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Tragédia
Texto de Charlotte Joko Beck,
extraído do livro"Sempre Zen"

Segundo o dicionário, tragédia é "uma obra teatral em verso, de caráter grandioso, dramático e funesto, em que intervêm personagens ilustres ou heróicas, que é capaz de infundir terror e piedade". Do ponto de vista habitual, a vida é uma tragédia, mas, apesar disso, levamo-la como uma inútil tentativa de nos escondermos da tragédia. Cada um de nós é um protagonista desempenhando seus papéis principais em palquinhos particulares. Cada um de nós sente que intervém e, apesar de não querermos admiti-lo, ela tem um caráter dramático e funesto. Além de quaisquer acidentes que possamos encontrar na vida, existe um, no final, que ninguém pode evitar. Fomos feitos para ele e, a partir do momento de nossa concepção, está dada a partida para atingi-lo. De um ponto de vista pessoal, isso é uma tragédia. Por essa razão, desperdiçamos nossa vida numa batalha sem sentido para evitar esse fim. Essa batalha abortada é a verdadeira tragédia.

Vamos imaginar que moremos à beira-mar num clima ameno, onde poderíamos nadar o ano inteiro, mas as águas estão infestadas de tubarões. Se formos nadadores hábeis, iremos pesquisar as áreas onde se concentram para os evitarmos. Mas sendo os tubarões o que são, mais cedo ou mais tarde, terminarão encontrando nossas áreas de recreação e nos descobrirão. Jamais teremos certeza. Se um tubarão não nos pegar, as ondas gigantescas o farão. Pode ser que nademos todos os dias de nossas vidas, sem nunca encontrar um só tubarão; no entanto, a preocupação com essa possibilidade pode estragar tudo.

Todos já têm uma idéia de onde os tubarões possam estar em nossas vidas e gastamos a maior parte de nossa energia, preocupando-nos com eles. É sensato precavermo-nos contra os danos físicos; compramos seguros, vacinamos as crianças, baixamos nosso nível de colesterol. Mas existe um erro que grassa em surdina nos nossos pensamentos. Qual é ele?

Qual é a diferença entre tomar providências razoáveis e a preocupação incessante com pensamentos que rodopiam vertiginosamente? Há uma famosa parábola budista: um homem estava sendo caçado por um tigre. Em seu desespero, desceu pela beira de um rochedo e agarrou-se a um arbusto; enquanto aquele tigre vinha se aproximando por cima, ele olhou para baixo e viu um outro tigre lá embaixo, só esperando que ele caísse. Para culminar, dois ratos estavam roendo o tronco do arbusto. Naquele instante, viu alguns morangos silvestres e, segurando-se por uma das mãos, colhe a fruta e a come. Era deliciosa! O que aconteceu com o homem afinal? Todos sabemos, claro. Foi uma tragédia o que lhe aconteceu?"

Observe que o homem caçado pelo tigre não se deita e diz: "Oh, linda criatura. Somos um só. Por favor, coma-me". A história não é sobre ser estúpido, muito embora, num certo nível, homem e tigre sejam um só. O homem fez o melhor que pôde para se proteger, como qualquer um de nós faria. Não obstante, se estamos pendurados no abismo, segurando-nos apenas num arbusto, podemos ou desperdiçar nossos últimos momentos ou desfrutá-los. Não seria por acaso cada momento o último? Não há outros momentos além deste.

É sensato cuidarmos de nossa mente e de nosso corpo. O problema começa, quando nos identificamos exclusivamente com eles. Poucas pessoas na história da humanidade identificaram-se com outras formas de vida tanto quanto com as suas próprias. Para elas, não existe tragédia porque não existe adversário em seu caso. Se somos unos com a vida — independente de quem seja, do que seja, do que faça não existem protagonista, adversário e tragédia. E o morango pode ser saboreado.

Quando nossa prática é constante, firme, intensa, podemos começar a perceber o equívoco de uma identificação exclusiva com a mente e o corpo. (Claro que enxergaremos isso em graus variáveis e, às vezes, nem o veremos.) Não se trata de uma compreensão intelectual. A física moderna deixa claro que somos "um", que somos apenas manifestações diferentes de uma só energia e isso não é difícil de compreender-se intelectualmente. Entretanto, na qualidade de seres humanos dotados de mente, corpo e emoções, quanto sabemos disso, de fato, com cada célula de nosso corpo?

Quando o cerco das identificações com a mente e o corpo afrouxa um pouco e, até certo ponto, é visto tal como é, ficamos mais receptivos às percepções dos outros, mesmo quando não concordamos com elas, mesmo quando é preciso que nos oponhamos a elas. Cada vez mais, nossa atitude pode incluir o outro lado da moeda, o ponto de vista da outra pessoa. Quando isso acontece, não há um protagonista diante de um adversário.

A prática é o ver cada vez através da ficção dessas identificações exclusivas, que é a enfermidade que dita nossas ações. Quando fazemos zazen, temos uma preciosa oportunidade para ficar de frente para nós mesmos, para enxergar a natureza do falso pensamento que cria a ilusão de um eu separado.

A imensa sagacidade da mente humana pode funcionar muito bem quando desafiada; mas, sob o impacto da invasão que é um sesshin, sentar-se imóvel durante horas, ficam claras como cristal a desonestidade e as tentativas de fuga da mente. Começa também a ser sentida a tensão criada pela sagacidade mental. Pode ser um grande choque darmo-nos conta de que não existe nada fora de nós, atacando-nos. São nossos pensamentos, necessidades e apegos que nos assaltam, frutos de nossa identificação com pensamentos falsos que, por sua vez, dão margem a uma vida autocontida, separada e infeliz. Quando praticamos diariamente o sentar, podemos evitar às vezes essa percepção; mas ao sentarmos durante horas por dia é difícil evitá-la e, quanto mais dias sentarmos, mais difícil será esquivar-se a ela.

Conforme formos praticando com paciência (vivenciando nossa respiração, tomando consciência do processo de pensamento), nasce a percepção não do intelecto, mas das próprias células de nosso corpo. O falso pensamento evapora-se como nuvens ao calor do sol e encontramo-nos, então, em meio ao sofrimento como uma abertura, como uma espacialidade e como uma alegria que nunca havíamos saboreado antes.

Certa vez alguém insistiu comigo nesse ponto: "Isso ainda não resolve o problema da morte. Nós continuamos morrendo". De fato. Se, no momento que antecede imediatamente a morte, pudermos dizer: "Mas que morango delicioso!", então não há problema. Se o tubarão nos comer, então ele terá tido uma excelente refeição. E talvez o pescador que o pescar. Do ponto de vista do tubarão é uma tragédia. Do ponto de vista da vida, não.

Não estou sugerindo um novo ideal para ser perseguido. O homem que foge do tigre, tremendo de medo, é o dharma. Aquilo que vocês são, é dharma. Portanto, quando estiverem no sentar, e lutarem e se sentirem infelizes ou confusos, sejam apenas isso. Se forem abençoados, sejam apenas. Porém, não se apeguem. Assim, cada momento será só o que cada momento é. Com uma prática paciente como essa, enxergamos o equívoco de nossa identificação exclusiva com a mente e o corpo, e começamos a compreender.

A tragédia sempre inclui um protagonista envolvido numa luta. Todavia não temos de ser protagonistas envolvidos em lutas intermináveis com forças externas a nós. A luta é travada com nossas próprias interpretações, que terminarão em ruína apenas se assim as virmos. Como diz o Sutra Coração: "Não há velhice e morte, e não há o fim para a velhice e para a morte... Não há sofrimento e não há fim para o sofrimento". O homem que é caçado pelo tigre é enfim devorado. Certo. Sem problemas.


  1. Extraído de "SEMPRE ZEN - Como introduzir a prática do Zen em seu dia a dia".