrimento. Uma completa abertura, uma completa vulnerabilidade à vida é (para nossa grande surpresa) o único meio satisfatório de se viver.

Claro que se vocês forem um pouquinho parecidos comigo, irão evitá-lo tanto quanto possível, porque uma coisa é falar do sofrimento e outra, extremamente difícil, é fazer o que estou dizendo. Entretanto, quando o fazemos, sabemos bem no fundo quem somos e quem todos são, e desaparece a barreira entre nós e os outros.

Nossa prática, ao longo de nossa vida, é isso: a qualquer momento específico, temos um ponto de vista rígido ou uma posição inflexível a respeito da vida, que inclui algumas coisas e exclui outras. Podemos mantê-lo durante um certo tempo, porém, se nossa prática for sincera, ela mesma abalará as certezas inabaláveis de nossas opiniões e não seremos mais capazes de mantê-la. Quando começarmos a questionar nossos pontos de vista, sentiremos inquietação, luta, aborrecimento, nesse esforço para chegarmos a um acordo com as novas percepções relativas a nossa vida. Por muito tempo, talvez, lutemos contra as novas informações e as neguemos. Faz parte da prática. Mas, um dia, sentiremos que estamos dispostos a vivenciar nosso sofrimento em vez de lutar contra ele. Quando o fizermos, nossas referências e opiniões sofrerão abruptas modificações. Então, mais uma vez, nossas novas perspectivas irão sustentar-se por um certo tempo, até que se reinicie o ciclo.

Mais uma vez surge a inquietação e começamos a lutar, a ir contra o que nos acontece. Cada vez que fazemos isso, cada vez que entramos no sofrimento e nos entregamos à situação, nossa visão de vida se amplia. E como escalar uma montanha. Cada passo em direção ao alto permite-nos enxergar mais, e essa visão não nega as coisas que ficaram embaixo — ela as inclui —, mas se torna maior a cada etapa da subida, a cada estágio do esforço. Quanto mais enxergamos, mais abrangente nossa visão, mais saberemos o que fazer, qual ação encetar.

Como falo com inúmeras pessoas, a coisa principal que observo é que elas não compreendem o sofrimento. Claro que nem sempre eu também o entendo e tento evitá-lo como qualquer um. Contudo, ter um entendimento teórico do que é o sofrimento e como praticar com ele torna-se um instrumento de extrema utilidade, em especial no sesshin. Podemos entender melhor o que ele é e como usá-lo em sua melhor característica, efetuando de fato uma prática.

A mente que cria o falso sofrimento está constantemente funcionando nos sesshins. Não há quem não esteja sob seu jugo. Na noite passada constatei-a em mim mesma. Podia ouvir minha mente se queixando: "O quê?! Outro sesshin! Você acabou de fazer um, no último fim de semana!". Nossas mentes funcionam dessa maneira. Depois, quando enxergo esse absurdo, lembro-me de perguntar: "O que de fato quero para mim e para os outros?". Diante disso, essa mente se aquieta de novo.

Assim, quando fazemos zazen, recusamos com paciência a dominação desses pensamentos e dessas opiniões a respeito de nós, dos acontecimentos, das pessoas e, constantemente, estamos de volta à única realidade segura: o momento presente. Ao fazermos isso, nosso foco e o sarnadhi se aprofundam. Por conseguinte, no zazen, a renúncia do bodhisattva é essa prática, é esse afastarmo-nos da fantasia e dos sonhos pessoais, penetrando na realidade do presente. Nos sesshins, cada momento que praticamos desse jeito nos dá aquilo que não podemos obter de nenhuma outra maneira: o conhecimento direto de nós mesmos. E quando ficamos de frente para esse momento, de um modo direto, é quando encaramos o sofrimento. Enfim, quando realmente nos sentimos dispostos a penetrar em sua dinâmica, sê-lo apenas; nesse instante, sabemos quem somos, o que é tudo o mais, e ninguém precisa nos dizer coisa alguma.

Mas às vezes as pessoas comentam: "É difícil demais No entanto, não praticar absolutamente nada é muito, mas muito mais difícil. Estamos mesmo nos enganando, quando não praticamos. Portanto, tenham bastante clareza a respeito de vocês mesmos, acerca do que deve ser feito para encerrar o sofrimento; e vejam também que, praticando com essa espécie de coragem, podemos fazer com que os outros não tenham medo, não sofram. Conseguimos isso através de uma prática persistente, inteligente e paciente. Jamais alcançamos esse resultado com nossas queixas, amargura e raiva; e não estou sugerindo que suprimamos esses sentimentos. Se aparecerem, observem-nos; não é preciso suprimi-los. Retornem, então de imediato, para a respiração, e o corpo; voltem ao estarem sentados, pura e simplesmente. Quando fazemos isso, não há aquele que, ao final de um sesshin, não tenha encontrado as recompensas oferecidas pelo verdadeiro sentar. Sentemo-nos dessa maneira.