Escolha
 
logo FALE CONOSCO
shunya meditação mestres textos zen dzogchen links

A nossa verdadeira natureza
Texto de Pema Chödrön
Resumo do livro, "The Wisdom of No Escape" 1996
Publicado por Shambhala Pocket Book Classics
Traduzido e revisado por Tenzin Namdrol


Num ensinamentos, o Buda discorre sobre quatro tipos de cavalos: o excelente, o bom, o mau, e o péssimo. Segundo o sutra, o excelente cavalo põe-se em marcha antes mesmo de sentir o comando, basta ver sua sombra ou ouvir um muxoxo do cavaleiro. O bom cavalo se põe em marcha com um leve toque na garupa. O mau cavalo só se põe em marcha quando é fustigado e o péssimo cavalo só se move quando sente a dor nos próprios ossos.

Quando Shunryu Suzuki conta esta história no livro Mente Zen, Mente Principiante, diz que quando os discípulos ouvem este sutra dizem que querem ser o melhor cavalo; porém quando começamos a meditar não importa se somos o melhor ou o pior, diz mesmo que o melhor praticante é o péssimo cavalo.

Aprendi que a prática não tem nada a ver em ser o melhor cavalo, ou o bom cavalo, ou o mau cavalo ou o pior cavalo, mas em ir ao encontro da nossa verdadeira natureza, passando a nos expressar e a agir através dela. Qualquer que seja esta nossa qualidade, ela é a nossa riqueza e beleza; e será a ela que os nossos interlocutores se dirigirão.

Comentei um dia com Trungpa Rinpoche que a minha prática deixava a desejar. Tinha começado as do Vajrayana e tinha de fazer visualizações, mas não conseguia visualizar coisa nenhuma. Tentei muitas vezes, mas não conseguia; sentia-me uma impostora porque as visualizações não surgiam espontaneamente. Todos os demais logravam muito bem, mas não eu, o que me entristecia. Ele respondeu: "desconfio sempre dos que dizem que vai tudo bem porque pode ser uma forma de arrogância. Quando tudo é fácil, relaxamos, não nos esforçamos e não chegamos a saber o que seja ser plenamente humano". Animou-me dizendo que enquanto tivesse tais dúvidas faria uma boa prática, ao contrário, quando pensamos que fazemos tudo perfeito sentimo-nos superiores aos demais e então, cuidado!

Dainin Katagiri Roshi nos fala de sua experiência em ser o pior cavalo. Quando chegou aos Estados Unidos vindo do Japão era um jovem monge com menos de 30 anos. Por muitos anos, tinha sido monge no Japão, onde tudo era feito com exatidão, asseio e com ordem. Nos E.U.A. seus discípulos eram hippies: não cuidavam dos cabelos, andavam descalços e mulambentos. Não gostava deles, simplesmente não suportava os hippies e o convívio era difícil . Tudo o que ostentavam o ofendia profundamente. E acrescentou, "Todos os dias eu falava sobre a compaixão e à noite ia para casa e chorar e lamentar o fato de não ter nenhuma. Como não gostava dos discípulos tinha de me dedicar arduamente ao cultivo de um bom coração." Suzuki Roshi comenta na sua palestra que é exatamente assim: descobrimos que somos o pior cavalo e sabemos que temos que fazer um esforço suplementar.

Em Gampo Abbey tivemos um monge tibetano, Lama Sherap Tendar, que nos ensinou a tocar os instrumentos tibetanos. Tínhamos 49 dias para aprender a música e pensávamos que ainda teríamos de aprender muitas outras coisas neste período, mas durante 49 dias, duas vezes ao dia, tudo o que fizemos foi aprender a tocar pratos e tambor separados ou juntos. Praticávamos todos os dias, primeiro sozinhos e depois tocávamos para Lama Sherap sentado diante de nós, com uma expressão de sofrimento. Depois, tomava nossas mãos e ensinava-nos a tocar. Íamos depois praticar a sós e ele suspirava, assim foi por 49 dias. Nunca nos disse que estávamos indo bem, mas era gentil e carinhoso. Finalmente, tivemos a nossa última apresentação e estávamos nos felicitando quando Lama Sherap disse: "Vocês tocavam bem. Vocês tocaram bem desde o começo mas eu sabia que se dissesse que estava bem não se empenhariam mais." Tinha razão, com seu jeito suave, não nos irritava nem nos desanimava, apenas mostrava que sabia tocar pratos, que fazia desde menino, e que teríamos de nos esforçar; assim, 49 dias fizemos um grande esforço.

Podemos praticar da mesma forma. Não precisamos ser rigorosos enquanto meditamos pensando que somos os piores, na categoria do pior cavalo. Podemos nos tratar com carinho e recorrer à nossa motivação para continuar nos dedicando à busca da nossa verdadeira natureza, porque não apenas a encontraremos, mas encontraremos também a dos demais. Bem lá no fundo todos achamos que somos o pior cavalo. Podemos nos considerar arrogantes, ou considerar os outros arrogantes, mas quem já foi arrogante sabe que é um artifício para encobrir o sentimento de ser o pior dos cavalos e então tentar provar o contrário.

Na sua palestra, Suzuki Roshi diz que na meditação e durante todo o processo de busca da nossa verdadeira natureza passamos por um grande engano, que não deve ser motivo para desânimo. Quando sentimos que estamos tombando na almofada nos pomos em prumo de novo, não por menosprezo pela fraqueza passageira, mas por orgulho em tudo o que nos ocorre, orgulho em quem somos tal como somos, orgulho no que temos de bom e de justo ou de pior em nós mesmos—o que quer que encontremos, na confiança que nos move.

A linhagem de budismo tibetano, Karma Kagyu, na qual praticam os alunos de Chogyam Trungpa também é chamada "a linhagem de contratempos" devido às múltiplas e constantes formas em que seus sábios e veneráveis mestres se enredaram. O primeiro foi Tilopa, um louco, completamente selvagem. Seu discípulo dileto foi Naropa. Naropa era um intelectual que deleitava em conceitos e que levou 12 anos sendo atropelado por tudo, passando por terríveis dificuldades antes que começasse a acordar. Baseava-se tanto em conceitos que se alguém fizesse qualquer afirmação, ele contestava: "Oh, sim, mas por aquilo, você quer certamente dizer isto." Tinha este tipo de mente. Seu aluno dileto foi Marpa, notório pelo seu temperamento explosivo com acessos de raiva em que xingava e batia nas pessoas. Também era bêbado e irredutível. . Rinpoche costumava dizer que Marpa começou a estudar o Dharma porque pensava que poderia ganhar muito dinheiro trazendo textos em sânscrito da Índia para serem traduzidos para o tibetano. Seu discípulo, Milarepa começou a praticar porque tinha medo de ir para o inferno por ter assassinado muita gente, tinha medo! O aluno dileto de Milarepa foi Gampopa (que deu nome a Gampo Abbey) Tudo lhe era fácil, e Gampopa era arrogante. Por exemplo, na noite antes de encontrar Gampopa pela primeira vez, Milarepa comentou aos seus discípulos, "Meu futuro discípulo dileto está chegando amanhã. Quem quer que o traga até a mim será muito beneficiado." Assim, quando Gampopa chegou à cidade, uma velha correu até ele dizendo-lhe, "Milarepa disse que você estaria chegando e que está destinado a ser um de seus principais discípulos, gostaria que fosse a minha filha a encaminha-lo até ele." Gampopa, julgando-se muito importante, dirigiu-se orgulhoso a Milarepa certo de que seria recebido com todas as honras. Contudo, Milarepa ordenou que fosse conduzido a uma gruta e recusou-se a recebe-lo durante três semanas.

O discípulo dileto de Gampopa foi o primeiro Karmapa e apenas sabemos que era muito feio. Dizem que parecia com macaco. Sobre ele, conta-se que, com outros dos iminentes discípulos de Gampopa foram expulsos do mosteiro por se terem embebedado, cantado, dançado e em geral rompido as regras de disciplina monástica.

Assim, podemos nos animar! São estes os sábios que se encontram aqui no altar diante de nós, a quem nos prostramos. Prostramo-nos a eles como exemplos da nossa própria mente de sabedoria e das dos seres iluminados mas vale também prostrarmo-nos a eles como seres confusos, neuróticos, em nada diferentes de nós mesmos. São bons exemplos de pessoas que nunca desistiram do caminho, que nunca temeram serem quem eram e que portanto encontraram a qualidade autêntica das suas verdadeiras naturezas.

Quero dizer que a nossa verdadeira natureza não é um ideal a ser realizado, mas sim é exatamente o que somos agora e é por ela mesmo que vamos festejar e cultivar o nosso apreço..