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INTRODUÇÃO AO DZOGCHEN
Uma visão do Dzogchen através dos textos
Este é um trabalho de seleção e ordenação de textos
de vários autores e mestres dzogchen por
Karma Tenpa Darghye.

Descobri que aos modernos praticantes da espiritualidade falta conhecimento de como integrar a prática da meditação com a vida de todo dia. Nunca será demais dizer: integrar meditação na ação é a base e o ponto central, o propósito da própria meditação. A violência e a tensão, os desafios e as distrações da vida moderna fazem essa integração ainda mais urgente e necessária.

As pessoas se queixam a mim: "Meditei por doze anos, mas de alguma forma não mudei. Ainda sou o mesmo. Por quê?" Porque há um abismo entre sua prática espiritual e seu dia-a-dia. Eles parecem existir em dois mundos separados e nenhum desses mundos inspira o outro. Lembro-me de um professor que conheci numa escola do Tibete. Era brilhante na exposição das regras de gramática tibetana mas não conseguia escrever uma frase corretamente!

Como obter então essa integração, esse permear do quotidiano com o calmo estado de espírito e o largo desapego da meditação? Não há substituto para a prática regular, porque apenas através da prática real começaremos a experimentar de maneira inquebrantável a tranqüilidade da natureza da nossa mente, sendo assim capazes de sustentar essa experiência na vida de todo dia.

Digo sempre aos meus estudantes para não saírem da meditação muito depressa: dê um período de alguns minutos para que a paz da prática da meditação se infiltre na sua vida. Como dizia meu mestre Dudjom Rinpoche: "Não se atire ou saia correndo, mas procure mesclar sua presença mental com a vida de todo dia. Seja como um homem que fraturou o crânio, sempre cauteloso quando alguém vai tocá-lo".

Então, após meditar, é importante não se entregar à tendência que temos para solidificar o modo como percebemos as coisas. Quando você retorna à vida de todo dia, deixe que a sabedoria, a percepção de si mesmo, a compaixão, o humor, a fluidez, o espaço e o desapego que a meditação lhe trouxe penetrem na sua experiência quotidiana. A meditação desperta em você a realização de como a natureza de tudo é ilusória, semelhante ao sonho; mantenha essa consciência mesmo no mais denso do samsara. Um grande mestre disse: "Depois da prática da meditação, devemos nos tornar filhos da ilusão".

Dudjom Rinpoche aconselhou: "Num certo sentido tudo é como o sonho, é ilusório, mas mesmo assim você continua fazendo as coisas, com disposição de espírito. Por exemplo, se está caminhando, caminhe alegremente pelo espaço aberto da verdade, sem desnecessária solenidade ou constrangimento. Quando se sentar, seja a cidadela da verdade. Enquanto come, alimente suas negatividades e ilusões na barriga da vacuidade, dissolvendo-as no espaço que permeia tudo. E quando vai ao banheiro, pense que todos os seus obscurecimentos e bloqueios estão sendo limpos e eliminados".

Então o que importa de fato não é só a prática de sentar-se para meditar, mas muito mais o estado da mente em que você se encontra depois da meditação. É esse calmo e centrado estado da mente que você deve prolongar em tudo o que faz. Gosto da história Zen em que o discípulo pergunta ao mestre:

— "Mestre, como o senhor põe a iluminação em ação, como prática na vida de todo dia?"

— "Comendo e dormindo", responde o mestre.

— "Mas, Mestre, todo mundo come e todo mundo dorme".

— "Mas nem todos comem quando comem e nem todos dormem quando dormem."

Daí vem a famosa citação Zen: "Quando como, como; quando durmo, durmo".

Comer quando você come e dormir quando você dorme significa estar inteiramente presente em todas as suas ações, sem nenhuma das distrações do ego impedindo-o de estar lá. Isso é integração. E se você quer consegui-la, o que precisa fazer não é praticar apenas como remédio ou terapia ocasional, mas como se isso fosse seu sustento diário ou alimentação. Por isso, um modo excelente de desenvolver a capacidade de integração é praticar num ambiente de retiro, longe das tensões da vida urbana moderna.

Com muita freqüência as pessoas procuram a meditação com a esperança de resultados extraordinários, como visões, luzes ou algum milagre sobrenatural. Quando nada disso acontece, sentem-se desapontadas. Mas o milagre verdadeiro da meditação é mais ordinário e muito mais útil. É uma transformação sutil, que não acontece apenas na sua mente e nas suas emoções mas também e realmente no seu corpo. E é muito curativa. Cientistas e médicos descobriram que, quando você está em boa disposição de espírito, até mesmo as células do seu corpo estão como se se sentissem mais felizes; e quando sua mente está num estado negativo, suas células podem se tornar malignas. O estado geral de sua saúde tem muito a ver com o estado da sua mente e com seu modo de ser.

INSPIRAÇÃO

Disse aqui que a meditação é a estrada para a iluminação e o maior empenho da nossa vida. Todas as vezes que falo a respeito da meditação para meus alunos, sublinho a necessidade de praticá-la com disciplina resoluta e orientada devoção; ao mesmo tempo, sempre lhes digo como é importante fazer isso do modo mais criativo e inspirado possível. Em certo sentido a meditação é uma arte, e você deve trazer até ela o deleite do artista e a fertilidade da invenção.

Torne-se tão engenhoso no inspirar-se para obter sua paz quanto você é nas andanças neuróticas e competitivas do mundo. E se achar que a meditação não chega fácil à sua sala na cidade, seja criativo e saia para a natureza. Ela é sempre uma fonte infalível de inspiração. Para acalmar sua mente, dê um passeio no parque ao nascer do sol, ou observe o sereno numa rosa do jardim. Deite-se na grama e contemple o céu, deixando sua mente se expandir em sua amplidão. Deixe que o céu de fora desperte o céu que há dentro de você. Entre num riacho e misture sua mente à música da água; torne-se um com essa sonoridade incessante. Sente-se ao lado de uma cascata e deixe seu riso purificador refrescar-lhe o espírito. Caminhe numa praia e receba o vento do mar, em cheio, doce, em seu rosto. Comemore e use a beleza do luar para equilibrar sua mente. Sente-se junto a um lago ou num jardim e, respirando tranqüilamente, deixe sua mente quedar-se silenciosa enquanto a lua sobe majestosa e lenta na noite sem nuvens.

Tudo pode ser usado como um convite à meditação. Um sorriso, um rosto no metrô, a visão de uma pequenina flor crescendo numa rachadura do calçamento, um belo traje numa vitrina, o modo como o sol banha vasos de flores no peitoril de uma janela. Esteja desperto para qualquer sinal de beleza e graça. Ofereça cada alegria, mantenha-se desperto em todos os momentos para "as novidades que sempre estão chegando do silêncio".

Aos poucos você se transformará no mestre de sua própria bem-aventurança, o alquimista de sua própria alegria, com todas as espécies de medicamento sempre à mão para elevar, incentivar, iluminar e inspirar cada respiração e movimento seus. O que é um grande praticante espiritual? É alguém que vive sempre em presença do seu próprio eu verdadeiro, alguém que encontrou e usa sempre as fontes da inspiração profunda. Como o moderno escritor inglês Lewis Thompson escreveu: "Cristo, poeta supremo, viveu a verdade tão apaixonadamente que cada gesto seu, a uma só vez Ato puro e Símbolo perfeito, personifica o transcendente".

É para personificar o transcendente que estamos aqui.

O LIVRO TIBETANO DO VIVER E DO MORRER – Sogyal Rinpoche