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A Mente

do livro "A Doutrina Zen da Não-Mente"
de Daisetz Teitaro Suzuki


A concepção de Hui-neng acerca de wu-nien, que constitui o pensamento central do ensinamento zen, foi naturalmente continuada por Shen-hui nos seus Aforismos, onde se encontra uma explicação mais acabada, como já vimos. Citemos agora Te-shan e Huang-po. Um dos sermões de Te-shan diz: "Quando não houver inquietação dentro de ti, não tentes procurar algo lá fora. Mesmo alcançando o que procuras, não terás um lucro real. Procura não ter inquietação alguma em tua mente e permanece ‘inconsciente’ a respeito de tuas ocupações. Então, existirá o Vazio que funciona misteriosamente, a vacuidade que opera maravilhas. Quando começas a falar sobre o princípio e o fim deste [mistério], te iludes. Basta acalentar um nadinha de pensamento para fazer o karma entrar em ação, o que te conduz a maus caminhos. Basta que consintas que um lampejo de imaginação atravesse a tua mente para que te escravizes por dez mil kalpas. Palavras como santidade e ignorância não passam de palavras vãs; formas perfeitas e feitios inferiores são meras ilusões; se os perseguires, como poderás escapar de complicações? Mas tentar afastá-las também te trará grandes calamidades. Em ambos os casos, tudo não passa de futilidade."

Huang-po Hsi-yun, no começo do livro a que já me referi, fala da Mente que é o Buda e fora da qual não há outro meio de realizar a Iluminação. A Mente significa "estado de não-mente", e chegar a ela é a verdadeira meta da vida budista. O que se segue deve ser lido à luz do diagrama 1 e também em conexão com a idéia de Hui-neng sobre o estado de Buda, para que o ensinamento fundamental do Zen se torne mais compreensível.

"O mestre Huang-po disse a P’ei-hsin: os Budas, como também todos os seres sensíveis, têm uma só Mente; e não há outros Dharmas (objetos). Essa Mente não tem começo, nunca nasceu e nunca morrerá; não é azul nem amarela; não tem forma nem feitio; não pertence a [categorias de] ser e não-ser; não deve ser estimada velha ou nova; não é comprida nem curta, nem grande nem pequena; transcende todas as medidas, todos os nomes, todos os sinais de identificação e formas de contradição. É o absoluto ‘Isto’; a vacilação de um pensamento deixa que ela escape imediatamente. É como o vácuo do espaço; sem fronteiras, inteiramente além do que se pode calcular.

"Existe apenas essa Mente Única, que constitui o estado de Buda e nela se acham os Budas e todos os seres sensíveis, sem demonstrar diferenças, senão que estão apegados à forma e procuram [a Mente] fora de si mesmos. Por isso, quanto mais procuram, mais longe vão perdê-la. Se o Buda procura por si fora de si, se a Mente procura por si fora de si mesma, nunca haverá encontro até o fim dos tempos. Interrompe os pensamentos, esquece os teus desejos e o Buda se manifestará bem diante de teus olhos.

"Essa Mente nada mais é do que Buda e o Buda nada mais é do que os seres sensíveis. Sendo essa Mente os seres sensíveis, ela não se apresenta diminuída; sendo o Buda, ela não apresenta aumento. Ela contém implicitamente as seis virtudes da perfeição, as dez mil obras da bondade e todos os méritos em número igual ao das areias do Ganga; a ela, nada se acrescenta que tenha vindo de fora. Ela se dá livremente quando se lhe apresentam condições; mas quando cessam as condições, ela se aquieta. Quem não tem uma fé muito firme nessa Mente, que é o Buda, e busca méritos apegando-se à forma e praticando diversas medidas disciplinares, cria idéias falsas que não estão de acordo com o Tao.

"Essa Mente é o Buda e não há outros Budas a não ser este. Nem há outras mentes que sejam o Buda. A pureza da Mente é como o céu onde não há partícula de forma. Quando a mente desperta, quando um pensamento se agita, vocês se afastam do próprio Dharma, e isso se chama apego à forma. Nunca, por toda a eternidade, houve Budas presos à forma. Se você pretende atingir o estado de Buda praticando as seis virtudes da perfeição e os dez mil atos de bondade, está querendo determinar o seu próprio progresso; e nunca, em toda a eternidade, houve Budas que se graduaram seguindo um curso preestabelecido. Basta uma percepção interior da Mente Única para se descobrir que - não existe coisa alguma que se possa reivindicar como sua. Isto constitui o verdadeiro estado de Buda.

"O Buda e os seres sensíveis formam uma Única Mente e não há distinções entre eles. E como o espaço sem misturas, sem coisa alguma de perecível; é o grande sol iluminando os quatro cantos do mundo.* Quando o sol se levanta, a luz enche o mundo, mas o espaço, ele próprio, não é brilhante; quando o sol se põe, a escuridão enche o mundo, mas o próprio espaço não é escuro. A iluminação e a escuridão são condições que se substituem uma à outra; quanto ao imenso vácuo que caracteriza o espaço, permanece sempre imutável. A Mente que constitui o Buda e todos os seres sensíveis é assim; se se considerar o Buda uma forma pura, brilhante e livre, e considerar os seres sensíveis como uma forma manchada, escura, ignorante e sujeita ao nascimento e à morte, enquanto você mantiver essa opinião, nunca atingirá a iluminação, nem mesmo depois de um número de kalpas igual ao das areias do Ganga pois você está apegado à forma. Dever-se-ia saber que há uma Mente Única e, fora dela, não há um átomo de coisa alguma que se possa reivindicar como seu.

"A mente nada mais é do que o Buda. Hoje os que buscam a verdade não compreendem o que é essa Mente e, erigindo uma mente na Mente, procuram o Buda num mundo exterior a ela, apegam-se à forma e adotam disciplinas. Este é um caminho errado; de modo algum é o caminho que leva à iluminação.

"[Dizem que] é melhor fazer oferendas a um monge que alcançou o ‘estado de não-mente’ (wu-ksin) do que fazê-las a todos os Budas das dez regiões. Por quê? Estado de não-mente significa não ter mente (ou pensamentos) de qualquer espécie. lnteriormente, o Corpo da Qüididade é como pau ou pedra: imóvel, impassível; exteriormente, é como o espaço onde não há obstruções ou impedimentos. Transcende sujeito e objeto, prescinde de qualquer ponto de orientação, não tem forma nem conhece ganho ou perda. Os que perseguem [as coisas exteriores] não se aventuram a penetrar neste Dharma, pois imaginam que vão cair num estado de inexistência onde, completamente desamparados, não saberão o que fazer. Por essa razão, eles apenas espiam e logo batem em retirada. São geralmente assim os que procuram o vasto saber. De fato, esses buscadores do vasto saber são como cabelos [isto é, são muitos] enquanto que os que compreendem a verdade são como chifres (isto é, são muito poucos)."

As expressões chinesas, especialmente as que se usam para transmitir o pensamento zen, são cheias de significado e, quando traduzidas para línguas como o português, perdem por completo o poder de sugestão que possuem no original. A própria imprecisão, tão característica do estilo literário chinês, é de fato a sua força; para ligar os simples pontos de referência que são fornecidos, a fim de descobrir um significado, o conhecimento e a sensibilidade do leitor são a verdadeira determinante.

O Zen, que desdenha a verbosidade, quando forçado a expressar-se emprega o menor número de palavras possível, não apenas nos mondo (diálogos) formais e comuns, mas em qualquer dissertação comum em que o pensamento zen seja explicado. No sermão de Huang-po citado acima, e também no de Te-shan, encontramos algumas frases altamente significativas; uma delas, de Te-shan é: tan wu chi vu hsin, wu hsin yu shih; e outra, de Huang-po: chíh hsia wu hsin.

Aí está o ponto principal do ensino do Zen. A frase de Te-shan, literalmente, é: "A penas [tenha] nada na mente; tenha não-mente nas coisas". Enquanto Huang-po diz: "Para baixo, imediatamente, [tenha]não-mente".

Tanto Te-shan como Huang-po ensinam que o Zen é algo que está em contato direto com a nossa vida cotidiana; não há especulações que ascendam aos céus, não há abstrações que nos façam balançar a cabeça nem doçura sentimental capaz de transformar uma religião num drama de amor. Os fatos da experiência diária são encarados como se apresentam e deles se extrai um estado de não-mente. Diz Huang-po nas citações acima: "A Mente Original deve ser reconhecida no trabalho dos sentidos e dos pensamentos; só que ela não pertence a eles, nem é independente deles." O Inconsciente, cujo reconhecimento constitui o mushin, alinha toda a experiência que temos através dos sentidos e dos pensamentos. Quando, por exemplo, passamos pela experiência de ver uma árvore, tudo o que acontece nessa ocasião é a percepção de alguma coisa. Não sabemos se essa percepção é nossa nem que o objeto percebido está fora de nós. O conhecimento de um objeto exterior já pressupõe uma distinção entre o fora e o dentro, de sujeito e objeto, aquele que percebe e aquilo que é percebido. Quando essa separação acontece, é reconhecida como tal e é mantida, a natureza primária da experiência é esquecida e, a partir dai, começa uma série infindável de complicações intelectuais e emocionais.

O estado de não-mente refere-se ao tempo que precede a separação entre a mente e o mundo exterior, quando ainda não existe uma Mente contraposta a um mundo externo e dele recebendo impressões pelos canais dos sentidos. Ainda não existem nem a mente nem o mundo. Podemos dizer que isto é um estado de perfeito Vazio; mas enquanto ele durar, não há desenvolvimento nem experiência: é um mero nada fazer; é a própria morte, por assim dizer. Mas nós não somos feitos assim. Há um pensamento que desperta no meio do Vazio; isto é o despertar do Prajna, a separação do Inconsciente e do consciente ou, em termos de lógica, o despertar da antítese dialética fundamental. Mushin situa-se no lado Inconsciente do Prajna despertado, enquanto o seu lado consciente se desdobra num sujeito que percebe e num mundo exterior. Isso é o que Huang-po quer dizer quando afirma que a Mente Original nem depende nem independe daquilo que é visto (drista), ouvido (sruta), pensado (mata) ou conhecido (jnata). O Inconsciente e o mundo da consciência têm direções opostas mas ainda assim permanecem contíguos, uni condicionando o outro. Um nega o outro, mas essa negação, na realidade, é uma afirmação.

* Para os antigos, o espaço geográfico não era homogêneo. Cada ponto cardeal assinalava uma região qualitativamente distinta das outras, ou seja, um "mundo" diferente. Assim, a leste havia um mundo germinal, primaveril, a oeste um mundo Crepuscular etc.